Balanço de temporada da F1 (parte 2)
O último ano do regulamento dos carros com efeito-solo aproximou as equipes de tal modo que nos leva a pensar, por que mudar as regras agora que ficou bom? Mas mudanças fazem parte do DNA da F1
Em Abu Dhabi, ao final do Q1, impressionantes 0s663 milésimos de segundo separaram o primeiro colocado do 19º na classificação para a última corrida do ano. Ao final do Q2, os quinze primeiros foram separados por apenas 0s367 milésimos. O último ano do atual regulamento da F1 proporcionou uma das mais disputadas e equilibradas temporadas de todo o período entre 2022 e 2025.
A coluna da semana passada analisou as equipes da parte de
cima da tabela do campeonato, que teve a McLaren campeã, seguida por Mercedes,
Red Bull, Ferrari, e Williams que avançou para o pelotão da frente terminando
em 5º lugar no Mundial de Construtores, somando 137 pontos ante os 17 que havia
somado em 2024 quando amargou a 9ª colocação. A análise de hoje é direcionada à
parte de baixo da tabela, tão disputada quanto a da ponta, envolvendo Racing
Bulls, Aston Martin, Haas, Sauber e Alpine. Para cada posição acima na
classificação do Mundial de Construtores vale muitos milhões de euros na
distribuição dos lucros da F1.
Nesse pelotão, o novato Isack Hadjar teve grande destaque ao
liderar a Racing Bulls sobre o companheiro de equipe, Liam Lawson, que fora
rebaixado da Red Bull para a promoção de Takuma Sato com apenas duas corridas.
O franco-argelino pontuou em 11 das 24 corridas, conquistou o primeiro pódio da
carreira ao terminar em 3º no GP da Holanda e finalizou o campeonato na 12ª
posição com 51 pontos, atrás do experiente Nico Hulkenberg que somou os mesmos
pontos, mas levou vantagem por ter obtido um 3º lugar três corridas antes, em
Silverstone. Hadjar foi protagonista de uma das mais bonitas imagens do ano,
quando, aos prantos após rodar e abandonar o GP da Australia na volta de
apresentação, foi carinhosamente consolado por ‘seu’ Anthony, pai de Lewis
Hamilton, na prova de abertura do campeonato. Outra imagem que fica da
temporada foi o primeiro pódio da carreira de Nico Hulkenberg depois de 238
Grandes Prêmios. Hulkenberg teve papel importante na ascensão da desacreditada
Sauber em seu último ano como equipe cliente - em 2026 será a Audi -, e também
como referência para o estreante Gabriel Bortoleto. A Sauber que estreou na F1
em 1993, encerrou seu ciclo com a 9ª colocação com 70 pontos somados nesta
temporada. Nada mal para quem esteve na lanterna em 2024 com apenas 4 pontos.
Com Gabriel Bortoleto, o Brasil voltou a ter um piloto
titular na F1 depois de 8 anos, e sua primeira temporada foi positiva diante da
experiência ‘zero’ que ele tinha com carros de F1 antes da estreia. Gabriel
atingiu o objetivo de ganhar quilometragem, aprender com erros e acertos, e
cometer o menor número possível de erros. Ele somou 19 pontos, superando todas
as expectativas. Em Interlagos sofreu sério acidente na última volta da corrida
sprint, que por sorte saiu ileso. A falta de experiência contribuiu para o
acidente mais grave de toda a temporada, algo que faz parte do aprendizado.
A Aston Martin terminou o ano na 7ª posição com 89 pontos,
três a menos que a Racing Bulls. O veterano Fernando Alonso se classificou em
10º no campeonato de pilotos, numa clara demonstração de competitividade aos 44
anos. O espanhol massacrou o companheiro de equipe, Lance Stroll, por 24 a 0 em
posições de largada e por 16 a 8 em corridas. Porém, os altos investimentos da
Aston Martin não foram suficientes para sequer obter um pódio.
Outro destaque positivo nesse bloco foi o (quase) estreante
Oliver Bearman, da Haas. O ‘quase’ fica por conta de ele ter disputado duas
corridas em 2024, pela Ferrari e pela própria Haas. O promissor britânico de 20
anos pontuou em dez corridas, tendo como melhor resultado um ótimo 4º lugar no
México, e superou o experiente companheiro de equipe, Esteban Ocon, ao somar 41
dos 79 pontos que garantiram à equipe norte-americana a 8ª colocação no Mundial
de Construtores.
Por fim, a Alpine, que preferiu concentrar todas as atenções no projeto de seu carro de 2026 com a chegada do novo regulamento, não teve gás para acompanhar de perto o pelotão e terminou na última colocação. Mesmo assim, somou 22 pontos - todos com Pierre Gasly. Nos 75 anos de história da F1, jamais uma última colocada somou tantos pontos no campeonato. Franco Colapinto substituiu o australiano Jack Dooham, demitido depois de cinco corridas, e embora tenha balançado na corda bamba sob as ameaças de Flavio Briatore, conseguiu se garantir na equipe para o próximo ano. Contudo, a falta de desempenho da Alpine culminou na melancólica despedida da Renault que deixou a F1 como fornecedora de motores.
Feliz Natal!

