Após 46 anos, Aprígio Rodrigues Neto encerra atividades do Laboratório São Lucas
Bioquímico relembra as dificuldades enfrentadas para estudar, o início da carreira, casos marcantes, a atuação durante a pandemia e a confiança recebida de diferentes gerações de pacientes
Após 46
anos de dedicação às análises clínicas, o bioquímico Aprígio Rodrigues Neto
encerrou as atividades do Laboratório São Lucas, em São Sebastião do Paraíso no
dia 10 deste mês. A decisão coloca fim a uma trajetória profissional marcada
pelo trabalho intenso, pela busca constante de conhecimento e, sobretudo, pela
relação de confiança estabelecida com pacientes de várias gerações.
Ao
anunciar o encerramento, Aprígio recebeu telefonemas e manifestações de carinho
de pessoas que não esperavam sua decisão e lamentaram o fechamento do
laboratório. Muitos dos pacientes atendidos nos últimos anos eram filhos, netos
e até bisnetos daqueles que o procuraram no início da carreira.
“Foram
famílias tradicionais, clientes fiéis desde o tempo em que comecei. Atendi
pais, filhos, netos, terceira e quarta gerações. Tenho muito a agradecer à
sociedade, que me deu confiança, prestígio e preferência”, afirma.
Segundo
o bioquímico, a reação dos pacientes demonstrou que a relação construída ao
longo das décadas ultrapassou os limites profissionais. “Parece que foi criado
um vínculo, uma afinidade. Muita gente telefonou dizendo que vai sentir muito,
mas também que chegou o momento de eu aproveitar a vida. Termino com a consciência
tranquila, tendo cumprido meu dever e feito o melhor que pude”, ressalta.
Formação
construída com esforço
A
trajetória de Aprígio foi marcada por dificuldades desde os primeiros anos de
estudo. Ele conta que concluiu o curso primário em um período de grave crise
financeira enfrentada pela família na década de 1960. Seu pai, que trabalhava
com negócios, perdeu praticamente tudo depois de uma forte restrição ao crédito
no país. Embora tivesse valores a receber, não conseguiu recebê-los e precisou
se desfazer de bens para quitar parte das dívidas.
Nesse
período, a honestidade de seus pais fundamental para que a família pudesse
continuar adquirindo os alimentos necessários. Por causa dessa conduta, os
comerciantes confiaram neles mesmo durante a crise. O proprietário de um
mercado chegou a dizer que poderiam buscar os mantimentos necessários e acertar
as contas quando a situação melhorasse.
As
dificuldades continuaram quando Aprígio chegou à idade de ingressar no antigo
ginásio. Como não havia escola pública disponível em São Sebastião do Paraíso
para aquela etapa, seu pai procurou o professor Carmo Perrone Naves, no Colégio
Paraisense, e explicou que não tinha condições de pagar a inscrição para o
exame de admissão.
Autorizado
a prestar as provas sem o pagamento, Aprígio foi aprovado com bom desempenho. A
família, no entanto, não conseguiu pagar as mensalidades durante todo o
primeiro semestre. Foi então chamado à sala de Monsenhor Mancini, que perguntou
se necessitava de uma bolsa de estudos.
“Eu disse
que precisava, mas que não sabia quem poderia me dar a bolsa”, recorda. Logo no
início do segundo semestre Monsenhor Mancini lhe deu a notícia de que teria uma
bolsa válida pelos quatro anos do curso ginasial.
Ainda
faltava o uniforme. Para comprá-lo, seu pai vendeu o próprio relógio. Com o
dinheiro, a mãe de Aprígio adquiriu o tecido e providenciou a confecção da
roupa.
Aprígio
aproveitou a oportunidade. Estudou com dedicação, não precisou fazer provas
finais e concluiu os quatro anos entre os oito estudantes que permaneceram em
uma turma iniciada com aproximadamente trinta alunos.
Posteriormente,
ingressou na segunda turma do curso científico do Colégio Estadual Paraisense,
dirigido pelo professor Carmo. Ele se recorda de que cerca de dez estudantes concluíram
aquela etapa e oito foram aprovados diretamente no vestibular.
Universidade
em Ouro Preto
Depois
de fazer um curso preparatório e não conseguir aprovação na primeira tentativa,
Aprígio precisou estudar sozinho, pois seu pai não tinha condições de continuar
pagando o cursinho. Entre os dias 5 e 11 de janeiro de 1975, enfrentou o
vestibular, que naquela época tinha uma prova por dia, e conquistou uma vaga na
Universidade Federal de Ouro Preto.
