Castelo em ruínas
A Red Bull entrou em uma espiral negativa com a perda de peças importantes de seu alto escalão, e o que se vê na pista é consequência do desmanche
O título pode soar como clichê de mau gosto, mas é difícil
encontrar definição melhor para o momento da Red Bull na F1. A equipe vem
perdendo nomes-chave de seu alto escalão num curto espaço de tempo. A mais nova
baixa anunciada é a do engenheiro de corrida que trabalha diretamente com Max
Verstappen, Gianpiero Lambiase, que já tem destino definido: a McLaren, em
2028. Um anúncio feito com tanta antecedência leva a duas conclusões: ou
Lambiase será afastado de muitas informações que impactarão seu trabalho - o
que é bem provável -, por se tratar de um ambiente cheio de segredos, ou
deixará a equipe antes do previsto para cumprir a chamada ‘quarentena’, período
em que no mundo dos negócios, um profissional de peso tem que cumprir antes de
ingressar em uma empresa concorrente. Em ambos os cenários, a Red Bull perde.
A casa começou a se desarrumar após a morte do cofundador da
gigante de bebidas energéticas, Red Bull, Dietrich Mateschitz, em outubro de
2022 - um milionário apaixonado por automobilismo que comprou a equipe Jaguar e
fundou seu próprio time na F1 com o nome de sua empresa. A Red Bull construiu
duas eras dominantes: a de Sebastian Vettel, entre 2010 e 2013, e a de Max
Verstappen, de 2021 a 2024, ambos vencedores, respectivamente, de quatro
títulos consecutivos. Os números impressionam - 130 vitórias, 111 pole
positions, seis títulos de Construtores e oito de Pilotos - em 420 GPs
disputados, desde a estreia na Austrália em 2005.
Mas uma avalanche interna começou a desmoronar o castelo da
Red Bull. O escândalo de assédio sexual envolvendo o ex-chefe Christian Horner
não só manchou a imagem da equipe, como trouxe à tona uma disputa de poder que
já vinha acontecendo nos bastidores após a morte de Mateschitz, entre o próprio
Horner e Helmut Marko, que sempre foi o braço direito do fundador da equipe.
Marko era consultor com poderes de decisão e tinha o apoio dos Verstappen, pai
e filho, que também faziam oposição a Christian Horner.
A partir daí, alguns dos pilares de sustentação,
responsáveis pela Red Bull ser uma das equipes mais bem-sucedidas da F1
começaram a debandar. Rob Marshall, competente engenheiro que trabalhou por 17
anos ao lado de Adrian Newey na área de projetos, foi o primeiro deles, sendo
contratado pela McLaren em janeiro de 2024. Jonathan Wheatley, outro membro da
equipe de projetos liderada por Adrian Newey, saiu logo depois para se juntar à
Sauber (hoje Audi), da qual também se desligou recentemente. A situação ficou
insustentável para Christian Horner, que foi demitido da equipe em meados do
ano passado. A essa altura, o mago dos projetistas, Adrian Newey, também já
havia pedido demissão para se juntar à Aston Martin.
Quando as coisas pareciam se acalmar com a chegada do novo chefe, Laurent Mekies, e Verstappen engrenava uma arrancada fenomenal - descontando 104 pontos de desvantagem para terminar o campeonato apenas 2 pontos atrás do campeão, Lando Norris -, Helmut Marko anunciou sua saída da equipe ao final da temporada. Nos primeiros dias de 2026, foi a vez de outro nome importante, Will Courtney - mais um contratado pela McLaren - a deixar a Red Bull.
A perda de peças importantes, principalmente do departamento
técnico, tem reflexo no desastre que foram as três primeiras etapas da
temporada para a Red Bull, que somou apenas 16 pontos contra 135 da Mercedes. É
verdade que mudanças de regulamento tendem a alterar a relação de forças entre
as equipes da F1, mas a Red Bull ficou para trás muito mais do que se esperava
de uma equipe de ponta.
Com o anúncio da saída de Gianpiero Lambiase e diante das insatisfações do principal piloto da equipe com o regulamento, a pergunta que não quer calar é: Verstappen será o próximo? Motivos não faltam para ser.

