Mudança na jornada de trabalho divide opiniões entre trabalhadores e empresários em Paraíso

Proposta em debate no Congresso ainda não é lei e levanta preocupações sobre emprego, custos e qualidade de vida no comércio local
Foto: Reprodução
Empresário Ulisses Araújo

A discussão sobre o fim da escala 6x1 ganhou novo fôlego nas últimas semanas e entrou de vez no radar de trabalhadores e empregadores. Em São Sebastião do Paraíso, representantes do setor empresarial e do movimento sindical reconhecem a relevância do debate, mas divergem sobre efeitos imediatos e caminhos para adaptação do comércio local.

No Congresso Nacional, a proposta que avançou recentemente foi a PEC 148/2015, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 10 de dezembro de 2025 e encaminhada para análise do Plenário, onde ainda precisa passar por votação em dois turnos; se aprovada, segue para a Câmara dos Deputados.

A PEC prevê redução gradual da jornada: após a promulgação, o limite cairia de 44 para 40 horas semanais e, depois, reduziria uma hora por ano até 36 horas, sem redução salarial, mantendo a jornada diária limitada a oito horas e preservando mecanismos de compensação via negociação coletiva.

Paralelamente, tramita na Câmara a PEC 8/2025, protocolada em fevereiro de 2025, que propõe quatro dias de trabalho por semana (com três dias de descanso), com limite de 36 horas semanais, e prevê possibilidade de compensação mediante acordo ou convenção coletiva.

“Pauta de humanização”, diz sindicalista

Para o sindicalista Rildo Domingos, o debate vai além de rótulos ideológicos. Ele defende que o fim do 6x1 é uma discussão “de humanização” e que a mudança pode trazer reflexos positivos para a saúde, para a família e até para a produtividade.

Segundo Rildo, a escala atual reduz o tempo disponível para cuidados de saúde, estudo e qualificação, além de afetar o convívio familiar. Ele também destacou que o impacto é mais pesado para as mulheres, por conta da dupla jornada: trabalho formal e tarefas domésticas. Na avaliação do sindicalista, mais descanso tende a reduzir faltas e afastamentos, além de diminuir o presenteísmo — quando o trabalhador está no posto, mas com desempenho comprometido por fadiga física e mental.

Rildo ainda defendeu que a transição seja feita com diálogo e responsabilidade entre trabalhadores, empresariado e poder público, sustentando que países com modelos de jornada mais reduzida colhem ganhos de bem-estar e eficiência, e que o Brasil deveria perseguir padrões mais altos de qualidade de vida.

Comércio alerta para custo e mão de obra

Do lado empresarial, o proprietário de supermercados, Ulisses Araújo afirmou que a discussão representa avanço na busca por equilíbrio entre vida social e profissional, mas pediu atenção aos efeitos colaterais.

Araújo relatou que sua empresa já vem adotando ajustes internos: na loja recém-adquirida, por exemplo, houve mudança no perfil de operação, com revisão de horários e funcionamento. Também apontou fatores que, segundo ele, já pressionam o setor: questões de saúde mental, mudança geracional e escassez de mão de obra qualificada.

Na visão do empresário, o efeito imediato de uma eventual mudança no modelo de escala é o aumento do custo de operação. Citou estudos internos que estimam que o impacto direto no custo poderia chegar a 37%, o que, segundo ele, tende a pressionar preços ao consumidor. Também mencionou que, dependendo do caso, pode haver remanejamento, rodízio, ajustes no tempo de operação e, em cenários de inviabilidade, cortes em setores específicos. Como alternativa para preservar empregos, Ulisses defendeu a discussão sobre o fechamento do varejo aos domingos, como estratégia para acomodar uma nova escala e tornar o segmento mais atrativo para trabalhadores.

ACISSP fala em transição e uso de tecnologia

O presidente da ACISSP (Associação Comercial, Industrial, Agropecuária e de Serviços de São Sebastião do Paraíso), Matheus Colombaroli, disse que o impacto na cidade só será mensurado com o tempo, mas avaliou que há motivo para preocupação no curto prazo.

Argumentou que, mantendo-se a operação atual do comércio, a redução de carga horária exigiria contratação de mais pessoas para cobrir turnos. O problema, segundo ele, é que o país vive um cenário de mercado de trabalho aquecido, e o comércio já enfrenta dificuldade para preencher vagas — inclusive temporárias, típicas do fim de ano. Para Colombaroli, a mudança, se avançar, tende a aumentar ainda mais esse gargalo.

Ao mesmo tempo, ele defendeu que o debate pode ser uma oportunidade de modernização. Na avaliação do presidente da ACISSP, o comércio precisará repensar a forma de atendimento, ampliando canais digitais e mecanismos mais eficientes, como vendas online e atendimento automatizado. Também chamou atenção para a experiência do cliente na loja física: se o consumidor precisa sair de casa, enfrentar trânsito, calor e dificuldade de estacionar, a loja precisa oferecer atendimento superior ao que ele teria em um aplicativo — caso contrário, a migração para o online se acelera.

Colombaroli citou ainda que estudos de entidades empresariais apontam impacto na economia e no emprego e reforçou que, havendo aumento de custos, parte da pressão tende a ser repassada ao consumidor, o que pode colocar o lojista em desvantagem diante do comércio eletrônico.

Próximos passos no Congresso

Apesar do debate estar mais quente e do avanço no Senado, nenhuma mudança entrou em vigor até aqui. No caso da PEC 148/2015, o próximo passo é a votação no Plenário do Senado, em dois turnos, e só depois, se aprovada, ela seguirá para análise da Câmara.  Na Câmara, a PEC 8/2025 segue tramitando, com discussões e requerimentos ligados ao tema, e continua no caminho legislativo próprio.