Pequena história do Carnaval paraisense

Foto: Arquivo Pessoal Mauro Cosini
Primeira vez um alvará autorizativo para sair nas ruas dado pelo então delegado Célio Montherfi Graziani

José Naves

Publicado pelo Jornal Cruzeiro do Sul — 21/02/1987

Dezembro de 1983.

No calçadão da Praça Comendador José Honório, milhares de pessoas se acomodam para assistir ao desfile das escolas de samba, que apresentam carros alegóricos e fantasias luxuosas, enredos e temas dentro dos assuntos comuns da vida brasileira.

Era a alegria de nossa festa mais popular, trazida por jovens residentes na cidade e também nos estados vizinhos, que representavam, na verdade, o melhor e mais animado Carnaval do Sul de Minas.

Havia, contudo, entre parte dos apreciadores daquele desfile, um sentimento de que alguma coisa estava faltando para completar aquela festa. Sim, faltava desfilar entre as escolas ali apresentadas aquela que havia se constituído, até então, no mais popular bloco carnavalesco de Paraíso: o Bafo da Onça.

O Bafo, como era popularmente conhecido, já então comandado por uma nova geração de sambistas — a quarta desde a sua fundação —, pela primeira vez não desfilava. E o Carnaval paraisense deixava, assim, de contar com a empolgação de várias gerações que se formaram em torno de um divertimento comum: a batucada alegre do grupo do Bafo da Onça.

Vinte e três anos se passaram e, ao fazer sua história, o Bafo fazia, na verdade, a própria história do moderno Carnaval paraisense.

Paraíso naquele tempo

Paraíso, por aquele tempo, era um pouco diferente do que conhecemos hoje.

Não tinha estrada asfaltada; a televisão em preto e branco ensaiava os primeiros sinais vindos de São Paulo; dois grandes cinemas concorriam entre si; os telefones funcionavam por intermédio de telefonista; e o grande orgulho da terra era ser uma das raras cidades do interior servidas por duas estradas de ferro.

Esses fatos, longe de criar uma barreira cultural para o grupo, ao contrário estimulavam suas ideias criativas — sendo uma delas a criação de um bloco carnavalesco. Começava a nascer, assim, um movimento que alteraria profundamente a forma de festejar o Carnaval em nossa terra.

O surgimento do Bafo da Onça

O Carnaval de 1957 transcorria em Paraíso nos mesmos moldes das cidades circunvizinhas: restrito a quatro bailes noturnos e duas matinês nos clubes sociais.

No final da matinê do Clube Paraisense, quando a orquestra parou de tocar, um grupo resolveu continuar o pula-pula à sua maneira. Dali para a rua foi um passo. Rapidamente se posicionaram e a batucada ia saindo de tudo: latas, lança-perfumes e garrafas vazias faziam mais alvoroço que samba.

O resultado não poderia ser outro: correrias, atropelos e, de quebra, as broncas do saudoso delegado paraisense Orlando Furlan (o Curuta).

Apesar dos problemas, aqueles desfiles improvisados deixavam sempre uma experiência no grupo, fazendo com que algo fosse melhorando com o passar do tempo.

Os primeiros ensaios

Isso já pôde ser observado no Carnaval de 1959, quando, depois de beberi-car no bar do Clube Paraisense, a turma resolveu sair não mais à tarde, mas à noite, batucando e cantando os sambas da época na praça.

A adesão foi geral

O entusiasmo imenso.

Nos fundos do Hotel Cosini, sambistas convocados iam chegando aos poucos, cada um trazendo seu instrumento conforme combinado. Não se sabe de onde apareceu um reco-reco — e o que mais surgiu foram frigideiras. Havia de tudo, já com alguma seleção de tocadores.

Depois de um ensaio geral, a turma foi ao bar da antiga rodoviária “tomar coragem” e partiu firme para a praça. O resultado não foi dos melhores, mas a ideia de que algo poderia animar o Carnaval de Paraíso ficou gravada em todos.

Assim, no Carnaval de 1960, pôde-se apreciar um bloco mais organizado, com mais cadência e ritmo.

A escolha do nome

Preocupados com os imprevistos do ano anterior, semanas antes da festa arrecadaram instrumentos, bolaram fantasias e conseguiram caixas de congo do terno do Chico Risada. Faltava escolher o nome. Foi quando Paulo Naves lembrou um bloco carnavalesco do Rio de Janeiro, consagrado nacionalmente, que homenageava o sambista Oswaldo Nunes, cujo refrão dizia:

“Nessa onda é que eu vou, é que eu vou me acabar,

é o Bafo da Onça que acabou de chegar.”

Pronto. Todos concordaram.

Nascia oficialmente o Bafo da Onça.