Durante
a graduação, as viagens entre Ouro Preto e São Sebastião do Paraíso eram feitas
quase sempre de carona. Como o dinheiro era contado, retornava à cidade
aproximadamente a cada três meses. Entre as pessoas que o ajudaram, ele se
lembra com gratidão de um caminhoneiro paraisense chamado Rovair, que viajava
até Belo Horizonte cerca de três vezes por semana e frequentemente lhe garantia
transporte na ida ou na volta.
Aprígio
se identificou com o curso, estudou com afinco e passou a receber o incentivo
dos professores, que perceberam sua aptidão para as análises clínicas.
No
quarto ano, pediu ao professor de Hematologia a indicação de um laboratório
onde pudesse fazer estágio. Foi encaminhado a um estabelecimento em Itumbiara
(GO), administrado por um ex-aluno da universidade. Ao concluir o período de
aprendizado, recebeu o convite para retornar depois de formado.
Aprígio
ainda buscava ampliar os conhecimentos. Pediu à professora de Bioquímica, Neusa
Macaleis, que lhe conseguisse outro estágio, dessa vez em um laboratório de
Uberaba. O estabelecimento pertencia a um professor ligado à Faculdade de
Medicina, que havia retornado havia poucos meses dos Estados Unidos, onde
concluíra um mestrado.
O
contato com técnicas e conhecimentos ainda recentes no Brasil transformou
aquele estágio em uma experiência decisiva. Inicialmente autorizado a
permanecer por um período determinado, Aprígio conquistou a confiança do
professor, que o convidou a ficar pelo tempo que considerasse necessário e
ainda lhe pediu que transmitisse o que aprendera a outro estagiário.
Ao se
despedir, ouviu que poderia procurar o professor caso necessitasse de uma
oportunidade profissional. Aprígio, no entanto, também havia recebido novo
convite do laboratório de Itumbiara. Formado em 31 de dezembro de 1978,
escolheu começar a carreira na cidade goiana por considerar que o maior
movimento e a presença de doenças tropicais lhe proporcionariam mais
experiência.
Em 6 de
janeiro de 1979, iniciou o trabalho em Itumbiara, onde permaneceu por
aproximadamente um ano.
Retorno
a Paraíso e início do laboratório
No fim
daquele período, seu pai foi procurado pelo médico Rêmolo Aloise que estava
implantando uma policlínica, pretendia estruturar um laboratório em São
Sebastião do Paraíso e precisava de um bioquímico. Incentivado pela família,
especialmente pela mãe, Aprígio decidiu retornar.
“Eu
pensei que precisava tentar enquanto ainda estava solteiro. Se desse certo,
muito bem; se não desse, teria tentado”, conta.
Já em
Paraíso, recebeu metade do laboratório e passou a integrar a sociedade.
Posteriormente, a outra parte foi adquirida pela bioquímica Magda, com quem
trabalhou durante vários anos. Quando ela adoeceu, Aprígio comprou sua
participação e assumiu sozinho a continuidade do estabelecimento.
Foi uma
fase de muito trabalho e grandes responsabilidades. O laboratório funcionou
inicialmente por alguns meses na Rua Ildeu de Souza Braga, número 34, antes de
ser transferido para o endereço onde se consolidaria.
Aprígio
conta que o imóvel era alugado e, em determinado momento, o proprietário pediu
que o desocupasse. Como não encontrou outro ponto próximo e não queria perder a
clientela formada, viveu um período de incerteza. A solução surgiu quando um
gerente bancário lhe avisou que o imóvel seria colocado em licitação e que ele
poderia apresentar uma proposta.
Outro
interessado ofereceu um valor maior, mas não realizou o depósito dentro do
prazo. Como Aprígio havia apresentado a segunda melhor proposta, teve a
oportunidade de efetuar o pagamento e adquirir definitivamente o imóvel onde o
Laboratório São Lucas permaneceu até o encerramento das atividades.
Diagnósticos
que fizeram a diferença
Entre as
muitas experiências vividas no laboratório, Aprígio se recorda de situações nas
quais a interpretação dos exames foi decisiva para a condução do tratamento.
Em um
dos casos, um jovem realizou exames, levou os resultados ao médico e recebeu
uma medicação. Como o quadro não melhorou, foi solicitado novo procedimento. Ao
analisar o material, Aprígio desconfiou de apendicite e orientou o paciente a
procurar imediatamente um cirurgião, recomendando ainda que não almoçasse, pois
poderia necessitar de uma operação.
