Ex-paciente transforma gratidão em apoio no CAPS II de Paraíso
Artista Beatriz Augusto superou crises de ansiedade e pânico com acompanhamento da unidade e hoje retorna ao espaço para desenvolver atividades com os assistidos
A
história de Beatriz Augusto, a Bia, mostra como o cuidado em saúde mental pode
mudar trajetórias e reconstruir vínculos. Ex-paciente do CAPS II de São
Sebastião do Paraíso, ela chegou à unidade em meio a uma forte crise de
ansiedade e pânico, recebeu acompanhamento multiprofissional, teve alta e,
desde então, manteve a ligação com o serviço. Hoje, volta ao espaço não mais
como paciente em tratamento, mas como alguém que oferece apoio, acolhimento e
atividades artísticas aos assistidos.
Artista
visual, Bia conta que procurou o CAPS após orientação recebida na unidade de
saúde. Segundo ela, o atendimento foi decisivo para sua recuperação. “Eu
cheguei ao CAPS para fazer o tratamento. Eu tive uma crise de ansiedade, uma
crise de pânico muito forte. Fui orientada e vim para cá. Comecei o tratamento,
passei pelo psiquiatra e tive alta”, relata.
Ela
destaca que a melhora veio de forma rápida graças ao modelo de atendimento
oferecido na unidade, baseado em uma abordagem multidisciplinar. “O CAPS tem
esse tratamento com muitos profissionais trabalhando em volta de você para você
melhorar. A minha melhora foi muito rápida. Se eu não tivesse vindo para o
CAPS, eu não teria melhorado”, afirma.
Mesmo
após a alta, Bia decidiu continuar frequentando o espaço. Segundo ela, o
vínculo construído com a unidade passou a fazer parte de sua rotina e do
próprio processo de fortalecimento emocional. “Eu até entendo que não venho
aqui para colaborar. É o CAPS que colabora comigo, porque se tornou uma
extensão do tratamento. Toda vez que venho para cá, eu me sinto melhor”, diz.
Além
de manter esse contato, ela passou a desenvolver um trabalho junto aos usuários
por meio da arte. Para Bia, a produção artística pode contribuir positivamente
no cuidado em saúde mental por estimular criatividade, respiração, expressão e
convivência. “Eu venho visitar, porque eles se tornaram meus amigos. Acredito
muito que a arte agrega positivamente nos tratamentos. Aqui a gente pode
trabalhar criatividade e liberdade”, afirma.
A
artista também relata que sua trajetória no CAPS abriu caminhos para outros
projetos. Segundo ela, sua produção artística ganhou visibilidade em ações
ligadas à saúde mental e chegou até Ribeirão Preto. Dessa vivência nasceu
também um livro escrito por ela, no qual aborda a ansiedade, o tratamento e a
importância de procurar ajuda sem medo.
Ao
falar sobre o estigma que ainda recai sobre os serviços de saúde mental, Bia
defende mais respeito e informação. Para ela, o CAPS precisa ser visto como um
espaço de cuidado e acolhimento, e não como alvo de preconceito. “O CAPS não é
lugar de louco, não é lugar de brincadeira. É um lugar que deve ser respeitado.
As pessoas não devem ter medo de procurar ajuda quando estão sentindo
ansiedade, depressão ou outros sofrimentos mentais”, afirma.
Ela
lembra ainda que já enfrentou outros desafios de saúde, como um tratamento
oncológico, e diz que essa vivência reforçou sua percepção sobre a importância
da empatia. “A gente tem que ter respeito por todos”, resume.
A
coordenadora do CAPS II, Camila Barbosa Caetano, explica que a unidade atende
pessoas com transtornos mentais moderados e graves e trabalha com uma equipe
multiprofissional. Segundo ela, o diferencial do serviço está justamente na
diversidade de olhares e abordagens adotadas no acompanhamento dos pacientes.
“O tratamento aqui não é focado só no médico ou só no psicólogo. É uma equipe
multidisciplinar, com vários olhares, para melhor atender a necessidade de cada
um”, destaca.
Para
a profissional, histórias como a de Bia são uma demonstração concreta dos
resultados alcançados pela unidade. “Para a gente é satisfatório demais ver a
melhora, a reinserção da pessoa na sociedade e na vida, voltando à rotina. E
depois ainda ver essa gratidão e a vontade de retribuir de alguma forma. Isso é
muito gratificante”, afirma.
Camila
também ressalta que o CAPS funciona com acolhimento de porta aberta. Segundo ela,
qualquer pessoa ou familiar que perceba a necessidade de atendimento pode
procurar diretamente a unidade. Após o acolhimento inicial, a equipe avalia
cada situação e faz o encaminhamento mais adequado, seja dentro do próprio CAPS
ou para outro ponto da rede, em casos de menor complexidade. “A pessoa não
precisa de nada. É só chegar que vai ser acolhida e atendida. A partir da
demanda, a gente direciona para o tratamento específico”, explica.
Ainda sobre o caso de Bia, Camila enfatiza que a história da artista simboliza, na prática, “o que significa o cuidado em saúde mental: acolher, tratar, reinserir e manter abertas as portas para que o vínculo com a vida também seja retomado”.

