Aos 100 anos, Elpídio José Martins celebra uma vida dedicada à família e ao trabalho

Centenário reuniu familiares e amigos em missa na Igreja São José
Foto: Nelson Duarte/Jornal Sudoeste

Um século de vida e as memórias de quem acompanhou profundas transformações na sociedade, no trabalho e nos costumes. Elpídio José Martins (Neném), completou 100 anos no dia 22 de agosto. A data foi celebrada com missa na Igreja São José, em São Sebastião do Paraíso, reunindo familiares e amigos.

Com lucidez e disposição, Neném recebeu o Jornal do Sudoeste para falar sobre sua trajetória, a criação dos filhos e as experiências acumuladas ao longo de dez décadas. Perguntado sobre qual seria a receita para chegar aos 100 anos, respondeu de maneira simples e convicta: “Deus”.

Elpídio atribui à fé a graça de ter constituído e criado sua família. Pai de nove filhos, comemora o fato de todos estarem vivos, com saúde e trabalhando. “Deus me concedeu a graça de criar minha família. Tive nove filhos e estão todos vivos, com saúde e trabalhando. Tudo encaminhado pela graça de Deus e pela luta da vida”, afirmou.

Nascido em São Tomás de Aquino, foi levado pelos pais Veriano Martins e Dona Adelaide para a zona rural de São Sebastião do Paraíso, no bairro Viramundo, quando tinha apenas 40 dias. Foi ali que passou a infância e iniciou uma existência intimamente ligada ao campo. Aos 17 anos, deixou os estudos para trabalhar com o pai e permaneceu na lavoura durante grande parte de sua vida.

Ao recordar a infância, descreve uma época de convivência próxima entre as famílias, mas também de muitas dificuldades. O trabalho era pesado, realizado principalmente com a força dos braços e com instrumentos rudimentares. Segundo ele, faltavam recursos, apoio e as facilidades que seriam proporcionadas mais tarde pela mecanização agrícola.

Entre as grandes mudanças que testemunhou está justamente a chegada dos tratores à região. Elpídio se lembra de quando a preparação da terra era feita com arado puxado por bois e podia levar vários dias. Posteriormente, também adquiriu um trator, decisão que considera uma das mais acertadas de sua trajetória como agricultor.

“O primeiro trator que entrou naquela região foi o do Luiz Pimenta Neves. Depois comprei um também. Foi uma das melhores coisas que fiz”, recordou. Conforme explicou, um serviço que antes exigia aproximadamente 15 dias poderia ser realizado em poucas horas com a nova máquina.

A vida na zona rural também era marcada pela falta de infraestrutura básica. Um dos filhos recordou que a família viveu durante certo período sem energia elétrica e enfrentou dificuldades para conseguir água. Inicialmente, era necessário buscar água para beber, cozinhar e tomar banho. Posteriormente, Elpídio providenciou a canalização de uma nascente localizada a cerca de dois quilômetros da residência.

A instalação representou uma grande conquista para a família, embora sua manutenção também exigisse muito trabalho. Elpídio também acompanhou períodos de inflação elevada, sucessivas mudanças de moeda e planos econômicos que reduziram o valor do dinheiro guardado durante anos de trabalho. As dificuldades financeiras chegaram a obrigá-lo a vender bens e propriedades, mas ele ressalta que sempre procurou honrar todos os compromissos assumidos.

“Toda a vida fiz esforço para dar certo. Sempre gostei da coisa certa, tive muitos compromissos e cumpri todos. Às vezes algum financiamento atrasava, mas eu dava um jeito, tirava daqui para acertar ali. Sempre fui acertando”, contou.

Para ele, a responsabilidade com os negócios foi fundamental para construir uma vida sem grandes complicações. Mesmo nos momentos mais difíceis, preocupou-se em não deixar dívidas ou compromissos pendentes.