Integrantes da organização

Tomavam parte na organização, entre outros:

Mauro Cosini, Paulo Naves, Tião Pimenta, Luiz Carlos Bergamo (Garrincha), Valdir Cosini, Jonas Naves, Joãozinho Cury (Turquinho), Joaquim Mário, José Naves, João Branco, José Roberto Cosini (Zequinha), José Mário Malaguti, Roberto Pimenta (Chefe), José Geraldo Leite, Antônio Spósito (Tuniquinho), Tomás Vital da Silva, Toninho Westim, Olívio Cativeiro, Juarez Pedroso, Antônio Montans (Toinzinho), Valdomiro Clivelente (Bilão), José Montans, Toninho Fernandes, Luiz Montans, Tito Marcolini, Felício Rocha, Tadeu Scarano e José Luiz Duarte (Ponte Nova).

O primeiro estandarte

Roberto Pimenta sugeriu fazer um estandarte com uma onça pintada.

Procurou-se inutilmente uma gravura — até que uma lata de 18 litros do redutor Tigre, que trazia a cara do felino, resolveu o problema.

Assim, o primeiro estandarte apresentava uma mistura de onça com tigre. Foi desenhado pelo juiz de direito João Roberto Lisboa e pintado pelas filhas do senhor José do Calimério.

O primeiro desfile

Com tudo providenciado, houve concentração no Hotel Cosini.

Nada indicava desfile: sem iluminação especial e sem desvio do trânsito — parecia um sábado comum. Mas não era.

Os que ali estavam aplaudiram com entusiasmo a passagem do bloco, sem imaginar que aquele movimento era definitivo: Paraíso nunca mais ficaria sem Carnaval de rua.

Ao final, quando o grupo cantou a marcha As Pastorinhas (a Estrela Dalva), de João de Barro, a vibração foi geral. Todos cantavam e dançavam junto com o bloco.

Evolução do Bafo

A partir do primeiro ano, o Bafo aprimorou seu estilo, melhorou a bateria, recebeu caixas emprestadas do Ginásio Paraisense, confeccionou tamborins com couro cedido pelo Curtume Mumic. Como eram estudantes, os recursos eram precários, mas a criatividade constante.

Em 1963, o bloco ganhou reforço decisivo, a entrada das mulheres, tornando-o mais numeroso e permitindo maiores evoluções dos passistas.

Passaram a puxar o desfile, entre outras, Margarida Alves Pinto, Regina Avelar, Márcia Peres Figueiredo, Rosa Pinto, Raquel Marcolini, Maria Alice Figueiredo, Lúcia Pereira, Ruth Marcolini, Lúcia Montans, Edsonina Veloso, Dodora Marcolini, Cidinha Montaldi, Cecília Bruno, Mariângela Pimenta, Teresa Montans, Tânia Mumic, Ângela Marinho, Ana Luiza Alvarenga, Rose Piccirillo, Lígia Pereira, Cecília Montans, Ana Maria Dal Santo, Maria Lúcia Pinto, Patrícia Sofiate, Marilena Dal Santo, Leusa Montaldi, Rosita Gonçalves, Márcia Naves, Stella Montaldi, Rosane Rocha, Maria Lídia Matuschelli, Rosirene Rocha, Fátima Montans, Valéria Sofiate, Dagmar Pimenta, Eliane Naves, Lúcia Dal Santo.

O Bafo sempre primou pelas inovações em seus desfiles e a cada ano apresentava novidades que rapidamente caíam no gosto popular. A introdução do breque da bateria foi um sucesso que marcou. Em um de seus desfiles apareceu Jonas Lemos que havia aprendido alguns passos de capoeira e introduziu a dança, um destaque do bloco. Como companheiros de dança surgiram João Branco e o Dito Scarano, que diziam entender do esporte. A iniciativa pegou e foi repetida entre outros desfiles.

Foi também no ano de 1963 que o bloco conseguiu sua maioridade. Nesse ano o Bafo teve sua existência reconhecida oficialmente ao obter pela primeira vez um alvará autorizativo para sair nas ruas dado pelo então delegado Célio Montherfi Graziani, com base em portaria baixada pela Delegacia de Polícia. Este alvará, bem como outros documentos e fantasias, ainda são guardados pelos componentes do Bafo como prova e recordação de suas andanças pioneiras pelo Carnaval paraisense.

O Bafo sempre esteve aberto aos foliões que quisessem brincar em seu meio, assim como os integrantes da Orquestra Sul América, de Jaboticabal, que tocavam nos bailes de Paraíso e se hospedavam no Hotel Cosini, eram sempre convidados a prestar colaboração ao Bafo. A bateria ganhava assim um reforço considerável de instrumentistas profissionais.

Não era só na batucada que o bloco inovava. Havia também os destaques nas fantasias, como as que apresentaram certa vez o saudoso amigo Ronaldo Froes e sua irmã Maria da Glória. Desfilaram na praça com um pierrot bem caracterizado. As fantasias já haviam sido premiadas em Belo Horizonte e fizeram enorme sucesso como destaque do Bafo.

