Chuvas irregulares mantêm pega do café, mas clima ainda preocupa produtores
Agrônomos avaliam que pegamento ocorre após a florada, porém volumes de chuva seguem abaixo do ideal e afastam expectativa de super safra
As
chuvas registradas no final de 2025 e neste início de ano seguem irregulares e
em volumes inferiores ao necessário para o pleno desenvolvimento das lavouras
de café na região de São Sebastião do Paraíso. Ainda assim, o pegamento dos
frutos ocorre, com avaliações técnicas que indicam manutenção da carga neste
início de ciclo, embora o comportamento do clima siga como fator de atenção
para a próxima safra.
Na
avaliação de especialistas que acompanham de perto o campo, a lavoura entra
nesta fase com desenvolvimento considerado razoável, sustentada pelas
precipitações ocorridas nos meses anteriores à florada. Ouvidos pelo “JS”,
destacam que, apesar da limitação hídrica, o café consegue avançar neste momento
inicial do ciclo produtivo.
Para o
engenheiro agrônomo e cafeicultor Flávio Pereira de Mello, proprietário da
Fazenda Nova Aliança, em Monte Santo de Minas, as chuvas de janeiro ainda
ocorrem de forma esparsa, mas não chegam, até agora, a comprometer o pegamento.
Segundo ele, a cultura se beneficia das chuvas registradas em novembro e
dezembro, o que contribui para o desenvolvimento dos frutos.
“Considerando
as chuvas de janeiro, elas ainda estão poucas e bem esparsas, com volumes
abaixo do ideal. Mas a lavoura já vem de chuvas de novembro e dezembro e chega
bem desenvolvida. Existe necessidade de mais volume, mas a planta está se
adaptando. A granação tende a acontecer”, avalia.
O
técnico em fitotecnia, pós graduado em cafeicultura empresarial, José Aparecido
Ricci, que atua em São Sebastião do Paraíso, faz avaliação semelhante quanto à
irregularidade das chuvas e ao comportamento da planta neste período. Ele
observa que o volume de precipitações não é suficiente para garantir condições
ideais, especialmente em lavouras mais debilitadas, mas reconhece que o
pega-mento ocorre em áreas bem conduzidas.
Ambos os
agrônomos também concordam que a queda de “chumbinho” — perda natural de parte
dos frutos recém-formados — ocorre neste período e está relacionada às condições
climáticas após a florada. Flávio avalia que essa queda permanece dentro da
normalidade da cultura, enquanto Ricci ressalta que o impacto é maior em
lavouras pouco enfolhadas ou sem preparo adequado. “Houve queda de chumbinho,
que é normal nessa época do ano, mas dentro de uma normalidade. O pegamento
está bom”, afirma Flávio.
Ricci
complementa que lavouras com menor área foliar sentem mais os efeitos da
restrição hídrica. “As lavouras que estavam com pouca folha, sem preparo,
tiveram queda de chumbinho muito maior”, diz.
Ambos
também apontam diferenças no comportamento entre lavouras novas e adultas.
Conforme explicam, plantas mais antigas, com sistema radicular mais profundo,
conseguem buscar umidade em camadas inferiores do solo e, assim, reter melhor
os frutos. Já lavouras mais jovens dependem mais da regularidade das chuvas e
do bom enfolha-mento para garantir o pega-mento.
No
entanto, é na projeção da próxima safra que surgem leituras distintas. Flávio
mantém avaliação mais cautelosa, indicando que a lavoura responde ao manejo e
às chuvas recentes, enquanto Ricci afasta a possibilidade de uma supersafra.
Para ele, o desempenho deve ser semelhante ao da safra passada, com variações
condicionadas ao clima dos próximos meses.
“Estão
falando em super-safra, mas isso não deve acontecer. A safra tende a ser
parecida com a anterior, talvez um pouco maior ou até menor. Tudo vai depender
do que acontecer entre fevereiro e março. Se vier uma seca prolongada, o
impacto pode ser grande”, alerta Ricci.
Outro ponto
levantado por Ricci é a elevada incidência de café moca, grão que se forma
quando apenas um dos ovários da flor é fecundado, geralmente em situações de
estresse hídrico. Segundo ele, a porcentagem elevada desse tipo de grão pode
comprometer o rendimento da colheita, exigindo maior volume de café cereja para
a formação de uma saca beneficiada.
Ricci
sugeriu à reportagem que fosse verificada junto à Fazenda experimental da
Epamig, qual foi a precipitação pluviométrica de janeiro a dezembro de2025 no
município paraisense, que ele afirma ser fator importante para avaliação, ao se
analisar o atual quadro das lavouras. No entanto a reportagem não conseguiu
fazer o contato.
Apesar das diferenças na leitura do cenário futuro, ambos concordam que o fator climático será determinante para o resultado final da safra. Chuvas bem distribuídas, temperaturas mais amenas e ausência de veranicos prolongados nos próximos meses são apontadas como decisivas tanto para o tamanho da produção quanto para a qualidade dos grãos.