O jovem
acabou se alimentando antes da consulta, mas o cirurgião confirmou a apendicite
e determinou sua interna-ção com urgência. A cirurgia precisou aguardar por causa
da refeição, situação que aumentou a preocupação diante do risco de
agravamento.
Em outra
ocasião, Aprígio havia viajado com os filhos para que brincassem em um espaço
infantil em Ribeirão Preto. Como estava com um carro antigo e temia enfrentar
problemas na estrada durante a noite, decidiu voltar mais cedo.
Ao
chegar ao laboratório, encontrou sua sócia e dois pacientes aguardando a
conclusão dos exames. Ambos sentiam dores intensas e havia dúvida sobre uma
possível infecção bacteriana. Aprígio examinou o material e identificou a
presença de fungos. Com o resultado correto, o médico prescreveu a medicação
adequada e, já no dia seguinte, os pacientes apresentaram melhora.
Para
ele, o retorno antecipado naquele dia foi providencial. São episódios que considera
parte de uma história composta por inúmeros atendimentos, aprendizados e
responsabilidades assumidas ao longo de mais de quatro décadas.
Trabalho
na linha de frente da pandemia
A
pandemia de Covid-19 representou uma das fases mais difíceis de sua carreira.
Diante da idade e dos riscos de contaminação, Aprígio chegou a receber a
recomendação de que se afastasse das atividades.
A
possibilidade, entretanto, provocou um conflito. “Pensei: justamente no momento
em que meu serviço é mais necessário, vou me afastar e deixar de atender quem
precisa de mim?”, relembra.
Ele
decidiu permanecer. Procurou adotar todas as medidas de proteção disponíveis e
continuou realizando coletas. O trabalho apresentava riscos constantes,
especialmente durante a retirada de material das narinas. Para a coleta, o
paciente precisava remover a máscara e muitos espirravam ou tossiam durante o
procedimento. “Eu era o primeiro alvo, estava ali na linha de frente. Mas tinha
que atender porque havia mais pessoas esperando”, afirma.
Em casa,
também adotou precauções rigorosas para proteger a esposa. Passou a dormir em
outro quarto e utilizava banheiro separado, reduzindo ao máximo as
possibilidades de levar o vírus para a família. Apesar da exposição contínua,
ele e a mulher não contraíram a doença.
Um dos
filhos foi contaminado depois de uma viagem e apresentou sintomas que
preocuparam a família. Como morava em São Paulo e possuía assistência médica na
cidade, Aprígio o orientou a retornar. Ele foi atendido no mesmo dia, recebeu a
medicação necessária e se recuperou sem precisar ser internado.
Família
e novos planos
Embora
nenhum dos três filhos tenha seguido sua profissão, Aprígio demonstra orgulho
pelos caminhos escolhidos por eles. Os três cursaram Engenharia. Um atua na área
naval, em uma empresa do setor de petróleo e gás; outro é engenheiro metalúrgico;
e a filha, formada em Engenharia de Minas, trabalha em uma atividade
relacionada à tecnologia para uma multinacional.
Ele
destaca a responsabilidade, a dedicação ao trabalho e a relação harmoniosa
entre os filhos. “Eles diziam que eu trabalhava demais, mas hoje trabalham
tanto quanto eu. São responsáveis, trabalhadores e bons pais. Foi tudo o que
pedi a Deus”, diz.
Aprígio
considera que chegou o momento de descansar e aproveitar o que conquistou como
resultado do próprio trabalho. Pretende viajar e visitar com mais frequência os
filhos, que vivem em Belo Horizonte, São Paulo e Araraquara, além de acompanhar
mais de perto o crescimento dos netos.
Ao
encerrar as atividades do Laboratório São Lucas, Aprígio leva consigo a
gratidão pelas oportunidades que recebeu e pela confiança de São Sebastião do
Paraíso. A história iniciada em meio às dificuldades financeiras, sustentada
por bolsas de estudo, caronas e muito empenho, transformou-se em uma carreira
reconhecida por sucessivas gerações de pacientes.
“Vou sentir falta, mas faz parte do ciclo da vida. Acho que cheguei a merecer descansar e aproveitar um pouco o que conseguimos como fruto do trabalho. Saímos do nada. Agora termino com a consciência tranquila de que cumpri meu dever”, conclui.



