Ataissa Helena: a força de quem supera o preconceito e transforma vidas
Com 18 anos de dedicação à Educação Física, profissional de Paraíso construiu uma trajetória marcada pela superação, pelo reconhecimento dos alunos e pelo compromisso de promover saúde, alegria e qualidade de vida
Entre
exercícios, coreografias, conversas e demonstrações de carinho, a educadora
física Ataissa Helena Teodoro encontrou uma maneira de exercer sua profissão
que vai muito além do condicionamento físico. Aos 39 anos, com 18 dedicados à
área, ela acompanha diariamente histórias de pessoas que buscam nas atividades
físicas não apenas melhorar a saúde, mas também recuperar a autoestima, superar
limitações e encontrar novos motivos para sorrir. Uma trajetória construída com
dedicação, marcada por desafios e pelo reconhecimento daqueles que passaram por
suas aulas.
Atualmente,
Ataissa atua em projetos da Prefeitura de São Sebastião do Paraíso, entre eles
o Vida Ativa, voltado à terceira idade, e o Movimento Paraíso, que oferece
atividades de dança para diferentes faixas etárias. Conhecida pela disposição,
pela alegria e pela proximidade com os alunos, ela também carrega experiências
de preconceito relacionadas à aparência física, inclusive dentro da própria
profissão. Situações que, embora dolorosas, não a fizeram abandonar a escolha
que começou a desenhar ainda na adolescência.
Filha
de uma enfermeira e de um operador de motosserra, Ataissa é a mais velha de
três filhos. Ao recordar a infância, fala com carinho de uma época marcada
pelas brincadeiras na rua, pelas amizades e pela dedicação aos estudos.
Considera que os ensinamentos recebidos dos pais foram fundamentais para a
formação de seus valores e continuam orientando suas escolhas. “Minha infância
foi muito feliz, de brincar na rua, de ter poucos amigos, mas amigos
verdadeiros. Sempre fui uma criança estudiosa, gostava muito de escola, de
estudar, de aprender. Tinha algumas matérias em que não ia muito bem, mas eu me
esforçava”, recorda.
Para
ela, a maior herança familiar está relacionada aos princípios que aprendeu
desde pequena. O respeito pelas pessoas, a honestidade e a busca por uma vida
profissional que proporcionasse felicidade se tornaram referências importantes
em sua caminhada. “O mais importante que considero na minha história foi a
criação que meus pais me deram: respeitar as pessoas, respeitar o espaço delas,
ser sempre honesta, verdadeira e buscar trabalhar com o que me deixa feliz, sem
passar por cima de ninguém”, afirma.
Da quadra de handebol à Educação Física
O
interesse pela Educação Física surgiu quando começou a praticar handebol em São
Sebastião do Paraíso. Na época, integrava a equipe orientada pela professora
Leni Soares, que também era responsável pelo projeto municipal Vida Ativa. A
convivência com a treinadora despertou a admiração pelo trabalho desenvolvido e
influenciou diretamente sua decisão de seguir carreira na área.
Ainda
no ensino médio, Ataissa costumava dizer a um de seus professores que pretendia
exercer a mesma profissão. A resposta que recebeu, no entanto, não foi
exatamente um incentivo. O professor alertou sobre as dificuldades do mercado e
a possibilidade de pouco retorno financeiro. Mesmo assim, ela manteve a
decisão. “Eu falava para o meu professor que seria igual a ele. Ele me dizia
para desistir, porque era uma profissão muito difícil, que não tinha muito
retorno financeiro. E eu respondia: ‘Mas eu vou ser’”, lembra.
Em
2008, ingressou no curso de licenciatura em Educação Física, em São Sebastião
do Paraíso, após conquistar a 11ª colocação no vestibular. Posteriormente,
conseguiu uma bolsa integral para cursar o bacharelado em Batatais, formação
concluída em 2019. O percurso acadêmico foi acompanhado por experiências
práticas que começaram ainda nos primeiros anos de faculdade.
Desde
o início da graduação, participou de estágios em academias e projetos da
Prefeitura, trabalhando principalmente com natação e hidroginástica. Foi também
nesse período, entre 2008 e 2009, que iniciou sua atuação no Vida Ativa, onde
trabalhou ao lado da professora Leni Soares e permaneceu por aproximadamente
quatro anos como estagiária.
