ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 27-04-2024 01:35 | 1090
Renato Zupo
Renato Zupo Foto: Arquivo

Distintos professores
Em palestra recente para professores, salientei que a arte de educar os filhos dos outros é tão importante em alguns países, mas tão importante, que lhes são cedidos lugares de honra em eventos oficiais e são recebidos com pompa em visitas domésticas. Como se fossem sacerdotes. Em países orientais como Coreia do Sul e Japão, é uma profissão mais bem vista que a de médico ou padre.

Não é à toa que o ensino, na Ásia, tem sido o responsável pelo incremento da economia naquele lado oriental do globo. Quem valoriza aos professores tem ensino de excelente qualidade, quem reverencia àqueles responsáveis pela disseminação do conhecimento obtém o justíssimo retorno de formação acadêmica de excelência.

No Brasil, e desde que me entendo por gente, e lá se vão 54 anos bem vividos, professores sempre foram muito mal remunerados. A história de que professor é mal pago vem de antes, aliás, de minhas tias e da minha mãe, todas ganhando só para o salão de beleza e para a conta de luz e água, mantidas pelos maridos. Diz-se de um antigo e folclórico político mineiro, o ex-governador Hélio Garcia, que respondeu a professoras da rede pública estadual em greve: “Professora não é mal paga, é mal casada”.

A visão do professor como um bico infelizmente ainda perdura, apesar da gradual emancipação  profissional feminina. Até hoje, poucos docentes conseguem sobreviver bem exclusivamente das aulas que ministram, e não desfrutam em nosso país da distinção merecida. Nada de salário digno. Grandes instituições de tecnolo-gia e educação não vêm para o Brasil, não montam franquias ou filiais, porque sabem que por aqui o solo é árido para a criação de uma cultura de ensino acadêmico de qualidade. Dentro em breve, só lecionará, só dará aulas, quem não conseguir outra profissão mais tranquila e bem paga.

A porta que se abre para as drogas
E justamente professores, também eles em sua maioria pais de crianças e adolescentes, assustam-se com as drogas e sua inserção cada vez mais escandalosa, continua, crescente, no meio de nossos jovens. Explico-lhes sempre que devem focar naquilo que realmente importa no combate às drogas entre seu público mais cativo e vulnerável: a porta de entrada.

Descoberta a porta de entrada do jovem no submundo das drogas, fica mais fácil fechá-la, ou entreabri-la, ou abrir uma outra porta (do bem), mais convidativa.

E a porta que geralmente se abre para o mundo das drogas é a do entretenimento, do lazer. Pais me procuram desesperados: são evangélicos, trabalhadores, amorosos, como assim nosso filho está preso por tráfico?

Todo traficante é, antes de tudo, um usuário e frequentador de submundos, bocas de fumo, biqueiras. E foi para lá em busca de diversão, que não obteve de qualidade no ambiente doméstico. Em busca de distração e de cultura, que não lhes foram fornecidas por pais e irmãos.

Anticorpos sociais e morais
Pais que trabalham muito precisam dedicar tempo também para colocar os filhos para ler bons livros e assistir a bons filmes. Se não os divertem no tempo livre, perdem em comunicação com os jovens. Essa comunicação o rapaz ou a moça vai buscar na rua, onde nem sempre encontrará a interlocutores do bem. E não se esqueçam: todo traficante, todo malandro, todo drogado, ao menos no começo é o cara “gente boa” da vizinhança.

Mesmo pais trabalhadores e religiosos às vezes não passam tempo suficiente conversando com filhos sobre sexo, sobre DSTs, ou mesmo sobre drogas.  Por vezes nunca orientaram sobre o primeiro beijo, contaram da partida de futebol dos sonhos, do grande campeonato ou do primeiro baile com a namoradinha ou o namoradinho.  São coisas que não estão na Bíblia, são papos que se deve ter com os pais.

Filhos precisam dos pais para conhecer o mundo e para defendê-los do mundo Só assim criam anticorpos sociais e morais.

Como conter celulares?
Dito dos bons livros, fica difícil insistir com eles na atual geração Z, que não usa internet, habita internet. Vive nas redes sociais e para elas. Quando comecei a lecionar, era proibidíssimo aluno usar celular em salas de aula. Havia repressão extrema quanto a isto – com o tempo, hoje, não dá para impedir o fenômeno, porque muitas vezes o aluno está ao celular justamente consultando parte da matéria apresentada durante a aula. E o professor não vai enfiar a cara na telinha do celular do rapaz ou da moça como um enxerido, para saber se aquele conteúdo é conciliável com o tema lecionado.

