Representantes da Abraticão relatam interrupção do cultivo de cannabis medicinal e pedem diálogo na Câmara de Paraíso
Paciente que falou no auditório disse que recebia gratuitamente canabidiol da associação e relatou redução das crises de epilepsia
A
presidente da Abraticão, Maíra Santini e Rubens Santini utilizaram a tribuna
livre da Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso para apresentar o
trabalho da Associação Brasileira de Terapias Integrativas, Cannabis e Animais
(Abraticão). Eles relataram que a entidade interrompeu as atividades de cultivo
após uma ação policial em sua propriedade rural e pediram diálogo com o poder
público sobre o atendimento aos pacientes.
Maíra
afirmou que o trabalho começou há cerca de seis anos, motivado pela necessidade
de cuidar da própria filha. Desde então, segundo ela, a entidade passou a atuar
também com terapias integrativas, intervenções assistidas por animais e
acolhimento de outras famílias. A presidente pediu que a Câmara abra espaço
para uma discussão com pacientes, profissionais de saúde, universidades,
agricultores e representantes do poder público.
Rubens
explicou que é o primeiro pós graduado reconhecido pelo MEC, em tratamento
canabinoide. Disse que a Abraticão
oferece gratuitamente preparados associativos e acompanhamento a pacientes. De
acordo com os números apresentados por ele na tribuna, mais de 30 crianças
autistas são atendidas em Paraíso, e o trabalho alcança cerca de 800 famílias
em diferentes regiões do país. Ele também mencionou atividades gratuitas e um
projeto de acolhimento de pessoas que passaram pelo sistema prisional. Os
números são informações da própria associação.
Convidada
a falar no auditório, uma senhora contou que convive com depressão, transtorno
bipolar e transtorno de personalidade borderline. Ela relatou que começou a
apresentar crises de epilepsia no ano passado e conheceu a Abraticão após a
indicação de um médico. Segundo ela, a entidade passou a lhe fornecer
canabidiol gratuitamente depois de solicitar exames para avaliar seu caso.
A
paciente afirmou que percebeu uma diminuição das crises durante o tratamento,
embora elas não tenham cessado. Também relatou melhora em sintomas relacionados
à depressão. “Não vou dizer que pararam de me dar as crises, mas, com o canabidiol,
melhorou”, disse. Ela manifestou preocupação com a continuidade do acesso ao
preparado, pois, segundo afirmou, não tem condições financeiras de comprá-lo.
Emocionada, defendeu o trabalho de Maíra e Rubens e falou das dificuldades
enfrentadas por quem convive com as crises.
Durante
manifestação na Câmara Municipal, Rubens Santini explicou aos vereadores as
formas de acesso a produtos à base de cannabis para tratamento de saúde no
Brasil. Segundo ele, pacientes podem recorrer à importação mediante autorização
da Anvisa, à compra de produtos disponíveis em farmácias ou ao atendimento
prestado por associações, conforme as condições aplicáveis a cada caso.
Rubens
destacou o custo da importação, citando o caso de Lígia, para quem o produto
chegaria a R$ 1.800. Ao defender o trabalho das associações, explicou a
diferença entre fitocanabinoides, encontrados na planta, e endocanabinoides,
produzidos pelo organismo humano.
A
fala se concentrou, em seguida, na retirada de plantas cultivadas pela
associação à qual está ligado, ocorrida na sexta-feira anterior. De acordo com
Rubens, eram 290 plantas identificadas por QR code e com sistema de rastreamento.
Ele afirmou que a entidade possui medidas judiciais relacionadas à sua
atividade e que, antes da ocorrência, estava entre as associações consideradas
para participar de uma iniciativa regulatória da Anvisa.
Rubens
questionou a atuação policial e disse acreditar que os agentes desconheciam o
funcionamento do serviço associativo. Na avaliação dele, a finalidade medicinal
do cultivo poderia ser constatada nas informações divulgadas pela entidade.
O
presidente da Câmara, Lisandro Monteiro, afirmou que o debate sobre a cannabis
medicinal é importante e merece ser aprofundado em audiência pública. Ele se
comprometeu a organizar o encontro o mais rápido possível, com a participação
de técnicos, médicos e representantes da polícia, do Executivo e do Judiciário.
A Anvisa publicou em 2026 regras para a produção de cannabis medicinal, incluindo um instrumento específico para associações de pacientes sem fins lucrativos. A autorização para atuar depende do cumprimento das exigências previstas pela agência.



