Protestos contra regulamento da F1 não foram em vão
A divisão de potência 50-50 entre motores a combustão e elétrico fracassou na F1, e a FIA já prepara mudanças para 2027
As inúmeras críticas ao
regulamento de motores introduzido neste ano na F1 não foram em vão. Na última
semana, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), em decisão aprovada
por unanimidade entre dirigentes da categoria e chefes de equipes, anunciou
mudanças para 2027: a divisão de potência entre os motores de combustão e
elétrico, deixará de ser 50-50 e passará a ser 60-40.
O assunto tem sido recorrente
nesta coluna e em praticamente toda a imprensa especializada desde os primeiros
testes de pré-temporada. Mas os alertas dos pilotos vêm de muito antes, desde
os primeiros testes de simuladores, em 2023, quando perceberam que o conceito
adotado poderia gerar graves problemas envolvendo mudanças no estilo de
pilotagem e gerenciamento de energia.
Quando os carros finalmente foram
para a pista, ficou claro que a F1 tinha um enorme abacaxi para descascar.
Alguns pilotos demonstraram insatisfação de forma contundente. Max Verstappen
foi o primeiro a disparar que “isso não é Fórmula 1”, e sequer escondeu a possibilidade
de deixar a categoria. Logo depois, Lewis Hamilton afirmou que os fãs não
entenderiam a complexidade das regras deste ano, e ironizou que seria preciso
um “diploma” para compreendê-las. Fernando Alonso foi ainda mais crítico ao
dizer que até o cozinheiro de sua equipe (Aston Martin) seria capaz de guiar os
carros atuais, tamanha perda de protagonismo dos pilotos.
As críticas não ficaram restritas
aos multicampeões. O atual campeão Lando Norris também se manifestou, assim
como Charles Leclerc, Oscar Piastri, Carlos Sainz. Os fãs reagiram mal, assim
como a imprensa especializada. E as tentativas de Stefano Domenicali, CEO da
F1, de minimizar a crise, vendendo a ideia de que o público estava satisfeito
com as disputas, não surtiram efeito.
As deprimentes desacelerações e
perda de potência dos carros em plena reta para regeneração de energia - mesmo
com o pé do piloto cravado no acelerador - pegaram muito mal para a imagem da
F1. Pior ainda era ver os pilotos impotentes de extrair o máximo desempenho dos
carros durante as voltas de classificação por conta do gerenciamento de
energia. Bastaram apenas três corridas para que os primeiros ajustes fossem
anunciados, ainda que os GPs da Austrália, China e Japão tenham proporcionado
várias disputas.
As mudanças implementadas para o
GP de Miami produziram efeitos positivos, mas ainda é cedo para saber se a
melhora será consistente ou foi apenas consequência das características do
traçado, composto por curvas de baixa velocidade que favorecem a regeneração de
energia.
Para este ano não há muito mais o
que fazer diante da complexidade do caso. A saída para tentar amenizar os danos
será ajustar os softwares de gerenciamento de energia de acordo com as
características de cada circuito, e reduzir a artificialidade das
ultrapassagens que ganharam o apelido de “ioiô”, quando o piloto ultrapassa,
perde energia, é ultrapassado novamente e a sequência se repete por várias
vezes.
Para 2027, a nova divisão de
potência será de 60% para o motor de combustão e 40% do elétrico. O motor
térmico ganhará cerca de 50 kw, chegando próximo dos 600 cavalos, enquanto o
sistema elétrico perderá a potência na mesma proporção. A tendência é que isso
exigirá aumento do fluxo de combustível, que requer mudanças no tamanho e capacidade
do tanque de combustível.
Uma coisa já parece definitiva: a proporção 50-50 entre os motores a combustão e elétrico, não deu certo na F1. Menos mal que os dirigentes tiveram a mente aberta para corrigir o erro. Mas já há um clamor, dentro e fora do paddock, pela volta dos motores V8 aspirados a partir de 2030.


