Marquinho Consolini, um integrante de Os Brasões ao volante
Entre 1970 e 1986, Marcos Consolini conduziu a banda por cidades de Minas Gerais e São Paulo e construiu uma amizade que o tornou parte do grupo
A
história de uma banda também se escreve nas estradas. Antes dos primeiros
acordes, do salão cheio e dos casais na pista, havia instrumentos e músicos a
serem transportados, quilômetros para vencer e a responsabilidade de chegar ao
destino. Durante cerca de 16 anos, Marcos Consolini, o Marquinho, esteve ao
volante nas viagens de Os Brasões. Pela convivência e pela confiança dos
músicos, tornou-se um integrante do grupo, mesmo sem ocupar o palco.
Nas
lembranças reunidas para o caderno comemorativo dos 205 anos de São Sebastião
do Paraíso, Marquinho revisita uma época de bailes concorridos, viagens longas,
brincadeiras e amizades. A conversa com Nelson Duarte, que também participou
daqueles caminhos como músico da banda, traz episódios que os dois ajudam a
reconstruir, entre risadas e saudade.
A parceria
começou em 1970, quando Marcos fez a primeira viagem para Estiva e Cambuí. Como
o equipamento da banda havia aumentado, foram necessárias duas Kom-bis, e ele
foi contratado. Quem habitualmente viajava com Os Brasões era Iezi Raimundini,
que com o tempo decidiu deixar a atividade e passou a tarefa para Marcos. A
partir dali, a perua de Marquinho passou a levar músicos e equipamentos para
apresentações que se multiplicavam pelo interior mineiro e paulista.
Os
compromissos eram intermediados, entre outros, pelos empresários Orlando
Gonelli, de Catanduva, e Oswaldo Cateci, em Minas Gerais. “Dois, três bailes,
às vezes até quatro bailes por mês”, recorda Marcos. Somadas às apresentações
locais e regionais, as contratações mantinham o grupo em atividade praticamente
todos os sábados.
No
interior paulista, as recordações percorrem cidades como São José do Rio Preto,
Mirassol, Votuporanga, Itápo-lis, Valentim Gentil, São Joaquim da Barra, São
Carlos, Araraquara, Pradópolis, Ribeirão Bonito e Catanduva. Ibitinga e Novo
Horizonte também receberam Os Brasões em carnavais.
Em
Minas, Abaeté ficou na memória como provavelmente o destino mais distante.
Bambuí era presença frequente na agenda, assim como Ibiá, São Roque de Minas,
São Gotardo, Tiros, Medeiros, Luz, Iguatama, Formiga e Campos Altos. Mais perto
de casa, havia apresentações em São Tomás de Aquino, Itaú de Minas, algumas
usinas de Furnas e outras localidades da região.
Marcos
lembra de três ou quatro participações nas exposições agropecuárias de Bambuí.
Eram temporadas de quatro noites, de quinta-feira a domingo, no espaço
conhecido como “Cantinho do Céu”, dentro do parque de exposições. Cada viagem
exigia acomodar os instrumentos, os aparelhos e os músicos. Em determinados
períodos, duas peruas eram necessárias, com outros motoristas ajudando no
transporte.
Mais
tarde vieram os ônibus. Quando encerrou essa rotina com Os Brasões, em 1986,
Marcos já possuía dois veículos, utilizados também em seu trabalho com viagens
para Jacuí.
Histórias
que ficaram pelo caminho
Nem
sempre a programação saía como o esperado. Em Valentim Gentil, a banda chegou
para um baile e descobriu que estava adiantada em uma semana. Uma confusão do
empresário, sobre a data havia colocado todos na estrada antes da hora. O grupo
seguiu depois para uma domingueira em Votuporanga, e o desencontro entrou para
a coleção de histórias.