Nos primeiros anos da década de 60 surgiram outros blocos no Carnaval paraisense, como Velhinhos Transviados, cuja história também deveria ser contada por seus fundadores, e o bloco Marinheiros, que depois virou Berimbau, mas que teve curta duração. Do Berimbau vieram reforçar o Bafo alguns de seus elementos como Jarbinha de Pádua, Estevam, Israel Minguin Rubens Rocha, também alguns turistas que aqui aportavam no Carnaval, mas que não deixavam de dar o seu apoio, como o Jésus e seu cunhado Teodomiro, o Djalma Bevilácqua, entre outros.

Os anos que se sucederam marcaram definitivamente o Bafo como um movimento popular. Os desfiles se sucediam inin-terruptamente por toda a década de 1960 e de 1970, quando vamos encontrar novas gerações de sambistas: Marcos Formigão, Marcelo, Paulinho Mechi, Adriano Marques, Stanislau Guidi, Marcos Moura, Edvar Pimenta, Sérgio Montans, Adilson Salviano, Mário Serra, Toninho Montans, Márcio Reis, Marcos de Paula, Venâncio de Paula, Herman Varzim, Haroldo Garcia de Figueiredo, José Sieiro, Chico Dal Santo.

Havia, contudo sempre necessidade de dotar o bloco com novos recursos financeiros para a manutenção do material já existente como também a aquisição de novos instrumentos. Um movimento organizado no ano de 1969 foi decisivo para que o Bafo tivesse pela primeira vez a sua própria bateria. Isso tudo foi conseguido graças à venda de produtos presenteados pelo comércio local e as contribuições inscritas em Livro de Ouro sob a responsabilidade de Rosane Rocha.

Com a inclusão do material adquirido naquele ano o Bafo passou a ter ao todo 90 instrumentos entre caixas, reco-recos, pandeiros, pingos d’água, pratos, tamborins, frigideiras etc. Só a cuíca não era própria, era emprestada ao bloco nos dias de Carnaval.

De tanto brilhar no Carnaval paraisense o Bafo acabou contratado no ano de 1971 por uma firma de sementes, a Samagro, para desfilar em Monte Santo de Minas, coisa que fez com muito brilho mostrando naquela cidade todo o seu alegre Carnaval de rua.

Enquanto o Bafo ia cumprindo a sua trajetória, nos desfiles de Paraíso iam surgindo a cada ano escolas de samba já bem mais estruturadas como Eldorado, os Bruxos, os Tratões, Pérola Negra e Unidos do Alto. Estas escolas passaram a desfilar para conquistar os prêmios oferecidos pelas comissões organizadoras o que levou muitas delas a um rápido crescimento. O Bafo, embora nada tivesse contra tal disputa, sempre participou dos desfiles por tradição e seu objetivo sempre foi o de divertir-se e divertir a população apreciadora do Carnaval.

Na sua busca constante por inovação o Bafo acabou trazendo para o calçadão mais uma de suas novidades: tratava-se do trio elétrico, que fez um estrondoso sucesso quando apresentado, mas que posteriormente mostrou certa incompatibilidade entre o seu ritmo acelerado de frevo com o samba cadenciado do Bafo. Um esforço maior manteve o grupo unido por vários desfiles.

Porém já nesta altura, o Bafo começava a ter problemas para colocar o bloco na rua devido principalmente ao seu tradicional desinteresse por prêmios e honrarias. Quando de sua chegada ao calçadão era o último a entrar, vinha sempre rompido o isolamento da assistência com a pista tomada e o Bafo não tinha nenhuma condição de mostrar suas alas como mesmo a sua afinada bateria.

Outro problema que o Bafo passou a enfrentar foi o de cumprir obrigações como organizar e dispor melhor suas alas, cumprir horários e concorrer aos prêmios para liberação das verbas. Para um bloco cuja maioria dos participantes não tinha residência fixa na cidade não havia como cumprir tais exigências e a partir de 1983 o Bafo não mais desfilou.

Ainda houve uma tentativa sem sucesso de um grupo que tentou reativar o bloco no ano de 1985, esbarrando em vários problemas inclusive de ordem burocrática. Entre outros ali estavam Paulinho Mechi, Fernando Bueno, Inácio Dal Santo, Sérgio Montans e Fúlvio Guidi Neto.

Em 1987 ressurgiu o movimento que visa reativar o samba alegre do Bafo, que na verdade nunca foi esquecido por nenhum dos foliões que por ele passaram em todos esses anos e nem mesmo pelas famílias que assistiram e incentivaram várias gerações de sambistas e que guardam na lembrança as antigas fantasias do Bafo como Dona Belinha Alvarenga, Dona Nair Cosini, Dona Maria Pimenta. Dona Nenê Naves, testemunha ocular do primeiro dia do Bafo, intimou o Roberto Pimenta, o chefe, passar o comando para a nova geração, coisa que o chefe e sua esposa Ana Luiza estão tentando fazer, além de bolar fantasias do grupo. Zequinha Cosini e outros elementos bafistas também se movimentam procurando trazer de volta o velho espírito do Bafo, tentando provar como dizem imodestamente seus fundadores: “Tudo passa, mas o Bafo da Onça é eterno”.

Matéria publicada pelo jornal O Cruzeiro do Sul em 21/02/1987.