Hoje derrubei uma xícara de café sobre a cama.
Adquiri esse hábito de acordar e, antes de qualquer coisa,
pegar o celular: checar o WhatsApp, dar uma "olhadinha rápida" nas
notícias, no Instagram. Às vezes meu marido nota minha demora para chegar à
cozinha e vem com um café preto como incentivo. Hoje, entretida com meu
brinquedinho, esqueci que segurava a bendita xícara na outra mão. Lá se foi
metade do seu conteúdo sobre os lençóis — bela forma de começar o dia!
Eu sei que o celular me deixa ansiosa. Sei que me faz perder
tempo, comparar minha vida com a de gente que nem conheço, desejar coisas que
nem sabia que existiam até três segundos atrás. O tempo perdido vira culpa, a
culpa vira um mal-estar que se instala na cabeça e no corpo. E mesmo sabendo
disso, eu continuo. Agora mesmo peguei o celular três vezes enquanto escrevia
este parágrafo. Sinto vergonha, sinto raiva de mim mesma, e sigo tratando como
normal, um “vício inofensivo”.
Outro dia vi uma criança de uns seis anos em um restaurante
com os pais, cada um com a tela do próprio celular a poucos centímetros do
rosto. A mesma banalidade do meu hábito, ampliada. O celular ali, entre os dois
adultos e o prato, provavelmente não nascia de indiferença: nascia do mesmo
cansaço que me faz esticar o braço antes mesmo de abrir os olhos. Mas os
minutos que parecem neutros, isolados, se acumulam. A mesma cena, repetida em
milhares de refeições, vira uma infância inteira.
Eu fui uma criança ansiosa.
O celular não inventou minha ansiedade; quando eu era
criança, ele nem existia. Talvez tenha apenas encontrado em mim um terreno já
preparado. Vivi anos da vida adulta no mundo analógico: viajei com mapa de
papel, usei ficha de telefone público, ouvi música em discman e fiz backup em
disquete no meu primeiro emprego. Parece história antiga, mas não faz tanto
tempo que o silêncio e a espera faziam parte dos nossos dias.
Não sei se essa velocidade toda está mudando a forma como
nos relacionamos.
Mas uma coisa é certa: hoje troquei os lençois manchados em
vez de tomar aquele café, ainda quente, ao lado do meu marido.
Marília Nogueira

