Mais mulheres no legislativo é bom para todo mundo
Há algumas semanas, ganhamos várias mudas para o Espaço Comare: pés de
amora, carambola, pitanga. Para que as plantas não sofressem muito, acionei meu
marido para o plantio no dia seguinte.
Juntos, olhamos para o espaço e, da nossa cabeça, decidimos onde
seria interessante colocar cada uma. Do lado do limoeiro, uma pitangueira. O pé
de amora, ainda novinho, ao lado do outro, já crescido. E por aí fomos, com o
pobre do meu irlandês fazendo o trabalho pesado de abrir buracos no solo duro.
Contei, orgulhosa, do “nosso” trabalho para meu pai. Ele fez uma
pergunta simples:
— Quantos metros vocês deixaram entre as mudas?
Ixi. Metros no plural? Quando muito, deixamos um. Meu pai ficou
inconformado por eu não ter perguntado e nem olhado no Google. O ideal seria
dois, talvez três. Minha ignorância era tão grande que eu sequer imaginava que
a distância entre as mudas fosse algo que precisasse ser pesquisado. Foi então
que pensei na política.
Hoje, as mulheres ocupam apenas 91 das 513 cadeiras da Câmara dos
Deputados e 15 das 81 cadeiras do Senado. Somadas, são cerca de 18% dos
parlamentares das duas Casas. É muito pouco.
Não acho que uma mulher seja automaticamente uma parlamentar
melhor só por ser mulher. Mas existe algo que a experiência de ocupar um certo
lugar no mundo pode ensinar. Eu não tinha a menor ideia de que a distância
entre uma muda e outra era importante. Não era preguiça. Eu simplesmente não
sabia que não sabia.
Um homem que nunca precisou pensar sobre determinadas questões que
atravessam a vida das mulheres pode não perceber sua dimensão ou mesmo sua
existência. Não necessariamente porque não se importe, mas porque nunca
precisou olhar para aquilo daquele lugar. É por isso que representação
importa.
Uma democracia em que praticamente metade da população é composta
de mulheres e apenas uma pequena parcela dos parlamentares é mulher pode estar
deixando de fora perguntas e conhecimentos que deveriam participar da
construção das leis.
Meu pai sabia uma coisa sobre árvores que eu não sabia. Se ele não
tivesse feito aquela pergunta, provavelmente eu teria seguido plantando minhas
mudas a um metro umas das outras, achando que estava tudo certo. A política
também precisa de mais gente que saiba perguntar aquilo que os outros nem
perceberam que precisava ser perguntado.
Mais mulheres no Legislativo é bom para as mulheres. E um Legislativo capaz de
enxergar mais da vida real provavelmente é bom para todo mundo.
Marília
Nogueira - uma fazedora de filmes, textos, projetos culturais


