Quem produz não trabalha contra o relógio: Trabalha contra o tempo

Manifestação do Sindicato Rural de São Sebastião do Paraíso sobre a jornada 6x1, a safra e as variações climáticas no campo
Foto: Divulgação
Denise Cerize Kolling - Presidente do Sindicato Rural de São Sebastião do Paraíso.

O Brasil se sustenta sobre o trabalho de muitos, mas sobre a coragem de poucos - e entre esses poucos estão os homens e mulheres que produzem no campo.

O produtor rural não lida apenas com custos, tributos e mercado. Ele lida com algo ainda mais implacável: o tempo da natureza. E a natureza não trabalha por decreto, não respeita discurso e não espera conveniência política.

No campo, a realidade não é teórica. Há tempo de plantar, tempo de colher, tempo de apartar, tempo de vacinar, tempo de tratar, tempo de transportar e tempo de salvar uma produção inteira antes que a chuva destrua, que a seca comprometa, que a umidade derrube a qualidade ou que a janela da colheita se feche. Quem não compreende isso não compreende o campo.

É justamente por isso que o debate sobre a jornada 6x1 precisa ser tratado com extrema responsabilidade. O que para alguns setores pode parecer apenas uma fórmula de organização do trabalho, para a atividade rural pode representar rigidez incompatível com a realidade produtiva. No campo, há períodos em que a demanda se intensifica de forma inevitável, especialmente na safra, na colheita, no manejo animal e nas variações climáticas que exigem resposta imediata.

A lavoura não espera. O gado não espera. A chuva não espera. A janela de colheita não espera.

E quando o tempo não espera, o produtor também não pode ficar impedido de organizar sua atividade com racionalidade, dentro da lei, de forma responsável e compatível com a realidade que enfrenta.

Isso não significa desconsiderar o trabalhador. Ao contrário. O trabalhador rural merece respeito, remuneração justa, proteção contra abusos e dignidade em sua jornada. Mas respeitar o trabalhador não pode significar ignorar a lógica concreta da produção rural. Não haverá trabalho digno se não houver produção viável. Não haverá emprego sustentável se a atividade for amarrada por regras incapazes de dialogar com a vida real do campo.

Produtor e trabalhador não marcham em lados opostos. Marcham na mesma direção. Um depende do outro. Ambos dependem da continuidade da produção. E a continuidade da produção, no campo, depende de flexibilidade responsável, previsibilidade jurídica e compreensão daquilo que faz a atividade rural ser diferente de qualquer outra.

Uma nação séria não impõe ao campo soluções pensadas longe da terra, longe da safra e longe da urgência da realidade. Ela reconhece que a atividade rural exige equilíbrio: proteger quem trabalha, sim, mas também permitir que quem produz tenha liberdade para enfrentar o clima, responder à safra, cumprir o tempo da colheita e preservar a própria existência da produção.

A verdadeira justiça está exatamente nesse ponto de equilíbrio. Justiça não é sufocar quem produz. Justiça é garantir que o trabalhador tenha dignidade sem destruir as condições que tornam o emprego possível. Onde há produção responsável, há trabalho. Onde há trabalho digno, há renda. Onde há renda no campo, há estabilidade nas cidades e alimento na mesa das famílias.

Toda vez que se enfraquece o produtor rural, enfraquece-se também o trabalhador, a economia local, o abastecimento e a segurança alimentar do país. Porque o campo não é um setor qualquer. O campo é uma atividade submetida ao risco, ao tempo e à urgência.

O campo brasileiro não pede privilégios. Pede apenas que sua realidade seja respeitada. Pede segurança jurídica para organizar o trabalho de forma séria. Pede equilíbrio para continuar produzindo mesmo diante da safra, das oscilações climáticas e das exigências que a natureza impõe.

Porque quem produz no campo não trabalha contra o relógio. Trabalha contra o tempo. E uma nação que não entende isso corre o risco de enfraquecer justamente aqueles que a sustentam.

Denise Cerize Kolling - Presidente do Sindicato Rural de São Sebastião do Paraíso.