Café derramado

Foto: Reprodução/ iStockphoto/Getty Images

Hoje derrubei uma xícara de café sobre a cama.

Adquiri esse hábito de acordar e, antes de qualquer coisa, pegar o celular: checar o WhatsApp, dar uma "olhadinha rápida" nas notícias, no Instagram. Às vezes meu marido nota minha demora para chegar à cozinha e vem com um café preto como incentivo. Hoje, entretida com meu brinquedinho, esqueci que segurava a bendita xícara na outra mão. Lá se foi metade do seu conteúdo sobre os lençóis — bela forma de começar o dia! 

Eu sei que o celular me deixa ansiosa. Sei que me faz perder tempo, comparar minha vida com a de gente que nem conheço, desejar coisas que nem sabia que existiam até três segundos atrás. O tempo perdido vira culpa, a culpa vira um mal-estar que se instala na cabeça e no corpo. E mesmo sabendo disso, eu continuo. Agora mesmo peguei o celular três vezes enquanto escrevia este parágrafo. Sinto vergonha, sinto raiva de mim mesma, e sigo tratando como normal, um “vício inofensivo”.

Outro dia vi uma criança de uns seis anos em um restaurante com os pais, cada um com a tela do próprio celular a poucos centímetros do rosto. A mesma banalidade do meu hábito, ampliada. O celular ali, entre os dois adultos e o prato, provavelmente não nascia de indiferença: nascia do mesmo cansaço que me faz esticar o braço antes mesmo de abrir os olhos. Mas os minutos que parecem neutros, isolados, se acumulam. A mesma cena, repetida em milhares de refeições, vira uma infância inteira.

Eu fui uma criança ansiosa.

O celular não inventou minha ansiedade; quando eu era criança, ele nem existia. Talvez tenha apenas encontrado em mim um terreno já preparado. Vivi anos da vida adulta no mundo analógico: viajei com mapa de papel, usei ficha de telefone público, ouvi música em discman e fiz backup em disquete no meu primeiro emprego. Parece história antiga, mas não faz tanto tempo que o silêncio e a espera faziam parte dos nossos dias.

Não sei se essa velocidade toda está mudando a forma como nos relacionamos.

Mas uma coisa é certa: hoje troquei os lençois manchados em vez de tomar aquele café, ainda quente, ao lado do meu marido.
Marília Nogueira