Audiência pública em Paraíso debate prevenção ao suicídio

Encontro na Câmara reuniu autoridades, técnicos e comunidade; município registrou 50 casos entre 2007 e 2025 e ampliou atendimentos na rede psicossocial
Foto: ASSCAM/Bibiana Percope
Juliano Reis (Biju) foi o idealizador da audiência que reuniu autoridades, profissionais da saúde e população

Na noite de quinta-feira, 24, a Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso realizou audiência pública para discutir a prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental no município. Convocado a pedido do vereador Juliano Carlos Reis (Biju), o encontro reuniu autoridades do Executivo, vereadores, profissionais da rede de saúde, estudantes — incluindo acadêmicos de Psicologia —, representantes de comunidades religiosas e população em geral, com participação aberta para manifestações ao longo da noite.

Na abertura, o presidente do Legislativo, Lisandro Monteiro, definiu a audiência como um instrumento de participação democrática e afirmou que o objetivo é garantir “transparência e diálogo com a sociedade”. Ao declarar o início dos trabalhos, defendeu que o tema exige “sensibilidade, responsabilidade e envolvimento de toda a comunidade”, ao lembrar que o sofrimento psíquico, muitas vezes silencioso, impacta indivíduos, famílias e a coletividade. Segundo ele, o debate precisa ser encarado como “ato de cuidado e compromisso com a vida”, não apenas como exposição de números.

O vereador Bijuliano Reis abriu sua fala agradecendo a presença do público e enquadrou a participação como “um gesto concreto de amor ao próximo” diante de um assunto sensível. Em seguida, anunciou um encaminhamento prático relacionado ao tema: “A nossa audiência já começa a render frutos. Nesta vai ser inaugurado pelo Executivo no ambulatório esse grupo de apoio sobreviventes. Um espaço que escuta, que apoia e que faz o acolhimento”, declarou. Para o parlamentar, o cuidado precisa incluir quem permanece após uma perda, e a audiência deveria servir como espaço de escuta tanto de quem sofre quanto de profissionais envolvidos na prevenção.

A etapa técnica do encontro foi conduzida por representantes da Prefeitura, com uma apresentação única dividida entre dados epidemiológicos e a explicação sobre a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no município. A assessora técnica de gestão em saúde pública, Adriana Rogeri, apresentou números consolidados de suicídios confirmados entre 2007 e 2025: 50 casos no período, sendo 42 homens e 8 mulheres. No detalhamento por idade, o maior volume se concentrou entre 40 e 49 anos (12 registros) e 50 a 59 anos (11). Também houve 9 registros entre 60 e 69 anos e outros 9 entre 70 e 79; acima de 80 anos foram 2. Entre os mais jovens, o levantamento indicou 3 registros de 20 a 29 anos, 3 de 30 a 39 e 1 entre 15 e 19 anos.

Outro ponto destacado na apresentação foi a passagem prévia pelos serviços especializados. No recorte de 2020 a 2025, 58% dos casos confirmados não tiveram atendimento anterior nos CAPS, dado que reforça a dificuldade de alcançar pessoas antes de uma crise. Na leitura apresentada, o desafio não se limita à existência de serviço, mas à capacidade de identificar sofrimento oculto e incentivar o acesso à rede no tempo certo.

Ainda na contextualização, foram citadas informações nacionais sobre mortalidade por suicídio e predominância masculina. Em 2021, o país contabilizou mais de 15 mil mortes, com a maior parte ocorrendo entre homens, além de registros relevantes em populações jovens. A exposição também pontuou que o tema é considerado problema de saúde pública e requer ações coordenadas e permanentes.

Na sequência, a coordenadora do CAPS Infantojuvenil Girassol, Daiane Arantes Oliveira, detalhou a estrutura da RAPS no município e o modelo de abordagem adotado. A rede inclui CAPS II, CAPS AD e CAPS Infantojuvenil, além de unidades básicas, UPA e outros pontos de cuidado. Foram apresentados números de atendimentos dos três CAPS ao longo dos anos, indicando crescimento expressivo: em 2009, o total registrado foi de 14.335 atendimentos; em 2016, chegou a 32.553; e, mais recentemente, a série apontou 34.645 em 2022, 38.810 em 2023, 47.894 em 2024 e 57.452 em 2025. Na avaliação feita durante a audiência, os números refletem ampliação de acesso e maior capacidade de acolhimento da rede.

A apresentação também abordou fatores associados ao comportamento suicida e pontos de proteção. Entre os riscos citados estiveram isolamento social, uso abusivo de álcool e outras drogas, histórico de transtornos mentais, conflitos familiares, perdas recentes, dificuldades financeiras e exposição a violências. Como fatores protetivos, foram mencionados apoio familiar e social, acesso a serviços, fortalecimento de vínculos, participação comunitária e estratégias para reduzir acesso a meios letais, além de iniciativas intersetoriais.

Na fala do Executivo, o prefeito Marcelo Morais afirmou que a maior dificuldade da política pública está justamente em alcançar quem não procura o sistema. “A cada dez pessoas que cometem suicídio em São Sebastião do Paraíso, oito não procurou o nosso sistema”, disse, ao defender que o tema não seja lido apenas como estatística. Para o prefeito, a lógica precisa mudar: “A pessoa não quer tirar a vida; é uma dor que ela está sentindo e não consegue conviver. Quando fica encurralada, ela passa a enxergar acabar com a dor como saída”. Marcelo também cobrou responsabilidade coletiva, ao afirmar que o poder público, isoladamente, não consegue resolver o problema: “Sozinho, com o poder público, eu não consigo”, declarou, pedindo que a sociedade observe sinais e atue como rede de apoio.

O secretário municipal de Saúde, Adriano Lopes de Siqueira, afirmou que uma das estratégias para enfrentar o “antes” é qualificar quem está mais próximo das famílias. “A porta de entrada do município é o ACS”, disse, defendendo capacitação dos agentes comunitários para reconhecer sinais de sofrimento durante visitas domiciliares. Para ele, por mais que haja estrutura, “a gente não consegue fazer gestão pública sem o fator humano”, e a prevenção exige participação social e encaminhamento precoce.

A vereadora Maria Aparecida Cerize (Cidinha) destacou a evolução do debate sobre saúde mental e lembrou que, no passado, quadros como depressão foram tratados como fraqueza. Segundo ela, hoje se reconhece que o problema atinge todas as faixas etárias e tem impacto para famílias e para os sistemas público e privado. Cidinha relatou, a partir de sua vivência na área, que atendimentos por crises e tentativas são frequentes em serviços de urgência, o que reforça a necessidade de esclarecer fluxos e ampliar acolhimento.

Após as exposições, o plenário abriu espaço para participação do público. Estudantes de Psicologia e outros presentes fizeram perguntas, apresentaram observações e discutiram o tema com autoridades e profissionais, em debate descrito como respeitoso e propositivo. Uma das falas que marcou a audiência foi a da pastora Ana, que relatou ter perdido um filho há quatro meses e defendeu atenção cotidiana aos sinais. “As pessoas não escolhem tirar a vida. Elas escolhem tirar a dor que está dentro delas”, afirmou, ao mencionar que o sofrimento nem sempre é visível e que vínculos próximos podem fazer diferença na busca por ajuda.

A audiência foi transmitida pelos canais institucionais da Câmara, com registro em ata. O tema, segundo os participantes, deve seguir em debate, com fortalecimento de ações, ampliação de orientação à população e articulação entre poder público e sociedade.