ENRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 06-03-2024 01:00 | 40
Renato Zupo
Renato Zupo Foto: Arquivo

Interlúdio
Fazia muitos anos que não faltava ‘a uma semana de combate em várias frentes, na imprensa escrita, no blog, na Jovem Pan e em meu canal nas mídias digitais.  A dengue me pegou, a mais grave, e quase morri.

A par da consciência da finitude humana que sempre nos acompanha em eventos desta magnitude, percebi também que se deve aproveitar o tempo sempre, porque não se sabe ao fim e ao cabo quanto tempo teremos, ou ainda teremos. Abraçar aos filhos, terminar o livro que dormita inacabado desde os tempos da pandemia, resolver pendências familiares e financeiras.

E mudar um pouco o rumo da prosa. Há uns cinco anos este espaço vem sendo dedicado quase exclusivamente à ciência política, não por pendor e paixão deste escriba ou porque faltem outros assuntos ou preferências, mas porque nossa República não dá sossego quanto aos problemas políticos e à máquina governamental. Em suma, não falta assunto, mas toda semana o assunto quente é o político.

Hoje vamos esfriar da política em homenagem à minha convalescença, aos olhos e ouvidos e cabeça do público. Vamos descansar de corrupções, eleições e ejaculações midiáticas. E exibicionismos,  para lembrar Charles Bukowski.

Vamos mudar de assunto. Vamos falar de Dengue, doença que quase me matou.

Raízes que tem asas
Em um de seus blogs, minha irmã Daniella Zupo, que aniversaria esta semana, fala em raízes que tem asas. As origens não só nos acompanham, como nos conduzem pelos céus para onde nosso destino reservou nossos caminhos e trilhas.

Amigos meus médicos que se formaram até meados da década de 1980 me contam em uníssono: não estudaram a Dengue durante os anos de sua graduação, por um prosaico motivo. A doença estava erradicada no Brasil, não era epidemia, sequer havia então casos conhecidos e diagnosticados.

De lá para cá, a Dengue ressurgiu nas asas de seu portador, o Aedes Aegypti, nome difícil-  e é estranho que nós irreverentes brasileiros não tenhamos ainda criado um apelido para esse bicho tão insuportável. Ele também é conhecido como mosquito da dengue ou pernilongo rajado, no primeiro caso pelo mal que transmite, no segundo por sua aparência física.

O Aedes vem da África e isso dá uma pista clara dos motivos pelos quais voltou a aportar no Brasil. O continente africano, apesar de sua riquíssima cultura antropologicamente considerada, é a parte do planeta mais pobre que há, entulhada de gente em condições miseráveis de subsistência – e isso inclui saneamento básico. Esgotos a céu aberto, fossas nada sépticas, carência de água encanada e gente e bicho apodrecendo ao ar livre em periferias de cidades com mais de dez milhões de habitantes. Isso tudo é ao mesmo tempo motivo e ambiente propício para a proliferação do mosquito da Dengue. Suas raízes e suas asas.

Uma doença de porcos
O Brasil, que havia deixado de sofrer da epidemia de dengue, voltou a suportá-la de trinta anos para cá porque, apesar de Oswaldo Cruz e sua luta pela implementação do saneamento básico nas grandes cidades brasileiras, com  esgoto  e água encanada como regra na região sul-sudeste ao menos e apesar das melhorias inegáveis na saúde pública brasileira, enfim, apesar dos pesares, sofremos um retrocesso aparentemente  irreversível em nossa saúde básica.

Com a proliferação dos bairros pobres nas periferias das grandes cidades e com o processo de favelização decorrente da especulação imobiliária irresponsável, voltamos a ter uma série de problemas sanitários no Brasil.  Ou seja, o problema da Dengue em nosso país é um problema de higiene – pública. É uma doença não de gente porca, mas de governos porcos.

Por quê?
Permitimos as favelas, onde o Estado, e com ele a saúde pública, não vai. Permitimos construções em áreas precárias, encostas de morros, cortiços e guetos. Isso até hoje, já decorrida uma quadra do Século 21. Não investimos em controle da natalidade, em um país de grotescas diferenças sociais e geográficas: uma piauiense de trinta e cinco anos já é avó e tem cinco filhos. A paulistana está pensando em engravidar. A mineira tem um casal e já ligou as trompas na rede particular – e viva o Brasil!