Depois
dessa experiência, seguiu outros caminhos dentro da Educação Física, ampliando
seus conhecimentos e atuando em diferentes atividades. Anos mais tarde, foi
aprovada em um processo seletivo e conquistou a oportunidade de retornar ao
Vida Ativa, reencontrando um público pelo qual sempre demonstrou carinho.
O
retorno ao projeto também representou a possibilidade de acompanhar de perto as
transformações proporcionadas pela atividade física na vida dos idosos. Muitos
chegam às aulas com dificuldades de mobilidade, problemas de saúde ou
insegurança em relação à própria capacidade. Aos poucos, com acompanhamento e
continuidade dos exercícios, começam a perceber avanços que podem representar
grandes conquistas no cotidiano. “É lindo você oferecer saúde, alegria,
diversão e bem-estar para essas pessoas que, às vezes, têm suas limitações,
seus problemas físicos e acham que não vão conseguir fazer muita coisa. A gente
vê a evolução deles, e isso é maravilhoso. Não tem retorno melhor do que ver a
evolução de cada um”, destaca.
As
aulas trabalham aspectos como fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação
motora e manutenção da autonomia. São capacidades importantes para atividades
aparentemente simples, como agachar, caminhar com segurança ou amarrar os
próprios calçados. Para Ataissa, acompanhar a evolução dessas habilidades é uma
das partes mais gratificantes da profissão. “Representa muito para mim a garra
que eles têm de estar ali, de levantar cedo, ir fazer exercício, se superar,
aprender coisas novas e aprender a se socializar novamente. Só quem convive e
conhece sabe a grandeza que é estar ali todos os dias levando bem-estar para
todo mundo”, relata.
Muito além dos exercícios físicos
Na
convivência diária com os participantes, Ataissa percebeu que o trabalho
desenvolvido nos projetos municipais ultrapassa os benefícios físicos. Muitos
alunos enfrentam momentos delicados, como doenças, tratamentos contra o câncer,
depressão, ansiedade e dificuldades familiares. Nessas circunstâncias, a
atividade física também representa uma oportunidade de acolhimento, convivência
e fortalecimento dos vínculos sociais.
Segundo
ela, o ambiente coletivo permite que os participantes encontrem um espaço de
descontração e apoio, mesmo quando atravessam situações difíceis. “Tanto os exercícios
do Vida Ativa como a dança trazem um momento em que eles esquecem os problemas
emocionais, as cargas negativas que estão carregando. Às vezes é uma doença
mais grave, uma depressão, uma ansiedade, um problema passageiro, mas que
precisa de acolhimento”, explica.
Além
do Vida Ativa, a professora desenvolve atividades no Movimento Paraíso, projeto
de dança que atende participantes a partir dos 14 anos. Ela também destaca a
importância da hidroginástica, modalidade que permite trabalhar diferentes capacidades
físicas com menor impacto sobre as articulações.
A
dança, particularmente, ocupa um lugar especial em sua trajetória. Apaixonada
pela atividade desde a infância, Ataissa acredita que a combinação entre
música, movimento e convivência pode proporcionar benefícios físicos e
emocionais. Durante as aulas, procura criar um ambiente descontraído, em que os
participantes se sintam à vontade para aprender, tentar novamente e, sobretudo,
se divertir.
Essa
maneira de trabalhar também está relacionada à sua personalidade. Comunicativa
e bem-humorada, ela considera a alegria uma ferramenta importante para
aproximar os alunos e estimular a participação nas atividades. “Eu acredito
que, através da alegria, da brincadeira e da dinâmica, a gente consegue transformar
vidas. Sou uma professora que gosta muito de brincar, de conversar, de levar a
aula de uma forma leve e divertida. Acredito que por isso essa população me
abraçou tanto”, afirma.
A
proximidade com os participantes faz com que ela também acompanhe momentos
importantes de suas vidas. Ao longo dos anos, conheceu pessoas em tratamento
contra o câncer e outras que procuraram nas atividades uma maneira de enfrentar
dificuldades emocionais. Nessas ocasiões, percebe que o papel do professor
muitas vezes vai além da orientação dos exercícios. “Todos os dias aparecem
várias histórias novas. Sempre tem alguém que precisa de um abraço, de um
desabafo, de um ombro amigo”, conta.
Para
Ataissa, uma das características mais importantes dos projetos é a capacidade
de acolher pessoas com diferentes histórias e necessidades. Ela acredita que
oferecer atenção e respeito é tão importante quanto desenvolver uma atividade
física adequada. “Nesses projetos, a gente abraça, acolhe a população, tanto a
pessoa idosa quanto os mais jovens. Temos pessoas que estão passando por
momentos muito difíceis e que encontram ali um espaço de acolhimento”,
ressalta.
