Intolerância religiosa ainda marca a rotina de fiéis em Paraíso

Lideranças de religiões de matriz africana e pastor evangélico falam sobre preconceito, silêncio e respeito no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa
Foto: Divulgação
O babalorixá Luandarê N’Zazi, pastor evangélico Antônio Júnior e a Natália Andrade, conhecida no candomblé como Yalodê Beremi,

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, lembrado em 21 de janeiro, expõe uma realidade que segue presente no cotidiano de fiéis de diferentes crenças em São Sebastião do Paraíso. Olhares desconfiados, piadas disfarçadas, comentários ofensivos e até tentativas de silenciamento ainda fazem parte da vivência de quem segue religiões fora do eixo dominante, especialmente as de matriz africana.

Para Natália Andrade, conhecida no candomblé como Yalodê Beremi, viver o axé não é um detalhe religioso, mas uma forma de existir no mundo. Há mais de dez anos iniciada, ela explica que a espiritualidade atravessa a rotina, as escolhas e a forma de se relacionar com a vida. “Segunda-feira é dia de saudar Exu e abençoar os caminhos. Sexta-feira é dia de usar branco, em respeito a Oxalá. Nos fins de semana, estou no terreiro, com os pés descalços no chão sagrado. Quem é de santo vive Deus na natureza, na água, na terra, no vento e no fogo”, afirma.

Apesar dessa vivência ser parte de sua identidade, Natália relata situações recorrentes de preconceito. Segundo ela, muitas vezes os ataques aparecem de forma sutil, em olhares e comentários, mas também se manifestam de maneira explícita. Um episódio vivido no ambiente de trabalho marcou sua trajetória. Durante uma ação de venda de pizzas organizada pelo terreiro para arrecadar recursos, uma colega afirmou que jamais colocaria em casa uma pizza feita em “terreiro de macumba”, tratando a religião como algo sujo ou nocivo. “Isso revela a essência da intolerância: enxergar nossa fé como algo que não pode fazer parte da sociedade”, relata.

Na avaliação da yalodê, esse tipo de pensamento tem raízes históricas profundas. “A demonização das religiões de matriz africana faz parte do processo de colonização. Apagar símbolos, ritos e culturas foi uma forma de dominação. Vivemos até hoje os reflexos de um Brasil colonial e racista, onde tudo o que foge do modelo religioso dominante é inferiorizado”, explica.

O babalorixá Luandarê N’Zazi (Breno Felipe) compartilha da mesma leitura histórica e afirma que ser liderança religiosa vai muito além de um título. “Ser babalorixá é uma responsabilidade permanente. Isso atravessa minhas escolhas éticas, a forma como cuido das pessoas e como interpreto o sofrimento humano. Não separo espiritu-alidade da vida cotidiana”, destaca.

Ele também diferencia ignorância de intolerância. “A ignorância costuma vir acompanhada de dúvida ou curiosidade. A intolerância vem com desprezo, agressividade e tentativa de silenciamento. Quando o ataque continua mesmo após diálogo e informação, estamos falando de um projeto histórico de desumanização das religiões de matriz africana”, afirma.

Para Luandarê, o que mais machuca não é apenas o ataque direto, mas o silêncio de quem presencia a intolerância e não se posiciona. “O silêncio conivente normaliza a violência. Ele diz que aquilo é aceitável, e nenhuma forma de violência deveria ser tratada assim, especialmente quando atinge a fé e a dignidade das pessoas”, pontua.

O debate sobre intolerância religiosa também encontra eco dentro do cristianismo. O pastor evangélico Antônio Júnior avalia que a data deve servir como um momento de reflexão para as igrejas. “A intolerância religiosa existe e a igreja não pode fingir que isso não é um problema. Defender a fé cristã nunca significou atacar pessoas. Nosso papel é anunciar o Evangelho com convicção e respeito”, afirma.

Segundo o pastor, há uma linha clara entre liberdade religiosa e intolerância. “Dizer o que está na Bíblia não é intolerância. O problema começa quando alguém usa o nome de Deus para machucar pessoas. Jesus falava verdades firmes, mas nunca tratou ninguém com desprezo”, destaca.

Ele também reconhece que parte do problema nasce de interpretações equivocadas do próprio cristianismo. “Muita gente repete discursos sem conhecer de fato o Evangelho. Quem conhece Jesus entende que a fé não se impõe. Ela é anunciada, e cada um faz sua escolha”, completa.

Para os três entrevistados, o combate à intolerância religiosa não passa pela negação das diferenças, mas pelo respeito. Natália resume a questão de forma direta: “Você não precisa acreditar no que eu acredito para respeitar a minha existência”. Luandarê reforça que respeitar o sagrado do outro é um ato de humanidade. Já o pastor Antônio Júnior deixa um alerta às lideranças religiosas: “O púlpito não pode ser usado para espalhar medo ou preconceito. Onde o Espírito de Deus está, há verdade, mas também há equilíbrio e amor”, conclui o líder espiritual.