Cida Pimenta: Uma vida de luta, acolhimento e dedicação a Paraíso
Fundadora da AMA e vereadora por três mandatos, ela deixou um legado de solidariedade e compromisso com a população paraisense
Há
pessoas cuja presença permanece nas causas que abraçaram, nas instituições que
ajudaram a construir e na memória daqueles que acolheram. Maria Aparecida
Pimenta Pedroso, a Cida Pimenta, deixou essa marca em São Sebastião do Paraíso.
Fundadora e presidente da Associação dos Amigos do Autista (AMA), vereadora por
três mandatos e mulher de espírito empreendedor, fez da disposição para
resolver problemas uma característica de sua vida pública e pessoal.
Cida
reuniu idealismo, iniciativa e sensibilidade para transformar necessidades em
ações, sobretudo no atendimento às pessoas autistas e no apoio às suas
famílias.
Nascida
em 3 de agosto de 1952, funcionária do Banco do Brasil e mãe de dois filhos,
encontrou na política outro caminho para servir à comunidade. Foi eleita três
vezes para a Câmara Municipal. Sua trajetória partidária começou no PSDB,
passou pelo PFL e chegou ao Partido dos Aposentados da Nação (PAN), pelo qual
registrou candidatura para disputar novamente uma vaga no Legislativo em 2004.
Dias depois, alegando motivos particulares, desistiu da disputa.
Sua
atuação era marcada pela proximidade com as pessoas. Amiga de pobres e ricos,
Cida cultivava relações que atravessavam diferenças sociais e políticas. Quem
conviveu com ela recordava uma mulher dinâmica, altruísta e persistente, que
procurava caminhos para superar dificuldades e não se deixava paralisar pelos
obstáculos.
Uma
das expressões mais duradouras dessa personalidade foi a AMA, fundada em São
Sebastião do Paraíso em 20 de maio de 1991. Em entrevista ao Jornal do
Sudoeste, em 2003, Cida contou que a iniciativa nasceu de uma experiência
anterior: já havia participado da fundação de uma associação em Ribeirão Preto
e trabalhado com esse tipo de entidade também em Goiás.
Inicialmente,
levava pessoas autistas de Paraíso para atendimento em Ribeirão Preto. Com o
aumento da procura, tornou-se necessário organizar uma estrutura no próprio
município. Sua mãe ofereceu uma chácara na Vila Mariana para acolher a
instituição.
“Meu
carro já não comportava mais autistas para levar a Ribeirão”, relatou Cida
naquela entrevista. A solução foi mobilizar a comunidade para reformar o imóvel
e instalar a en-tidade. Ela destacou a colaboração da sociedade paraisense,
especialmente de estabelecimentos de materiais de construção e serralherias,
que ajudaram a viabilizar o espaço.
A
iniciativa representou um trabalho pioneiro em Paraíso e no interior de Minas
Gerais. Na entrevista de 2003, quando a associação completava 12 anos, Cida
relatou que outras entidades semelhantes haviam sido fundadas em Poços de
Caldas, Uberaba, Belo Horizonte e Ouro Preto. Entre aquelas iniciativas,
segundo seu relato à época, a de São Sebastião do Paraíso era a única que havia
conseguido permanecer em atividade.
Essa
continuidade tinha relação direta com seu empenho. Nos depoimentos de pessoas
que acompanharam sua caminhada, uma definição se repetia: Cida era a alma da
AMA. Além de fundar e presidir a associação, participava de sua rotina, buscava
apoio e destinava recursos próprios para atender às necessidades da
instituição.
Seu
modo de cuidar combinava firmeza e afeto. Sabia chamar a atenção quando
necessário, mas também abraçar e oferecer acolhimento como uma mãe. Para quem
trabalhava ou era atendido na AMA, sua presença significava apoio e disposição
para enfrentar, em conjunto, os desafios de cada dia.
A
mesma força marcou sua luta contra o câncer. Pessoas próximas lembravam que ela
procurava enfrentar a doença com alegria e coragem, preservando o interesse
pela comunidade mesmo enquanto atravessava um período difícil.
Uma
semana antes de falecer, Cida esteve em uma sessão da Câmara Municipal, fez
observações sobre a sucessão municipal e, em seguida, retirou-se. O episódio
revela quanto a vida pública e os destinos de Paraíso continuavam presentes em
suas preocupações. Permaneceu lúcida praticamente até os últimos momentos.
Sua
morte, em 8 de setembro de 2004, aos 52 anos, comoveu São Sebastião do Paraíso.
A despedida reuniu o reconhecimento à vereadora, à amiga e à mulher que havia
dedicado parte expressiva da vida a uma causa que exigia perseverança,
sensibilidade e ação.
O
trabalho de Cida Pimenta frutificou. Na história da AMA e na memória
paraisense, permanece a lembrança de alguém que não se limitava a identificar
uma necessidade: mobilizava pessoas, buscava soluções e ajudava a realizá-las.
Sua trajetória integra a história de São Sebastião do Paraíso pela força de um
legado construído com solidariedade e compromisso com o próximo.
AMA inaugurou sede própria em homenagem à memória de Cida Pimenta
Cerimônia
realizada em 4 de agosto de 2011, no bairro Verona, marcou a concretização de
um dos grandes sonhos da fundadora da instituição
A
trajetória de dedicação de Maria Aparecida Pimenta Pedroso, a Cida Pimenta,
ganhou um capítulo especial em 4 de agosto de 2011, com a inauguração da sede
própria da Associação dos Amigos do Autista (AMA), no Conjunto Habitacional
Verona, em São Sebastião do Paraíso. A conquista ocorreu duas décadas após a
fundação da entidade, em 20 de maio de 1991, e representou a concretização de
um sonho pelo qual Cida tanto trabalhou.
A
data da inauguração teve significado especial. No dia anterior, 3 de agosto,
Cida Pimenta, falecida em setembro de 2004, teria completado 59 anos. Durante a
solenidade, sua memória foi reverenciada pelos funcionários da instituição, que
recordaram, em diversas manifestações, o empenho, a perseverança e a dedicação
da fundadora à causa das pessoas autistas e de suas famílias.
O
terreno destinado à construção da sede, com mais de dois mil metros quadrados,
foi doado pela Prefeitura em 2008. A concretização da obra contou com
expressiva participação da comunidade paraisense. Conforme relatou Luiz
Gonza-ga Pessoni na ocasião, foram realizados diversos eventos beneficentes,
entre eles bailes e bingos, para arrecadar recursos. A construção também
recebeu doações e trabalho voluntário.
“Fizemos
diversos eventos, como bailes e bingos para arrecadar dinheiro, mas também
contamos com doações e trabalho voluntário”, destacou Pessoni.
A
dimensão do terreno possibilitou a instalação de uma estrutura adequada às
atividades da instituição, com perspectivas de futuras ampliações para atender
à crescente demanda por serviços especializados.
Posteriormente,
a entidade passou a adotar a denominação AMAPP — Associação de Amigos do
Autista e Psicótico de São Sebastião do Paraíso. Sob a presidência de Francis
Candiani Santos, a instituição conta com o apoio de equipe técnica e
pedagógica, voltada à ampliação dos atendimentos especializados e ao
fortalecimento das parcerias com a comunidade.
A inauguração da sede própria, sete anos após o falecimento de Cida Pimenta, representou a continuidade de um trabalho iniciado por uma mulher que fez do acolhimento, da solidariedade e da perseverança uma missão de vida. Cida esteve simbolicamente presente na cerimônia, nas lembranças dos funcionários e, sobretudo, na concretização de um ideal que ajudou a construir.