Se você não pode vencer um inimigo, una-se a ele. A lição é do imperador romano Júlio Cesar e, atualíssima, vale para o enfrentamento aos celulares. Temos que aprender a admiti-los como inevitáveis na vida moderna. Indispensáveis para serviços bancários, compras e vendas, casamentos e divórcios, batizados e extrema-unção e enterros. E para aulas. Ao invés de tirar celulares de filhos e alunos, podemos utilizá-los como trampolim para os livros e os bons filmes.

Difícil, mas não impossível. E exige dedicação. Orações são boas, mas as que valem são aquelas que acompanham as ações.

A dificuldade de punir
Quem é bom, de coração bom, com Deus no coração, tem uma dificuldade muito grande de punir e castigar a outras pessoas. Sejam filhos, alunos, criminosos condenados. Nunca é bom impor pena, seja a proibição de videogame, suspender a sobremesa ou a ida ao shopping, ou pôr na cadeia. Os castigados também não recebem bem suas reprimendas. A mãe da gente, que é a santa maezinha da gente, quando nos passa uma descompostura que seja, não ficamos bem – imagine-se quando o fiscal inoportuno é um estranho?

Então deixe-me falar de duas funções da sociedade atual, a fiscalizadora e a julgadora. Ser fiscal é proteger a todos. Eu fiscalizo salas de aula, para que alunos tenham segurança ao frequentá-las. Policiais fiscalizam o trânsito para manter incólume a segurança viária, a segurança do tráfego pelas ruas da cidade e rodovias.

E a função julgadora? A justiça no Brasil é restaurativa, reparadora e ressocializa-dora. Calma que eu vou explicar. Ela restaura fissuras na sociedade, ela repara os danos causados pela ação dos homens e mulheres nocivas ao funcionamento das comunidades, direta ou indiretamente. É como um médico no combate a doenças sociais. E, quando pune, o faz para a melhoria da sociedade, para a prevenção de crimes e para a melhoria do condenado, que procura ressocializar.

Portanto, punir é melhorar o punido. É sempre para o bem e, às vezes, me disse certa vez um colega juiz mais experiente, para fazermos o bem somos obrigados as fazer o mal.

Os cães de guarda
Eu disse que nenhuma fiscalização é simpática. Lembrei-me da historinha dos cães de guarda e das ovelhas. O rebanho de ovelhas do pastor era protegido dos lobos por cães adestrados que, guiando o rebanho, também impediam que lobos e outros predadores se aproximassem para devorar as pobrezinhas.

Os cães, portanto, protegiam as ovelhas, que nem por isso gostavam deles. Eles rosnavam para elas, vez ou outra mordiam a uma mais indócil que teimava em sair da comitiva e escapar da proteção do rebanho do pastor. Mesmo assim, os cães de guarda eram os responsáveis pela segurança e bem-estar das ovelhas, imprescindíveis para sua proteção.

As ovelhas precisam de proteção – nesta parábola são o povo. Os lobos famintos e ferozes, os bandidos, os criminosos, as drogas, o mal. Quem protege o povo deles às vezes também tem que ser feroz e antipático, tem que ferir e fazer o mal no bom sentido, para proteger. Somos nós, os cães de guarda: pais, professores, policiais, juízes. É nossa função, nem sempre agradável, mas sempre necessária.

O exemplo é que fica – geração espontânea?
Não adianta também muita conversa com estudantes, muita palestrinha, muita DR com jovem. O que vale é o exemplo

Sobretudo, entenda que não há geração espontânea em termos de formação de crianças e adolescentes. Se você não lê, se seu filho não vê você lendo, ele não vai ler. Não adianta o sujeito viver com a cara no celular e a bunda na rede social e querer, no berro, que o filho estude para o ENEM. Não adianta o sujeito fazer preleções e mais preleções contra drogas ilícitas dentro de casa, e encher a cara todo final de semana. Não adianta defender a dignidade do trabalho e não trabalhar. Ou pedir para o filho tratar bem a namorada, mas ele próprio, pai e marido, maltratar à esposa.

No fim e ao cabo, o seu exemplo é que vai ficar, para os seus filhos e para a vida.

O dito pelo não dito.
Educar a mente sem educar o coração não é educação.” (Aristóteles, filósofo grego).

RENATO ZUPO – Magistrado, é Juiz de Direito na Comarca de Araxá, Escritor, Palestrante.