O QUE NOS FALTA ENXERGAR AINDA?
Por Miriam Inacio
O Brasil
ocupa posições alarmantes no ranking de saúde mental. Segundo dados divulgados
recentemente pelo The News.CC, com base em pesquisas da Aon e da TE LUS Health,
temos o maior índice de estresse corporativo da América Latina: 45% dos dois
mil trabalhadores brasileiros entrevistados apresentam sinais de sobrecarga e
estresse constante - bem acima da média regional de 34%.
As
estatísticas revelam ainda que 80% dos trabalhadores continuam cumprindo suas
jornadas mesmo diante de desconfortos físicos ou mentais evidentes.
Na minha
trajetória de quase 43 anos na psicologia clínica, acompanhei de perto os
impactos desse cenário. Deparei-me continuamente com sofrimentos emocionais
nutridos pela falta de respeito nas relações de trabalho, por cobranças
desproporcionais e pela cultura de colocar metas acima das pessoas. Pressões
psicológicas, assédios morais e sexuais, e rescisões desiguais ainda fazem
parte dessa engrenagem.
Embora a
atualização da NR-1 traga avanços legais para proteger a saúde ocupacional,
ainda há um abismo entre o texto da norma e a prática diária de muitas
organizações. Quando o colaborador não se sente valorizado ou seguro, a
confiança se rompe e instala-se um círculo vicioso nocivo para ambas as partes.
É evidente que não podemos generalizar, mas a pressão sobre os grandes centros
corporativos tem se refletido em índices crescentes de adoecimento e,
consequentemente, em autuações.
Na
clínica, atendo diariamente pessoas debilitadas por essa opressão, que mal
conseguem reconhecer seus direitos. O nível de esgotamento chega a pontos
críticos: crises de pânico no trajeto para o trabalho, dependência de
afastamentos recorrentes e paralisia emocional. Lembro-me de uma paciente que
paralisou de ansiedade na estação do metrô e precisou que um familiar a
buscasse porque não conseguia prosseguir.
Diante
desse cenário, cabe a provocação: o que estamos fazendo com o nosso maior
ativo?
Se a
busca individual por psicoterapia muitas vezes esbarra em limitações
financeiras, a promoção da saúde mental precisa ser assumida como um
compromisso estratégico e ético pelas empresas. Faltam comunicação
transparente, limites claros e maturidade nas relações corporativas.
Diante
da urgência de desatar esses nós, desenvolvi um programa de mentoria voltado
para lideranças e diretorias, com o objetivo de construir ambientes de trabalho
mais saudáveis e funcionais. A saúde mental no trabalho não é mais um tema
secundário; é uma prioridade iminente.
Cuidar
das pessoas é o único caminho sustentável para cuidar das empresas.
Miriam Inacio - CRP 06/19274 - https://wa.me - (35) 99771-8700


