O que minhas avós sabiam

Foto: Colagem avós - acervo Marília Nogueira

Tenho uma alma velha. Sempre amei o barulho da chuva, uma boa comida, uma boa noite de sono. Prazeres simples, quase sempre silenciosos e solitários.

Tenho uma alma menina também. Apaixonada por carnaval, curiosa e sonhadora. No último final de semana, as duas deram as mãos na Mostra Eu Mais Velha, em Curitiba.

Um dos filmes, “Pé de Rosa”, fez minha alma menina pular de susto. Ao ouvir a reza murmurada de Rosa, eu me vi muito pequena tomando benzeções pra curar a bronquite. Junto veio a vontade de sentir aquele murmúrio soprado sobre mim outra vez. Será que tem reza para essa profusão de sofrimentos modernos que inventamos?

Depois veio o chacoalhão na minha alma velha ao conhecer a Pajé Jaçanã. Sempre sorridente, ela contava sobre seu ofício de parteira e das mais de mil crianças que ajudou a trazer ao mundo. Narrou histórias que escutou da mãe, deu receita de remédios santos. Falou de sofrimento e de lutas também — mas com o sorriso sempre pronto, lembrando às almas mais esquecidas que ainda há esperança.

Jaçanã e Rosa ali, tão velhinhas e tão meninas.

Lembrei das minhas avós e lamentei nunca ter perguntado sobre suas parteiras, benzedeiras e remédios de quintal. Folha de boldo pro fígado, chá de alho pra gripe, chá de orégano pro estômago. É só o que tenho na memória. Quantas plantas medicinais elas não conheciam de cor?

Entre filmes, histórias de cura e de luta, voltei pra casa desejando passar mais tempo com as mulheres mais velhas da minha família.  Quero aprender os chás, perguntar pelos nomes das plantas, continuar essa memória dos cuidados com a vida. Quero aprender o que minhas avós sabiam.

Minha alma velha e minha alma menina agora caminham um pouco mais juntas.

Marília Nogueira