As
estradas de terra também deixaram lembranças. Marcos recorda um trajeto pela
região de São Roque de Minas, final de ano sob chuva, quando a perua ficou
atolada, e com uma roda suspensa. Os músicos desceram para ajudar, subiram no
para-choque traseiro para fazer peso. Não contavam com a presença de alguns
bois que logo apareceram, e os puseram para correr para o interior da perua,
enquanto as brincadeiras continuavam mesmo com o pessoal molhado e o veículo
difícil de tirar do lugar.
Outro
episódio começou com uma apresentação em Fronteira (SP). A perua quebrou a
barra de torção, justamente quando passava por São Joaquim da Barra. Enquanto
aguardavam, músicos se refrescaram tomando garapa. Em Fronteira, uma refeição
com diferentes pratos de peixe. Na volta, uma parada para tomar café com leite.
Depois, uma indisposição intestinal atingiu os viajantes, obrigando Marcos a
fazer sucessivas paradas.
Quem
ainda não sentia nada ria dos companheiros, até também precisar pedir que a
perua encostasse. No dia seguinte, 19 de janeiro, havia compromisso no Clube
Pa-raisense, na véspera do Dia de São Sebastião, padroeiro da cidade. Os
músicos cumpriram a apresentação ainda abatidos. Na memória da turma, o
episódio ganhou o apelido de “baile da diarreia”.
O humor
ajudava a enfrentar o cansaço e os imprevistos. Mas havia uma responsabilidade
que os companheiros levavam a sério: o descanso de quem conduziria todos de
volta.
Ao
chegar às cidades, os músicos descarregavam os equipamentos, montavam a
aparelhagem e seguiam para o hotel. Depois do banho e do jantar, voltavam ao
clube para conferir o som. Com os uniformes, começavam mais uma noite de
trabalho.
Marquinho
gostava de acompanhar as primeiras sequências musicais. Logo, porém, vinha a
recomendação do cantor Antônio Pereira: “Você vai dormir que é longe”. Era hora
de descansar para pegar a estrada depois do baile.
“Vivi
muitos anos assim, viajando. Graças a Deus, nunca aconteceu nada de ruim”,
afirma. Ao recordar a perua carregada em seu interior e no bagageiro sobre o
teto, os trechos de asfalto e de terra e as distâncias percorridas, atribui à
proteção divina a segurança daqueles anos.
Dentro
da perua, a música continuava. Marcos instalou alto-falantes e tweeters
e o toca-fitas tornou-se companheiro dos trajetos. Elton John, Beatles, Raul
Seixas, Santana, estavam entre os artistas que embalavam as viagens. Para os
integrantes de Os Brasões, ouvir esse repertório ainda hoje desperta lembranças
dos caminhos percorridos com Marquinho.
As fitas
serviam também para descobrir músicas. Durante as viagens, os integrantes
ouviam novidades, procuravam aprender as melodias e levavam sugestões para os
ensaios seguintes. Aos poucos, as canções passavam a fazer parte do repertório.
Marcos acompanhava tudo com interesse. “Aprendi muita coisa com vocês, com os
outros músicos”, conta.
Marquinho
guarda uma lembrança especial da chegada às cidades pequenas, onde o público
esperava à porta do clube. Era o começo de uma noite para a qual músicos e
frequentadores se preparavam. “Tenho saudade daquilo”, resume Marcos.
A
quilometragem percorrida permanece sem uma soma definitiva. Ele conserva
algumas anotações do trabalho em uma caderneta, pelo qual cobrava conforme a
distância, mas não reuniu todos os registros. Os números poderão dimensionar os
trajetos; as histórias já mostram a intensidade daquela convivência.
Ao
recordar os bons tempos de Os Brasões, Marquinho fala dos músicos, das canções
e das brincadeiras com a familiaridade de quem pertenceu àquela turma. Conduziu
os veículos, compartilhou o trabalho e ajudou a banda a chegar aos salões onde
tantas pessoas dançaram.
Na memória musical de São Sebastião do Paraíso, Marcos Consolini tem seu lugar junto aos companheiros de Os Brasões — uma história construída ao volante, ao som das fitas cassete e na amizade que permaneceu.