A
educadora destaca que a própria convivência com os alunos também contribuiu
para sua formação pessoal. Ao lidar com realidades diferentes, aprendeu a
compreender melhor as dificuldades das pessoas e a valorizar conquistas que,
muitas vezes, passam despercebidas fora daquele ambiente.
Preconceito, reconhecimento e novos sonhos
Apesar
das realizações profissionais, a trajetória de Ataissa também foi marcada por
obstáculos relacionados à aparência física. Ela relata que, em determinados
momentos, encontrou dificuldades para conquistar oportunidades de trabalho
porque não correspondia ao padrão corporal frequentemente associado aos profissionais
de Educação Física.
Segundo
a educadora, ainda existe uma cobrança para que professores da área apresentem
corpos magros, musculosos ou considerados esteticamente ideais. Essa
expectativa, em sua avaliação, pode fazer com que a formação acadêmica, a
experiência e a capacidade técnica sejam colocadas em segundo plano. “Os meus
principais desafios foram em relação à aceitação das empresas contratantes, por
questão de corpo. Teve uma época em que você tinha que apresentar o que vendia.
Não olhavam muito para o seu profissionalismo, para o seu currículo. Muitas
coisas me barraram, mas eu nunca desisti”, relata.
Ela
considera que a valorização excessiva da aparência prejudica a compreensão do
papel da Educação Física. Embora reconheça a importância do condicionamento
físico e dos cuidados com o corpo, defende que a profissão não pode ser
reduzida à busca por um determinado modelo estético. “Eu posso ser fora do
padrão, mas posso ser saudável. Não preciso ser uma coisa que eu não quero para
agradar às outras pessoas. O mundo está muito voltado para a aparência física”,
observa.
Ataissa
ressalta, entretanto, que nem todas as experiências profissionais foram
negativas. Conta que também encontrou acolhimento em academias onde trabalhou,
inclusive na atual, e que teve sua competência reconhecida independentemente de
suas características físicas.
A
convivência com diferentes públicos contribuiu para fortalecer sua percepção de
que a atividade física precisa respeitar as necessidades individuais. Para ela,
a prática de exercícios deve estar relacionada à saúde, à prevenção de
problemas, à melhora do condicionamento e à qualidade de vida, sem a obrigação
de modificar o corpo para atender às expectativas de terceiros.
“Trabalhar
com o corpo não quer dizer que eu quero transformar uma pessoa em modelo ou
fisiculturista. Eu só quero levar saúde, melhorar o condicionamento cardiorrespiratório,
a parte muscular, diminuir dores. A gente precisa saber respeitar os limites da
pessoa e a forma como ela se vê”, afirma a professora, ao defender uma Educação
Física que considere as particularidades de cada indivíduo.
Ela
acredita que os exercícios devem ser adaptados às condições e aos objetivos de
cada participante, respeitando suas possibilidades. Essa compreensão também
orienta a maneira como trabalha com idosos, jovens e pessoas que apresentam
limitações. “Eu aprendi muito que você pode, sim, ter o corpo que quiser, mas
isso tem que partir de você. Se você não quiser, está tudo bem. Vamos trabalhar
com atividade física para manter a qualidade de vida. Não obrigar a pessoa a
entrar em padrões que ela não quer”, acrescenta.
Essa
defesa do respeito às diferenças também está presente nos vídeos de dança que
Ataissa costuma compartilhar nas redes sociais. Nas publicações, apresenta
coreografias e momentos de sua rotina profissional, buscando mostrar que a
dança não precisa estar condicionada a um tipo específico de corpo, idade ou
habilidade.
Recentemente,
um desses vídeos, gravado durante um ensaio de coreografias para o projeto
Movimento Paraíso, recebeu um comentário ofensivo sobre sua aparência. A
publicação ganhou repercussão em São Sebastião do Paraíso e motivou
manifestações de apoio de alunos, colegas de trabalho e moradores da cidade.
Ataissa
conta que não foi a primeira vez que enfrentou esse tipo de situação. Segundo
ela, o episódio mais recente foi o terceiro ataque semelhante sofrido nas redes
sociais. Embora reconheça a gravidade das ofensas, afirma que o amadurecimento
pessoal e profissional a ajudou a lidar de maneira diferente com a situação.
