Chuvas atrasam colheita e comprometem qualidade do café na região de Paraíso
Produtora relata safra prolongada, aumento do café de varrição e perdas provocadas pela instabilidade do clima
As
chuvas registradas nos últimos meses trouxeram dificuldades extras para os
cafeicultores neste encerramento da safra de 2026. Em São Sebastião do Paraíso,
além de atrasar a colheita, a umidade provocou a queda de uma quantidade maior
de grãos no chão e comprometeu a qualidade do produto.
Na
propriedade da produtora rural Sirlei Sanfelice, os trabalhos começaram em
junho e se estenderam por cerca de três meses. Agora, a atividade está
concentrada na chamada varrição, etapa em que os grãos que caíram dos pés são
recolhidos do chão. “Nós começamos em junho com a colheita de café na árvore
mesmo e isso já se estendeu por três meses. Tivemos vários problemas e agora a
gente já está só com a varrição, que é tirar o café do chão. Este ano aconteceu
de ter muita quantidade por conta das chuvas, por conta daquele fruto da
florada de setembro, que já estava seco e caiu no chão. Então este é um ano
muito desafiador, foi uma colheita extensa e que a gente está conseguindo
superar”, afirma.
A
fazenda possui 55 hectares e mais de 250 mil pés de café plantados. Neste ano,
o café de varrição deverá representar aproximadamente 20% da produção da
propriedade. A expectativa inicial de Sirlei era colher cerca de quatro mil
sacas em 2026, mas houve quebra na safra. Entre os fatores que contribuíram
para a redução está um período de seca registrado no início do ano, seguido
posteriormente pelo excesso de chuvas durante a colheita. “Eu falo que este ano
não está para amador. O cafeicultor que tem garra e tem experiência vai
permanecer. A gente vê que as safras, a cada ano, são de um jeito. A
cafeicultura está muito desafiadora”, diz.
Além de
produtora rural, Sirlei foi extensionista da Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) durante anos, experiência que também
lhe permite acompanhar de perto as mudanças e dificuldades enfrentadas pela
cafeicultura na região.
Segundo
dados da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), a colheita
entre os cooperados no Sul de Minas já ultrapassou 93%, com leve atraso em
relação a anos anteriores. As chuvas acima do esperado, principalmente nos
meses de junho e julho, contribuíram para retardar os trabalhos e aumentar a
quantidade de frutos que caíram das plantas.
Sirlei
explica que, normalmente, o café de varrição representa cerca de 15% do total
colhido em regiões produtoras como o Sul de Minas. Neste ano, no entanto, esse
percentual aumentou de forma significativa em diversas propriedades. “O café de
varrição é fundamental porque, em regiões como a nossa, a tendência é que ele
represente algo em torno de 15% do total colhido. Este ano esses 15% se
elevaram. Tem muitos produtores que talvez colheram mil sacas de café na árvore
e 500 sacas no chão, ou seja, é um volume significativo que a gente tem que
retirar para vender. Talvez o lucro esteja ali no café de chão, a gente não
pode se dar ao luxo de perder esse café”, afirma.
A grande
quantidade de café que permaneceu no solo, associada às chuvas, também trouxe
reflexos na qualidade. A umidade prejudica o aspecto e a bebida do grão e, em
situações mais severas, pode provocar até sua germinação ainda debaixo das
plantas. “Este ano, como houve muito café no chão e muita chuva, a qualidade
foi ainda pior. É um café com aspecto muito feio, com uma bebida ruim.
Inclusive, em alguns locais, o café chegou até a germinar debaixo do pé. Esse
café que germinou foi perdido”, explica Sirlei.
A perda
de qualidade também interfere diretamente na comercialização, já que o café
recolhido do chão vem alcançando valores inferiores aos pagos pelo produto
colhido diretamente das plantas.
Para Sirlei, a sequência de dificuldades enfrentadas nesta safra reforça a necessidade de o produtor estar preparado para situações que fogem ao seu controle. “O clima, a gente não pode estar sempre à mercê dele, a gente tem que se prevenir. Então, se teve chuva, tem que ter um plano B, um plano C para poder fazer as execuções dos trabalhos”, afirma.


