Conversa de homem

Foto: Colagem Conversa de Homem - Marília Nogueira

Eu queria tanto escrever sobre outra coisa. O Brasil no Oscar este ano. A criação do Espaço Comare. O Fórum Municipal de Lixo e Cidadania. Meu vício em chocolate. Qualquer coisa. Mas não dá. Mais uma vez, a realidade me arrasta para o mesmo assunto: a vida de mulheres e meninas que vale muito pouco em nosso país.

Uma adolescente de 17 anos foi estuprada por cinco homens em um apartamento em Copacabana. Um dos homens se entregou à polícia vestindo uma camiseta com frase do movimento redpill: regret nothing. Não se arrepende de nada. A ficção de O Conto da Aia nunca pareceu tão próxima.

Temos as delegacias da mulher, a Lei Maria da Penha, o 180. Um aparato de enfrentamento muito mais robusto do que tínhamos há vinte anos. Por que a violência contra a mulher não diminui e em alguns casos, como o estupro, até aumenta?

Percebo duas causas. A primeira é a falta de prevenção. Não a prevenção da medida protetiva, mas algo que vem bem mais cedo: a educação de nossos meninos. Um homem misógino já foi um menino reproduzindo, muitas vezes sem entender, ideias machistas aprendidas em casa, na escola, na internet, nos grupos de amigos.

A segunda é a ausência dos homens nessa conversa. Cada vez que um homem ri de uma piada misógina, compartilha um meme que humilha mulheres ou se cala diante da violência de um amigo, ele ajuda a sustentar uma cultura que trata mulheres como objetos e não como indivíduos.

Existe hoje um projeto de lei que pretende criminalizar discursos misóginos associados a movimentos como o redpill, que espalham o desprezo às mulheres no ambiente online. É um debate importante e necessário. Mas nenhuma lei será suficiente se os homens continuarem tratando a misoginia como brincadeira, exagero ou “bobagem da internet”.

Mais importante do que qualquer projeto de lei é que os homens tomem para si essa luta. Que comecem a reagir aos discursos misóginos naturalizados em grupos de WhatsApp, vestiários e mesas de bar.

Não façam isso por suas mães, irmãs, filhas e amigas. Façam por todas as mulheres e por vocês mesmos, se desejam viver em um mundo menos brutal.

Com mais homens nessa conversa, quem sabe um dia me sobre mais tempo para falar de arte, cinema e chocolate.

 Marília Nogueira