Café dispara em NY e mercado enfrenta forte volatilidade em plena colheita
Alta chegou a cerca de 5,5 mil pontos em um único pregão; chuvas, atraso da safra, perda de qualidade e incertezas climáticas sustentam as cotações
O
mercado do café atravessou uma das semanas mais movimentadas de sua história
recente. Em plena colheita da safra brasileira, os contratos do arábica na
Bolsa de Nova York chegaram a registrar alta de aproximadamente 5,5 mil pontos
em um único pregão. A valorização também repercutiu no mercado físico, com a
saca de 60 quilos sendo negociada a R$ 1.850 e R$ 1.950 em diferentes momentos.
A
disparada foi provocada por uma combinação de fatores climáticos, logísticos,
financeiros e geopolíticos. Entre eles estão o excesso de chuvas registrado em
junho, o atraso da colheita brasileira, a queda de grãos no chão, as
preocupações com a qualidade da produção e as incertezas sobre o comportamento
do clima nas próximas safras.
Segundo
Gilson Aloise de Souza, diretor de Agronegócios da Associação Comercial,
Industrial, Agropecuária e de Serviços de São Sebastião do Paraíso (ACISSP), o
volume de chuvas registrado em junho interrompeu o início da colheita e
provocou apreensão quanto à capacidade de embarque do produto. “Em junho,
tivemos um acumulado próximo ou superior a 100 milímetros de chuva, fazendo com
que o início da safra no Brasil desse uma interrompida. Isso provocou uma
preocupação logística, porque o fluxo dos embarques poderia ficar
comprometido”, explicou.
Além
do atraso, as chuvas fizeram com que uma quantidade expressiva de café caísse
no chão, o que pode comprometer a qualidade dos grãos. Gilson afirma que
contratos já firmados precisaram ser reavaliados diante do novo cenário.
“Aquelas qualidades que já haviam sido contratadas precisaram ser avaliadas
novamente, e todos tiveram de reorganizar seus compromissos. Isso transferiu
parte da pressão do vendedor para o comprador”, disse.
Clima amplia incertezas
Outro
fator que passou a influenciar o mercado foi a expectativa em torno do
comportamento climático nas principais regiões produtoras. De acordo com
Gilson, as preocupações deixaram de estar concentradas apenas no Brasil e
passaram a envolver áreas da América Central e da Ásia, que também podem sofrer
impactos sobre a produção de café.
As
projeções climáticas ainda estão sendo avaliadas, mas o mercado já demonstra
preocupação com possíveis efeitos no último trimestre do ano e, principalmente,
sobre a safra 2027/2028. “As preocupações não são somente com o Brasil, mas
também com outras regiões produtoras de café, como a América Central e partes
da Ásia. Isso deixa o mercado bastante apreensivo”, afirmou.
Após
o feriado de 4 de julho, novas previsões de chuva aumentaram o receio de que a
colheita brasileira pudesse sofrer mais interrupções. A possibilidade de queda
nas temperaturas, entrada de frente fria e ocorrência de geadas em algumas regiões
também contribuiu para a forte valorização.
Gilson
explica que o mercado chegou a se aproximar de 6 mil pontos de alta durante o
pregão, antes de fechar com avanço de aproximadamente 4,8 mil pontos. “O
mercado subiu de forma bastante acentuada, marcado principalmente pelas chuvas
anteriores, pelas preocupações climáticas, pelas novas previsões de chuva e
pela possibilidade de frio e geadas”, destacou.
Durante
os dias seguintes, as cotações permaneceram em patamares elevados, embora com
oscilações expressivas. O preço da saca chegou a R$ 1.850 -, enquanto o mercado
registrou movimentos diários entre 4% e 5%.
Para
Gilson, a permanência dos preços nesses níveis dependerá principalmente da
evolução das condições climáticas. “O mercado deve permanecer sob estresse no
curto prazo, até que essas questões climáticas evoluam e haja uma definição
mais clara sobre os possíveis impactos nas regiões produtoras”, avaliou.
