Entrei
para deixar uma parafusadeira. Saí quarenta minutos depois sem perceber como.
A
loja era pequena. Havia um senhor de saída. Ele disse que precisava pagar uma
conta na lotérica, mas que faria minha ficha rapidinho.
Enquanto
anotava meus dados, começou a contar da vida.
Trabalha
desde os oito anos. Aos onze, pegava sozinho o trem da Mogiana de Itamogi a
Paraíso para buscar encomendas de um tio. Depois foi funcionário público,
representante comercial, viajou muito.
Não
havia qualquer heroísmo na maneira como contava. Nem amargura. Fui fazendo
perguntas. Ele foi abrindo outras lembranças. Em algum momento, eu esqueci a
ferramenta. Ele esqueceu a lotérica.
Naquela
semana eu tinha escutado um podcast com a pensadora
Viviane Mosé.
Ela falava da nossa obsessão pela juventude, como se parecer jovem ou viver
mais anos nos garantisse, necessariamente, mais vida. Com quantos mortos vivos
já não topamos ao longo dos anos? Às vezes bem ali no espelho.
Talvez
por isso habitar o presente seja tão difícil e tão necessário. É o único lugar
onde a vida realmente acontece.
Toda
semana faço uma oficina voluntária no Lar São Vicente de Paulo. Sento ao lado de pessoas
que, de algum modo, o mundo começou a esquecer. Peço que contem qualquer
lembrança. Nunca falta assunto. As histórias continuam vivas. Quem esquece
delas somos nós. Envelhecer também é isso: acumular um acervo imenso de
experiências enquanto o mundo passa a perguntar cada vez menos sobre elas.
Saí
da loja pensando que o homem das ferramentas entende de consertos. Não apenas
porque sabe desmontar motores ou trocar peças, mas porque ainda encontra tempo
para aquilo que parece ter quebrado em tantos de nós: uma boa conversa sem
pressa.
Entrei
para deixar uma ferramenta. Saí levando uma história.

