Mazzaropi: Uma vida que ajudou a dar música a Paraíso
Entre orquestras, programas de auditório e carnavais, Expedito Luiz Pereira construiu uma trajetória que integra a memória cultural do município
A
história de uma cidade também se escreve com os sons que acompanharam a vida de
seus moradores. Nos bailes, nos carnavais e nos programas de auditório, músicos
locais ajudaram a formar públicos, revelar talentos e transformar apresentações
em momentos de convivência. No caderno comemorativo aos 205 anos de São
Sebastião do Paraíso, recordar Expedito Luiz Pereira, carinhosamente conhecido
como Mazzaropi, é reconhecer uma dessas contribuições.
Criado
nas proximidades da Praça Santa Rita, quando o espaço ainda era chamado de
Largo Santa Rita, Mazzaropi fez da música uma presença constante em sua vida.
Baterista, violonista, compositor e intérprete, percorreu diferentes ambientes
da atividade artística paraisense. Sua trajetória permite observar uma época em
que orquestras, conjuntos regionais e emissoras de rádio tinham papel importante
na circulação da música e no encontro entre artistas e público.
Como
baterista da Orquestra Panamericana, do maestro Lalado, tocou ao lado de João
Marques, o Zito, dos primos Zezinho e Paulinho Soares, de Laércio Dias,
Jugurta, Manoel Silva, Alan, no saxofone, e Caetano Lauria, no contrabaixo,
Laércio Dias, violão, entre outros músicos.
A
experiência nas orquestras ajudou a apurar o gosto musical de Mazzaropi. Seu
interesse por esse repertório convivia com uma especial admiração pelo samba.
Fã incondicional de Jorge Veiga, colecionava seus discos e também interpretava
sambas de breque. O gênero, marcado por interrupções rítmicas e intervenções
faladas, reunia música, humor e capacidade de interpretação — características
que encontravam espaço em sua atuação artística.
Outro
capítulo importante foi sua participação, durante muitos anos, no regional da
Rádio Difusora Paraisense, a ZYA4. A emissora funcionava na rua Pimenta de
Pádua, no quarteirão logo acima da Praça Comendador José Honório. Ali,
Mazzaropi tocava violão requinto, ao lado de Pedro Doçura, no trompete,
Salvador Oliveira, o Dodô, na percussão; Laércio Dias, também no violão, e
Agostinho Sanazaro.
Os
ensaios aconteciam às quintas-feiras. Aos domingos, às 10 horas, o programa
Revelações apresentado pelo talentoso José Hilton Pinheiro de Alcântara reunia
no auditório da Difusora calouros e apreciadores da música. Participantes de
São Sebastião do Paraíso e de outras cidades da região encontravam naquele
palco uma oportunidade de se apresentar, acompanhados pelos músicos do
regional.
O
Revelações era um espaço de descoberta e participação, aproximando quem
desejava cantar de quem se dispunha a ouvir. Nesse ambiente, o trabalho de
músicos como Mazzaropi dava sustentação às apresentações e ajudava a criar
condições para que novos talentos fossem conhecidos, a exemplo do que acontecia
na Rádio Nacional e Mayrinck Veiga, no Rio de Janeiro. A rádio ampliava o
alcance desse encontro, levando a atividade do auditório aos ouvintes.
Mazzaropi
também participou de um marco da produção autoral paraisense: o primeiro Salão
da Música Popular, igualmente conhecido como primeiro Festival da Música
Popular de São Sebastião do Paraíso, realizado em 1969 no auditório da então
Escola Industrial Clóvis Salgado, quando apresentou samba de sua autoria,
acompanhado pelo grupo Os Regentes.
Sua
presença no festival acrescenta outra dimensão à trajetória. Além de
interpretar repertórios e acompanhar outros artistas, Mazzaropi contribuía com
sua própria criação.
Nos
carnavais, cantou e tocou em salões. Integrou ainda a primeira formação da
escola de samba Velhinhos Transviados, participando de sua apresentação
inaugural em São Sebastião do Paraíso. Das orquestras ao samba, do auditório
radiofônico à festa popular, sua atuação atravessou diferentes formas de
expressão musical.
Fora
dos palcos, Expedito Luiz Pereira trabalhava como raspador de assoalhos de
madeira e aplicador de sinteco em assoalhos. O trabalhador e o músico
pertenciam à mesma trajetória, construída no cotidiano da cidade. Seu nome
ficou associado tanto ao cidadão prestante, ao profissional competente, quanto
ao artista que contribuiu para tantos encontros em torno da música.
Sua contribuição permanece na memória dos paraisenses e na lembrança de uma cidade que encontrou, em seus músicos, uma maneira de se reunir e de expressar sua identidade.



