Da infância humilde em Paraíso à presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso

Ex-aluno do Campos do Amaral, William Drosghic deixou a cidade aos 11 anos, trabalhou como engraxate e camelô e construiu uma trajetória na magistratura. Uma semana antes de morrer, voltou à casa onde viveu na infância
Foto: Arquivo Pessoal
Em Rondonópolis, cidade onde recebeu uma homenagem que perpetuou seu nome

Uma mensagem recebida na caixa de e-mails do Jornal do Sudoeste trouxe uma história de superação e de vínculos com São Sebastião do Paraíso que nem a distância nem o passar dos anos apagaram.

O advogado Cristiano Mota Drosghic procurava uma forma de entrar em contato com a atual Escola Municipal Campos do Amaral. Queria levar à instituição a história de seu pai, o desembargador William Drosghic, paraisense que estudou naquele estabelecimento e chegou, por duas vezes, à presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

O contato aconteceu em momento oportuno, durante a elaboração do caderno alusivo ao aniversário de São Sebastião do Paraíso. Informado sobre a publicação, Cristiano encaminhou ao JS o currículo do pai e compartilhou lembranças que ajudam a revelar, além da trajetória profissional, o homem que guardou até os últimos dias o desejo de rever suas origens.

Nascido em São Sebastião do Paraíso em 2 de julho de 1917, William era filho de Dolores Orsi de Parenzi e José Drosghic Júnior. De família humilde, cresceu entre nove irmãos e estudou no então Grupo Escolar Campos do Amaral. Segundo o relato encaminhado pelo filho, conservava ótimas recordações das professoras e diretoras da escola.

Aos 11 anos, tomou uma decisão que mudaria sua vida: fugiu de casa e seguiu para o Rio de Janeiro, então capital federal, com o intuito de vencer na vida. O começo foi marcado por dificuldades. Dormiu em praças e passou a trabalhar como engraxate para se sustentar e conseguir estudar.

Posteriormente, tornou-se camelô. Conforme as informações da família, nessa atividade conheceu Silvio Santos, que também trabalhava no comércio de rua, e tempos depois trabalhou como alfaiate.

O esforço para estudar o levou inicialmente à Medicina. William chegou ao terceiro ano do curso, mas precisou aban-doná-lo por não conseguir continuar custeando a formação. Mais tarde, ingressou em Direito, concluiu a faculdade e exerceu a advocacia por um breve período.

Em 1950, mudou-se para Mato Grosso, onde prestou concurso e passou a exercer o cargo de juiz de Direito. As promoções ao longo da carreira o conduziram ao Tribunal de Justiça do Estado, como desembargador.

Doutor William presidiu o Tribunal de Justiça de Mato Grosso em duas ocasiões, foi vice-presidente uma vez e exerceu por dois períodos a função de corregedor-geral de Justiça. Também presidiu o Tribunal Regional Eleitoral.

Aposentou-se em 1971 e passou a morar em Rondonópolis, cidade onde recebeu uma homenagem que perpetuou seu nome: a denominação do fórum da comarca.

Apesar da vida construída longe de São Sebastião do Paraíso, as lembranças da cidade natal permaneceram. Cristiano acredita que já não tenha familiares vivos no município, mas relata um episódio que demonstra a força dessa ligação.

Uma semana antes de morrer, aos 81 anos, William foi trazido pelo filho a Paraíso. Tinha vontade de voltar à cidade e sabia exatamente o endereço da modesta casa onde havia morado na infância.

Pai e filho encontraram o imóvel. Ao conhecerem a história daquele visitante, os atuais moradores franquearam a entrada. O reencontro com o espaço de suas primeiras lembranças emocionou profundamente o desembargador.

Uma semana depois do retorno a Mato Grosso, em 29 de novembro de 1998, aos 81 o desembargador William Drosghic faleceu em Rondonópolis, deixando viúva e seis filhos.

O pedido de contato com o Campos do Amaral trouxe ao Jornal do Sudoeste trouxe a memória de um menino paraisense que enfrentou a pobreza, encontrou nos estudos um caminho e alcançou a direção de importantes instituições da Justiça. E que, ao final da vida, quis atravessar novamente a porta da casa onde sua história começou.