ACISSP alerta para impactos da escala 5 x 2 no comércio

Presidente da entidade aponta aumento de custos, dificuldade de contratação e risco de perda de competitividade para o comércio local
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Presidente da ACISSP, Matheus Colombaroli

A proposta que prevê o fim da escala 6x1 e a adoção do modelo 5x2 ainda está em tramitação no Congresso Nacional, mas já gera preocupação entre representantes do setor produtivo em São Sebastião do Paraíso. Para o presidente da ACISSP, Matheus Colombaroli, a mudança poderá aumentar os custos das empresas, exigir readequações operacionais e agravar um problema que já afeta o comércio local: a falta de mão de obra.

A proposta foi aprovada pela Câmara dos Deputados e agora segue para análise do Senado. O texto prevê a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem redução salarial. Segundo Colombaroli, embora ainda existam dúvidas sobre a forma como a mudança será implementada, os possíveis impactos já podem ser avaliados.

De acordo com ele, a redução da carga horária obrigará empresas e comerciantes a reverem suas operações. “Isso vai exigir do empresário readequar os horários de funcionamento. Talvez ele tenha que contratar mais pessoas, pagar horas extras ou passar por um processo de automatização do atendimento. Em qualquer uma dessas situações, haverá aumento de custo para a empresa ou para o comércio”, afirma.

Na avaliação do presidente da ACISSP, esses custos tendem a ser repassados ao consumidor final. “Hoje as empresas já trabalham com margens muito reduzidas. Esse aumento de custo vai entrar no preço do produto ou do serviço e tornar tudo mais caro para o consumidor. Ficando mais caro, isso gera inflação e diminui o poder de compra das pessoas”, afirma.

Colombaroli também acredita que empresas altamente automatizadas e grandes plataformas de comércio eletrônico tendem a sofrer menos impacto do que o comércio tradicional. “Empresas como Amazon e Mercado Livre já possuem boa parte da operação automatizada. O preço delas ficará ainda mais atrativo para o consumidor do que o comércio de rua, criando uma concorrência ainda mais difícil para os comerciantes locais”, afirma.

O presidente da entidade também fez críticas à motivação da proposta. “Não tenho dúvida de que isso será aprovado porque é uma pauta política para ganhar votos. Os políticos que estão encabeçando isso não estão preocupados com saúde ou qualidade de vida. Trata-se de uma pauta meramente política para angariar votos”, afirma.

Segundo Colombaroli, ainda é cedo para afirmar se as empresas estão preparadas para a mudança, justamente pela falta de definições sobre a implementação da medida. “Ainda não se sabe como vai ser a aprovação, como isso vai começar e como as empresas terão de se adequar ao longo dos anos. Existem muitas incertezas para saber o impacto real dessa mudança”, afirma.

Ele também questiona se o Brasil possui condições econômicas semelhantes às de países desenvolvidos que adotam jornadas menores. “Nossa produtividade ainda é reduzida. Quando se fala em mais tempo livre, é preciso perguntar o que as pessoas vão fazer com esse tempo. Será que vão descansar ou buscar outro emprego para complementar a renda?”, questiona.

Como exemplo, Colombaroli cita a implantação do piso nacional da enfermagem. Segundo ele, embora a medida tenha sido justa ao valorizar os profissionais, muitos trabalhadores continuaram acumulando mais de um vínculo empregatício. “A ideia era que tivessem mais tempo para descansar e estudar, mas, na prática, muitos mantiveram dois ou três empregos. É um exemplo recente que merece reflexão”, afirma.

Comércio já enfrenta escassez de trabalhadores

Para Colombaroli, o setor que deverá sentir os efeitos mais rapidamente será o comércio. Isso porque a dificuldade para contratação já é uma realidade enfrentada pelas empresas da cidade.

Segundo ele, um feirão de empregos realizado recentemente pela ACISSP disponibilizou mais de 200 vagas, mas atraiu apenas cerca de 70 candidatos. “Todo comerciante relata a mesma dificuldade. Se a carga horária for reduzida e houver necessidade de contratar mais pessoas, onde vamos encontrar essa mão de obra?”, questiona.

O presidente da entidade afirma que a escassez de trabalhadores já se tornou um problema crônico. “Havia uma previsão de apagão de mão de obra no Brasil e estamos observando isso acontecer. Inclusive, grandes empresas em Paraíso tiveram dificuldades para inaugurar suas lojas por falta de trabalhadores”, afirma.

Ele acredita que a combinação entre falta de profissionais e aumento dos custos operacionais pode acelerar ainda mais o crescimento do comércio eletrônico. “Mesmo que as empresas consigam contratar, haverá aumento de custos e isso será repassado aos preços. O consumidor vai sentir no bolso. Aquilo que antes custava R$ 100 pode passar a custar R$ 120. Com isso, o comércio eletrônico tende a ganhar ainda mais espaço”, afirma.

Na avaliação de Colombaroli, o cenário exige que os empresários locais acelerem investimentos em tecnologia e presença digital. “Está na hora de o comércio paraisense repensar seus modelos de negócio e investir cada vez mais em plataformas digitais para venda de produtos e serviços, de forma a competir com empresas de fora”, afirma.

Sobre possíveis ações da ACISSP, ele afirma que a entidade acompanhará a tramitação da proposta e pretende orientar os associados quando houver definições mais concretas. “Temos o apoio da CACB e da Federaminas, que já estudam o tema. Quando tivermos uma definição clara, será nossa obrigação promover debates, treinamentos e workshops para que empresários, comerciantes e produtores rurais possam se adequar. Podem contar com a ACISSP nesse ponto”, afirma.