Essa característica também foi destacada pelos filhos, que o consideram um exemplo de honestidade. Um deles relatou ter presenciado, ainda menino, uma situação em que Elpídio pagou duas vezes parte de uma dívida. O primeiro pagamento havia sido feito na confiança e não havia sido anotado. Quando retornou para quitar o restante, o credor cobrou novamente o valor já recebido.

Para evitar uma discussão e preservar sua palavra, fez novamente o pagamento. “Papai, para nós, é um exemplo de fé e honestidade. Eu o presenciei pagar uma conta duas vezes”, afirmou o filho.

Segundo ele, em outras ocasiões o pai chegou a se desfazer de propriedades e negócios para cumprir compromissos e evitar que alguém pudesse dizer que havia sido prejudicado. Esse comportamento se transformou em legado para filhos e netos.

“É um dos maiores exemplos que ele deixou para nós: honestidade e fé”, acrescentou.

No campo de futebol no bairro Diamantina, Eupídio encontrou aquela que se tornaria sua companheira. Depois dos primeiros encontros, começaram a conversar, namoraram por cerca de um ano e se casaram. Juntos, construíram uma união duradoura (nove filhos, trinta e dois netos, oito bisnetos, oito tataranetos), vida fundamentada no diálogo, no respeito e no entendimento.

Conforme relata, casamento está entre as decisões mais importantes de sua vida. “Fizemos uma vida. Deu tudo certo, caminhamos bem e entendíamos um ao outro”, resumiu.

A formação dos nove filhos foi orientada principalmente pelo exemplo. Segundo os familiares, Elpídio nunca teve vícios e manteve uma vida voltada ao trabalho, à casa e à religião.

Católico praticante, ele sempre teve horários para rezar o terço. Antes da televisão, acompanhava as orações pelo rádio. Posteriormente, passou a assistir às celebrações e aos programas religiosos pela televisão.

Ao falar sobre saúde, Senhor Neném recordou que enfrentou doenças e passou por cirurgias ao longo da vida. Disse que as condições do lugar onde morava na juventude, especialmente o frio, contribuíram para alguns dos problemas enfrentados.

Em relação à alimentação, afirmou que nunca seguiu uma receita especial, mas sempre observou as reações do próprio organismo. Quando percebia que determinado alimento lhe fazia mal, deixava de consumi-lo.

“Não tinha muita preocupação. Aquilo que me fazia mal, eu não comia. Qualquer coisa que eu comesse e não me sentisse bem, evitava. Eu tinha muito cuidado com isso”, explicou.

As mudanças na área da saúde e do saneamento estão entre os avanços mais significativos que presenciou. Ele se recorda de um período em que as condições sanitárias na zona rural eram precárias e favoreciam o surgimento de doenças. Para ele, a melhoria dessas condições representou um ganho decisivo para a qualidade de vida da população.

Apesar de reconhecer que algumas lembranças se perderam com o passar do tempo, ele demonstra clareza ao analisar a própria trajetória. Aos 100 anos, considera que o esforço para agir corretamente, trabalhar e cumprir seus compromissos contribuiu para a tranquilidade com que chegou ao centenário.

Ao transmitir uma mensagem às novas gerações, Senhor Neném voltou a destacar a fé, mas também ressaltou a importância do trabalho e da responsabilidade com o futuro. Para ele, os mais jovens precisam compreender que as conquistas dependem de dedicação e perseverança.

“Os mais novos têm que entender que nós não somos nada sem Deus. É preciso pegar mais na mão de Deus, trabalhar mais e pensar mais. O amanhã pertence a Deus, mas temos que trabalhar para que seja melhor”, aconselhou.

Aos 100 anos, Neném Martins contempla sua caminhada com serenidade e gratidão. Sua história atravessa diferentes épocas, moedas, governos e formas de trabalhar, mas preserva como fundamentos os valores que o acompanharam desde a juventude: fé, honestidade, dedicação à família e disposição para enfrentar as dificuldades.