Acorda, Fórmula 1

GP da Espanha foi tedioso, com apenas quatro ultrapassagens — menos que as dez de Mônaco neste ano
Foto: F1 / Divulgação
Norris contorna uma das curvas de Madring. Circuito foi alvo de críticas pela dificuldade de ultrapassagem

Está na hora de a Fórmula 1 ser mais criticada do que bajulada. E este é um bom momento para não deixar isso passar em branco. O  GP da Espanha, cheio de problemas, realizado pela primeira vez em uma pista ruim, montada na periferia de Madri, foi pior que o de Mônaco.

Kimi Antonelli venceu a corrida, mas fez questão de dizer que não se sentia feliz porque era Lando Norris quem merecia ter vencido. Norris havia conquistado uma pole position surpreendente e liderava a prova com ritmo para vencer, mas acabou prejudicado por um safety car virtual (VSC) e não teve chances de se recuperar porque simplesmente não havia como ultrapassar em Madring. Terminou em terceiro, atrás de Max Verstappen, o segundo colocado.

O GP da Espanha foi um vexame anunciado. Qualquer pessoa que visse o desenho da pista era capaz de prever que não haveria como ultrapassar. Mas parece que a Fórmula 1 não estava muito preocupada com isso quando decidiu levar a corrida para Madri.

Não faltaram críticas ao traçado de Madring, e, felizmente, o temor de acidentes graves por conta de um traçado veloz, sem áreas de escape, com curvas cegas e cercado de muros não se concretizou.

A Fórmula 1 precisa acordar. Stefano Domenicali, CEO da Liberty Media, empresa dona dos direitos comerciais da categoria, tem deixado a desejar em alguns aspectos. Ele tem se preocupado mais com o público jovem que passou a acompanhar a categoria e anda pouco se ligando à grande base fiel de fãs que está envelhecendo, é verdade, mas que sempre consumiu a Fórmula 1 e garantiu os índices de audiência por décadas. Domenicali disse outro dia, em tom de ironia, que “há fãs do automobilismo que falam sobre o clipping” (efeito em que o motor a combustão perde potência para recuperar energia da bateria no esdrúxulo regulamento de motores deste ano), “mas há também muitos que pensam que um clip é algo para colocar no cabelo”.

Soa como falta de respeito a quem sempre se interessou pelos detalhes técnicos da categoria. E é com esse público, o da geração Z do segundo exemplo, que este senhor tem dado mais atenção. Jornalistas estão sendo posicionados em salas de imprensa cada vez mais distantes do paddock para acomodar melhor os convidados VIPs. Conseguir uma credencial de imprensa, se não for de um grande veículo de mídia que renda audiência para a F1, já se tornou quase impossível nos últimos dois anos.

Neste ano, a Liberty retirou a corrida Sprint de Interlagos, que sempre proporcionou as melhores corridas curtas desde que foram criadas, em 2021, para leva-la a Zandvoort e Cingapura. Não faz sentido.

Aqui cabe um parêntese: saiu o calendário do próximo ano, e Interlagos voltará a ter Sprint na programação. Mas, pasmem, Mônaco, onde ninguém ultrapassa ninguém, terá uma pela primeira vez. Fecha parêntese.

O Circuito de Madring é mais uma das falácias do mandatário da F1. Foram gastos cerca de 200 milhões de euros entre a construção da pista e as reformas do pavilhão do centro de exposições IFEMA, sem falar em outros milhões gastos para a realização da corrida. E, no frigir dos ovos, foram 57 voltas entediantes. A primeira ultrapassagem real aconteceu na volta 35, de George Russell sobre Liam Lawson, pela quinta posição. Houve apenas quatro ultrapassagens. Mônaco teve mais neste ano (10).

Há pistas que, quando saem do calendário, não deixam nenhuma saudade. Foi assim com Valência e Sochi, na Rússia. Será assim quando Jeddah, na Arábia Saudita — sabe-se lá quando — deixar o calendário. E, com Madring, não será diferente.

O problema é que a Liberty assinou logo de cara um contrato de dez anos com os organizadores do GP da Espanha. E, até lá, teremos que digerir corridas nessa pista que nasceu sem alma, mas com o objetivo de arrecadar dinheiro com muita bajulação aos VIPs, enquanto quem pagou caro pelos ingressos mal pode ver a pista das arquibancadas.

Acorda, Fórmula 1.