Ao
explicar o motivo pelo qual compartilha seus vídeos, a professora ressalta que
seu objetivo é justamente incentivar outras pessoas a dançar, independentemente
de suas características físicas. “Eu posto os vídeos dançando para mostrar que,
independentemente do corpo que você tiver, da deficiência ou de qualquer coisa
diferente do padrão que a sociedade aceita, você pode dançar. Você pode ser
feliz dançando”, explica.
Desta
vez, segundo ela, o comentário provocou um susto inicial, mas não teve o mesmo
impacto emocional de experiências anteriores. Ataissa atribui essa diferença ao
aprendizado adquirido ao longo dos anos e, principalmente, ao apoio recebido das
pessoas que fazem parte de sua história. “Eu aprendi a separar o que vou levar
para a minha vida e o que não vou. Esse episódio não me afetou tanto como os
anteriores, porque o carinho que recebi foi maior que o ocorrido”, afirma.
As
mensagens de solidariedade vieram de diferentes pessoas, incluindo
participantes dos projetos municipais, colegas, superiores, familiares e
antigos alunos. Para Ataissa, a mobilização demonstrou que os vínculos
construídos durante quase duas décadas de trabalho continuam presentes na
memória daqueles que passaram por suas aulas.
Ela
ressalta que o acolhimento foi fundamental para que não perdesse a motivação de
continuar ensinando, dançando e compartilhando seu trabalho. Mais do que
responder ao comentário ofensivo, preferiu valorizar as demonstrações de
carinho que recebeu. “O acolhimento da população foi muito importante para que
isso não me afetasse psicologicamente, não me tirasse do caminho que quero
seguir, de onde quero chegar e do que saio de casa para oferecer todos os dias
às pessoas que aguardam sempre o meu melhor nas aulas”, relata.
A
experiência também a levou a refletir sobre a própria personalidade. Ataissa se
descreve como uma mulher carinhosa, comunicativa, que gosta de fazer amizades e
está sempre disposta a ajudar. Reconhece, inclusive, que por vezes dedica mais
atenção às necessidades dos outros do que às próprias. “Sou uma mulher muito
carinhosa, muito fácil de conviver, de fazer amizades, de ajudar o próximo.
Estou sempre preocupada com as pessoas, às vezes até mais do que comigo mesma.
Às vezes cuido mais das pessoas do que de mim”, admite.
Ao
avaliar sua trajetória profissional, Ataissa considera que uma das maiores
conquistas foi justamente alcançar o reconhecimento que buscou desde o início
da carreira. Ao longo dos anos, trabalhou com bebês, crianças, adultos e
idosos, acumulando experiências que contribuíram para seu desenvolvimento
profissional e pessoal. “São muitos anos dedicados à vida das pessoas. Já
passaram pela minha vida adulto, idosos, crianças, bebês, e todos eles sempre
me ensinando uma coisa nova. Através dessas coisas, eu sempre tentei me tornar
uma pessoa melhor”, afirma.
O
reconhecimento recebido de alunos, empregadores e colegas de trabalho é
apontado por ela como uma das maiores recompensas da profissão. Para alguém que
enfrentou dificuldades para conquistar espaço na área, perceber que seu
trabalho é valorizado representa uma realização que vai além das conquistas
acadêmicas. “Eu tenho orgulho da profissional e da mulher que me tornei. Tenho
orgulho de ter conseguido chegar aonde cheguei. Amadureci muito em questão de
pensamentos, de ações, de comportamento”, declara.
A
família permanece como uma das principais fontes de apoio em sua caminhada.
Ataissa conta que encontra nos familiares incentivo, conselhos e companhia para
enfrentar os desafios cotidianos. Aos 39 anos, considera que suas prioridades
estão cada vez mais relacionadas à realização profissional, ao aprendizado e à
possibilidade de continuar trabalhando com aquilo que lhe proporciona
felicidade.
Entre os planos para o futuro está o desejo de ampliar sua formação acadêmica e conquistar um doutorado em Educação Física. Ela também pretende realizar um sonho antigo: desenvolver um projeto próprio ligado à dança, atividade pela qual se apaixonou ainda criança e que continua sendo uma das grandes motivações de sua vida. “Meu maior sonho é chegar a fazer um doutorado na área de Educação Física e continuar trabalhando com o que amo fazer, que é dançar. Sempre, desde pequenininha, amei dançar. Quero abrir alguma coisa minha em relação à dança, porque esse é um sonho que tenho desde criança”, conta.