Se nossa economia avançava rumo ao primeiro mundo, retrocedíamos em outros importantes quesitos, a saúde pública entre eles. O SUS pode ser um gigante na visão de William Bonner e outros da imprensa, mas é um gigante tosco, ineficiente, mequetrefe, que dá de tudo – e por isso dá mal. Esse retrocesso me parece hoje irreversível. Nossa geração e a de nossos filhos não  verá melhorias significativas na saúde básica, na saúde primária e no saneamento básico, enquanto der dinheiro ter filhos, enquanto não se combater o êxodo para as grandes cidades, enquanto assentamentos e favelas ganharem eleições.

A culpa é de quem, cara pálida?
Brasileiro tem mania de culpa. Quer encontrar culpados para tudo, e puni-los. Ao invés de focar em consertar o que está errado, quer usar o Direito, de preferência o Direito Penal,  para processar e punir e pôr na cadeia quem considera responsável pelo erro.

Isso me lembra a um simpósio que fui, sobre condições carcerárias no Brasil. Governadores, deputados e secretários de Estado do país inteiro estavam por lá e os discursos se sucediam, sempre com o mesmo enfoque: são absurdas as condições carcerárias por aqui, o sistema carcerário brasileiro está falido, as cadeias se tornaram fábricas de criminosos pela ausência de investimento estatal, etc... Assistindo às falas recheadas de lugares comuns, de clichês, me indaguei: essa gente está no poder, é dona das chaves do cofre. É assim por gerações. Se sabem o problema, por que não providenciam a solução?

A solução, na questão carcerária e também na saúde pública, resolve-se com dinheiro. Esqueça tudo o que já ouviu falar do Brasil por meio de deformadores de opinião: o Brasil não é um país pobre. Somos o país mais rico da América Latina, sabia disso? Nossos recursos é que são mal direcionados, ou por incompetência, ou por interesse. Há uma indústria da miséria no país, que ganha dinheiro e votos não só mantendo a desgraça alheia, como a fomentando. Pense bem: nada gera mais recursos, mais emendas e injeção de dinheiro público do que grandes calamidades. E para que o candidato seja o pai dos pobres, tem que haver pobres, entendeu?

 

Discursos

Por falar em discursos, tenho ojeriza a certo tipo de pronunciamento das esquerdas, do PT de Lula e do próprio atual presidente. Com isso me consideram conservador, mas não se trata disso. Qualquer pessoa medianamente inteligente e com algum pensamento crítico estranha muito ouvir essa gente falando que o problema do Brasil é assim ou assado, que há grandes abismos sociais a serem preenchidos, que o pobre tem que ter direito à saúde e educação de qualidade e que há diferenças brutais entre os ganhos dos mais abastados e a renda básica de uma família pobre.

Todos estes argumentos, todos (atenção), são verdadeiros, se isoladamente considerados. São, na verdade, conclusões, que o discurso populista não conecta às causas por uma questão de retórica política. Descobrir, e sobretudo revelar, a estas causas, teria um efeito devastador, uma verdadeira admissão de culpa governamental.

E o problema dessa embromação generalizada é o mesmo da temática dos discursos a que assisti, no simpósio das condições carcerárias brasileiras. No caso de Lula e das esquerdas, sobretudo, estão no poder por todo o Século 21 ou quase! Mandam no país há duas gerações! E continuam falando de problemas como se estivessem falando do mau hálito da sogra ou do resultado do jogo do Corinthians. Como se não pudessem resolvê-los ou ao menos administrá-los, como se fosse herança de outras gestões, como se fossem meros espectadores e não protagonistas destas infelizes tramas.

Só falta colocarem a culpa no Bolsonaro...

Quase morri
Como disse, quase morri por conta da Dengue. Percebi que vivo em um país eternamente destinado a ser grande, mas que nunca o será. Que me aposentar e sair daqui é uma opção cada vez mais tentadora, que amo loucamente aos meus filhos, à vida, à minha profissão e (por que não dizer?), amo profundamente ao Brasil e ao seu povo. Dizer dos seus defeitos, criticá-lo, faz parte de um processo que psicólogos conhecem: pôr o dedo na ferida. Pra ver se com isso começa a cura, que em um dia distante virá através da conscientização das pessoas.

O dito pelo não dito
“As condutas, assim como as doenças, são contagiosas”. (Francis Bacon, filósofo inglês).