Varginha e o rastro de um dinheiro que atravessou a Segunda Guerra

Foto: Arquivo Mariano Bícego
Inauguração CBC

Durante muito tempo, a história do Sul de Minas nos anos 1950 foi contada como uma narrativa de progresso. Cidades marcadas pelo café buscavam se modernizar, atrair indústrias, gerar empregos e se integrar ao Brasil que se industrializava no pós-guerra. Nesse contexto, Varginha tornou-se um símbolo regional dessa transformação. A inauguração da Companhia Brasileira de Caldeiras (CBC), em setembro de 1955, foi celebrada como um divisor de águas: tecnologia pesada, empregos qualificados e projeção nacional para o município.

Mas uma investigação histórica recente, levada a cabo pelo historiador paraisense Mariano Bícego — apoiada em documentos, reportagens internacionais e arquivos do pós-Segunda Guerra Mundial — mostra que Varginha também se conecta, ainda que indiretamente, a uma história global muito maior, envolvendo a fuga de capitais do regime nazista, redes financeiras na Europa e investimentos na América do Sul.

No centro dessa trama está Friedrich Gustav Kadgien, um nome praticamente desconhecido do público brasileiro, mas conhecido por investigadores americanos no final dos anos 1940 como um dos operadores econômicos do Terceiro Reich. Diferentemente dos oficiais militares ou líderes políticos, Kadgien atuava nos bastidores, como jurista e financista, ligado ao Plano Quadrienal, a poderosa estrutura criada em 1936 para preparar a Alemanha para a guerra total e sobreviveu à Segunda Guerra, enviando bilhões de dólares, francos, libras, ouro, joias, para os cofres secretos dos bancos suíços ao final da guerra, guardando as chaves dos cofres destes bancos, riquezas amealhadas através do Plano Quadrienal.

O dinheiro por trás da guerra

O Plano Quadrienal, chefiado por Hermann Göring, funcionava como um Estado dentro do Estado. Controlava a economia, o câmbio, as importações estratégicas e, sobretudo, a obtenção de moeda estrangeira. Para financiar o esforço de guerra, o regime nazista lançou mão do confisco sistemático de bens pertencentes a judeus perseguidos: contas bancárias, joias, diamantes, ações, títulos e obras de arte.

Coube a técnicos civis da confiança de Goring, como Kadgien, a função de “realizar” esses bens, ou seja, transformá-los em dinheiro utilizável nos mercados internacionais. Enquanto a guerra se desenrolava nos campos de batalha, havia uma guerra paralela nos bancos, escritórios e mesas de câmbio.

Com a derrota da Alemanha em 1945, muitos integrantes do regime foram presos ou julgados. Kadgien, porém, conseguiu escapar. Refugiou-se na Suíça, país que, no pós-guerra, tornou-se um dos principais centros de reorganização de capitais ligados ao antigo Reich.

Da Europa ao Brasil

Na Suíça, Kadgien se associou a outros dois operadores econômicos — o suíço Ernst Imfeld e o alemão Ludwig Haupt — formando a empresa IMHAUKA. Oficialmente, tratava-se de uma trading financeira. Na prática, funcionava como uma ponte entre o dinheiro acumulado durante a guerra e novos investimentos fora da Europa.

Estimativas citadas em investigações jornalísticas internacionais indicam que a rede controlada por esses sócios movimentou dezenas ou até centenas de milhões de francos suíços, valores que, corrigidos para os padrões atuais, alcançam cifras bilionárias. Parte significativa desse capital seguiu para a América do Sul, especialmente para Brasil e Argentina.

O Brasil dos anos 1950 oferecia condições favoráveis: industrialização acelerada, necessidade de capital estrangeiro, pouca fiscalização sobre a origem dos recursos e um ambiente político interessado em crescimento econômico. No Rio de Janeiro, então capital federal, foi criada a Imhauka Brasileira Industrial e Comercial S.A. Paralelamente, investimentos rurais surgiram no Centro-Oeste, incluindo uma vasta fazenda no Pantanal sulmatogrossense, às margens do Rio Taquari, com cerca de 83 mil hectares. Os dois nazistas, Kadgien e Haupt viviam tranquilamente por estas paragens brasileiras e argentinas de maneira tranquila, nem se importando em mudar o nome alemão.

O papel de Varginha

É nesse cenário que Varginha ganha relevância histórica. Na primeira metade da década de 1950, a cidade buscava romper a dependência exclusiva do café e se inserir no processo de industrialização nacional. A chegada da CBC foi vista como a concretização desse objetivo.

A inauguração da fábrica, em setembro de 1955, reuniu autoridades, empresários e políticos, inclusive o governador e então candidato a presidente, Juscelino Kubitschek e o prefeito de Varginha, João Vidal, recebidos pelos dois alemães agora donos da CBC. Fotografias da época registram discursos otimistas, visitas oficiais e a expectativa de que Varginha se tornasse um polo industrial do Sul de Minas. A CBC simbolizava emprego, tecnologia e moder-nidade.

Hoje, ao revisitar esse período, historiadores ressaltam que Varginha não foi exceção, mas exemplo de um movimento mais amplo. Cidades médias brasileiras tornaram-se destinos de capitais estrangeiros no pós-guerra, muitas vezes sem questionar a origem desses recursos. O foco estava no desenvolvimento, não na procedência do dinheiro.

Importante destacar: não se trata de acusar a cidade ou seus trabalhadores. A população local via — e viveu — a CBC como oportunidade legítima de progresso. O que a investigação revela é como fluxos internacionais de capital, alguns deles oriundos de contextos obscuros, se integraram à economia brasileira sem grande escrutínio.

Um passado que retorna

Décadas depois, essa história voltou à tona de maneira inesperada. Em 2025, uma obra de arte do século XVIII, saqueada durante o regime nazista, reapareceu em fotos de um anúncio imobiliário na Argentina, em uma casa ligada à família de Kadgien, que se radicou na Argentina e onde Gustav Kadgien está enterrado. O caso ganhou repercussão internacional, levou a investigações policiais e reacendeu o interesse sobre a trajetória do operador financeiro e de suas redes no pós-guerra e a partir dali o historiador Mariano Bícego foi conectando todas as pontas, desde a Alemanha, Suíça, Rio, Buenos Aires e Varginha, produzindo um documentário para o canal Viagem na História, que tem repercutido não só na cidade de Varginha, mas em todo o Sul de Minas.

Para o historiador, esse episódio confirma que o dinheiro do nazismo não desapareceu com o fim da guerra. Ele foi redistribuído, investido, transformado em empresas, terras e indústrias — algumas delas integradas ao cotidiano de cidades brasileiras. E este documentário pode ser visto no Youtube no canal Viagem na História, com o titulo de Nazistas em Varginha.

Memória e responsabilidade

A história que liga Varginha ao pós-guerra europeu não diminui a importância da cidade nem apaga sua trajetória de trabalho e desenvolvimento. Pelo contrário: amplia o entendimento sobre como o Sul de Minas se conectou a processos globais, muitas vezes invisíveis à época.

Revisitar esse passado é um exercício de memória, não de julgamento. É reconhecer que o progresso brasileiro dos anos 1950 ocorreu num mundo marcado pelas consequências da maior guerra da história. E que, em meio a fábricas, inaugurações e empregos, circularam capitais cujo rastro só agora começa a ser plenamente compreendido.

A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945.

Mas suas marcas estão vividas até hoje.

Professor Mariano Bícego

canal Viagem da História (YouTube.com/viagemnahistoria),