A
alta também trouxe pressão ao mercado financeiro, especialmente com o aumento
das margens de garantia exigidas para operar contratos futuros na Bolsa de Nova
York. Segundo o diretor da ACISSP, esses valores chegaram a se aproximar de US$
10 mil por contrato, exigindo maior capacidade financeira dos operadores e
aumentando a tensão nas negociações.
Colheita atrasada e perda de qualidade
Para
a produtora Juliana Paulino, da Fazenda Nova Aliança, em Monte Santo de Minas,
e presidente da Associação dos Cafeicultores do Sudoeste de Minas, a
valorização surpreendeu tanto os cafeicultores quanto o próprio mercado.
Ela
lembra que a atual produção chegou a ser tratada como uma possível supersafra,
previsão que não se confirmou da forma esperada. “Estamos em plena colheita de
uma safra que chegou a ser considerada uma supersafra. Já vínhamos dizendo, no
entanto, que não seria uma supersafra, mas uma grande safra. O problema agora
não está apenas na quantidade. Uma das grandes preocupações é a qualidade”,
afirmou.
Segundo
Juliana, as chuvas derrubaram muito café, e o grão que permanece no chão tende
a perder qualidade. Como o mercado externo busca produtos de melhor padrão, a
redução da disponibilidade de cafés de qualidade também ajuda a explicar a
valorização em plena colheita.
O
andamento dos trabalhos segue atrasado em diferentes regiões do país. No
Sudoeste de Minas, algumas propriedades ainda tentam alcançar entre 30% e 40%
da colheita concluída. “A colheita está bastante atrasada em praticamente todo
o Brasil. O café chegou a um estágio muito seco e, por isso, caiu bastante.
Além disso, os ventos fortes registrados na região provocaram a queda de mais
grãos”, relatou.
Apesar
da alta nas ofertas, Juliana afirma que as negociações continuam em ritmo
lento. “Houve valorização nas ofertas, mas o mercado está travado. Há pouca
gente vendendo e pouca gente comprando. Havia uma expectativa de supersafra e
de preços mais baixos, mas, à medida que isso não se confirmou e surgiram novas
complicações climáticas, o rumo do mercado mudou”, explicou.
Com
a saca sendo negociada na faixa de R$ 1.800 ou acima desse valor, a produtora
avalia que os preços ajudam a cobrir os custos. “Acredito que, nessa faixa, a
maioria dos produtores consiga pagar os custos. Essa valorização ajuda, não há
dúvida”, afirmou.
Produtor deve vender aos poucos
Mesmo
com a valorização, muitos cafeicultores ainda evitam fechar negócios,
especialmente aqueles que possuem recursos disponíveis e não precisam cumprir
compromissos financeiros imediatos. A intenção é observar o comportamento das
cotações antes de decidir quanto da produção será comercializado.
Para
Juliana, a venda parcelada pode ser a estratégia mais adequada neste ano.
“Acredito que será um ano de vender em parcelas. O produtor provavelmente vai
comercializar o café aos poucos, porque realmente não sabemos como o mercado
vai responder nem como as coisas vão ficar”, avaliou.
A
principal preocupação dos produtores do Sudoeste de Minas, neste momento, é
concluir a colheita preservando o máximo possível da qualidade. O cuidado com o
pós-colheita será decisivo, principalmente para o café que permaneceu na planta
e não caiu no chão.
Juliana
ressalta que, além de preservar a qualidade, o produtor precisa transformar a
safra em receita para custear o próximo ciclo agrícola. “Precisamos monetizar a
produção. Não dá para ficar apenas na expectativa. A grande preocupação agora é
encerrar essa safra, que está sendo muito desafiadora, com o máximo de
qualidade possível”, disse.
Os
problemas climáticos também atingem outros países produtores, entre eles Vietnã
e Colômbia, aumentando as incertezas sobre a oferta mundial. Ao mesmo tempo,
cresce a preocupação com a próxima safra brasileira, já que períodos de seca
durante a florada e o enchimento dos grãos podem comprometer a produção futura.
Diante de tantas variáveis, Juliana resume o atual momento do cafeicultor com uma imagem que mistura vigilância e incerteza. “Todos os dias, a gente precisa estar com um olho no céu, outro no café e outro na Bolsa. É assim que funciona”.


