Da pesquisa sobre viroses às novas estratégias contra o câncer, paraisense constrói trajetória na Fiocruz

Carlos Eduardo Calzavara Silva reúne atuação em imunologia, desenvolvimento de alternativas de diagnóstico e tratamento, formação de pesquisadores e resposta a emergências de saúde pública
Foto: Reprodução/Curriculo Lattes
Carlos Eduardo Calzavara Silva. Biólogo, doutor em Bioquímica e Imunologia e pesquisador do Instituto René Rachou, a Fiocruz Minas

Compreender como o organismo reage às doenças e transformar esse conhecimento em possibilidades de diagnóstico e tratamento são desafios que atravessam a trajetória do paraisense Carlos Eduardo Calzavara Silva. Biólogo, doutor em Bioquímica e Imunologia e pesquisador do Instituto René Rachou, a Fiocruz Minas, ele desenvolve trabalhos que abrangem desde infecções virais até o emprego de nanotecnologia em pesquisas contra o câncer de mama.

Natural de São Sebastião do Paraíso, Carlos Eduardo integra uma instituição de referência em ciência e tecnologia em saúde, vinculada ao Ministério da Saúde. Sua atuação combina investigação científica, formação de novos pesquisadores e participação na organização de respostas a problemas que atingem a população brasileira.

Na Fiocruz Minas, permanece entre os líderes do Grupo de Pesquisa em Imunologia Celular e Molecular. A página institucional atualizada em 2026 apresenta seu nome ao lado de Jaquelline Germano de Oliveira na liderança da equipe, cuja atuação abrange arboviroses, outras infecções virais, leishmanioses, câncer e estudos de novas estratégias terapêuticas.

O trabalho desse grupo procura compreender os mecanismos das doenças e desenvolver métodos de diagnóstico, candidatos a vacinas e possibilidades de tratamento. Entre suas linhas estão a investigação de substâncias antivirais, o estudo das respostas imunológicas às infecções e a aplicação de nanopartículas em diagnóstico e terapia.

Formação e investigação molecular

A formação acadêmica de Carlos Eduardo foi construída na Universidade Federal de Minas Gerais. Graduou-se em Ciências Biológicas em 1999, concluiu o mestrado em Bioquímica e Imunologia em 2001 e o doutorado na mesma área em 2006. Posteriormente, desenvolveu pós-doutorado no Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, unidade da Fiocruz em Pernambuco.

O registro da UFMG informa que sua tese de doutorado foi defendida em 24 de fevereiro de 2006, sob orientação da professora Glória Regina Franco. O estudo investigou a função de uma proteína do Schistosoma mansoni, parasito causador da esquistossomose, e sua possível participação no controle da atividade dos genes.

Essa etapa de sua formação evidencia uma base de pesquisa que antecede os trabalhos mais conhecidos sobre viroses: o estudo dos processos moleculares envolvidos no funcionamento dos organismos e na relação entre agentes infecciosos e seus hospedeiros.

Ao longo da carreira, esse conhecimento passou a integrar investigações voltadas a diferentes problemas de saúde. Na apresentação atual do corpo docente da pós-graduação da Fiocruz Minas, Carlos Eduardo tem sua atuação descrita em duas grandes áreas: virologia, com pesquisas básicas e aplicadas ao diagnóstico e tratamento de arboviroses, e câncer, com estudos de nanotecnologia direcionados aos tumores mamários.

Dengue e busca de antivirais

A dengue ocupa espaço importante em sua produção científica. Carlos Eduardo é coautor de trabalhos sobre possíveis biomarcadores para o prognóstico das formas graves da doença — sinais biológicos que podem ajudar a compreender sua evolução — e sobre a relação entre a resposta imunológica e manifestações de maior gravidade.

A pesquisa nessa área também envolve a busca de substâncias capazes de interferir na multiplicação dos vírus. A programação científica da Fiocruz Minas de 2025 registra trabalhos sob sua orientação sobre o potencial antiviral de nanopartículas de óxido de ferro contra o vírus da dengue e sobre descoberta de antivirais e mecanismos de ação para diferentes infecções.

Entre os temas apresentados estavam febre amarela, zika, dengue, chikungunya e poxviroses, além de estudos relacionados aos vírus causadores das febres Mayaro, do Nilo Ocidental, Rocio e Oro-pouche. Os registros mostram a diversidade de questões in-vestigadas e o envolvimento de estudantes na construção dessas pesquisas.

Outra frente aparece no portfólio tecnológico da instituição: a busca de substâncias bioativas em produtos naturais. Carlos Eduardo integra a equipe de um projeto que investiga extratos de plantas e fungos como fontes de compostos com potencial antiviral, antitumoral ou de ação contra protozoários. O objetivo é identificar substâncias que possam servir de ponto de partida para o desenvolvimento de medicamentos.

Participação na resposta à Covid-19

Durante a pandemia de Covid-19, sua atuação alcançou também a organização da estrutura laboratorial necessária ao diagnóstico. Em abril de 2020, quando era vice-diretor de Pesquisas da Fiocruz Minas, integrou o grupo responsável por preparar o Instituto René Rachou para realizar testes moleculares em parceria com a Fundação Ezequiel Dias, a Funed.

A força-tarefa precisou organizar espaços, equipamentos, insumos e equipes. Conforme a divulgação institucional da época, 41 profissionais e pós-graduandos se inscreveram voluntariamente, e 25 foram selecionados para compor a equipe de diagnóstico. A colaboração buscava ampliar a capacidade de processamento das amostras de casos suspeitos em Minas Gerais.

Nanotecnologia contra o câncer de mama

Uma das frentes mais recentes de destaque reúne imunologia e nanotecnologia. Em pesquisa liderada por Carlos Eduardo e pela pesquisadora Camila Sales do Nascimento, a equipe estudou como nanopartículas de óxido de ferro podem modificar a resposta de células de defesa diante do câncer de mama.

Nos experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram alterações na resposta imunológica e menor presença de focos tumorais nos pulmões dos animais tratados. A investigação procura compreender como as nanopartículas podem favorecer o reconhecimento e o enfrentamento das células cancerígenas pelo organismo.

Carlos Eduardo também aparece entre os integrantes da Rede Mineira de Nanomedicina Teranóstica, apresentada pela UFMG em 2022. A iniciativa reúne pesquisadores de diferentes instituições em torno de tecnologias que aproximam diagnóstico e tratamento, ampliando a colaboração científica nessa área. www1.icb.ufmg.br

Formação de novos cientistas

A orientação de estudantes constitui outra dimensão de sua trajetória. Integrante do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Fiocruz Minas, Carlos Eduardo participa da formação de profissionais que desenvolvem pesquisas em virologia, imunologia e novas abordagens terapêuticas.

O percurso do pesquisador paraisense reúne, assim, atividades que se complementam: compreender os mecanismos das doenças, investigar possíveis soluções e preparar novos cientistas para dar continuidade ao trabalho.