Mães de Anjos transforma luto em acolhimento em Paraíso

Criado a partir do encontro de mães que perderam seus filhos, grupo oferece espaço para compartilhar experiências, preservar memórias e encontrar apoio durante o luto
Foto: Reprodução
Grupo de apoio reúne dezenas de mães enlutadas na cidade

Há dores para as quais nenhuma palavra parece suficiente. Quando um filho morre, até mesmo quem está por perto pode não saber o que dizer, como agir ou de que maneira acolher. Em São Sebastião do Paraíso, foi justamente do encontro entre mulheres que atravessavam essa realidade que nasceu o grupo Mães de Anjos, que hoje reúne 65 mães.

A iniciativa começou a tomar forma depois da morte de Vinícius, filho de Rosana Fernandes, de 36 anos. O adolescente tinha 15 anos, era atleta de natação, praticava CrossFit e musculação, era bom aluno e, segundo a mãe, sempre havia sido saudável. Ele morreu após complicações provocadas por uma pneumonia.

Poucos dias depois, Rosana recebeu outra notícia difícil: sua amiga Keila Patrícia da Silva Costa também havia perdido a filha, Sophia. Mesmo enfrentando o próprio luto, Rosana decidiu estar ao lado dela. “Sabia que não existem palavras humanas que amenizem a dor da perda de um filho, mas fui dar meu apoio à minha amiga Keila”, conta.

A reaproximação abriu espaço para conversas entre as duas e também com Adriana, prima de Rosana que perdeu dois filhos. Pouco tempo depois, Michele procurou Rosana para uma visita. Desse encontro e da necessidade de encontrar pessoas que realmente compreendessem aquela dor surgiu o Mães de Anjos.

Criado oficialmente em 1º de novembro de 2024, o grupo nasceu como um espaço no qual essas mulheres pudessem falar sobre seus filhos e sobre aquilo que estavam vivendo sem receio de julgamento. “Foi a forma que vi de continuar, de ter um espaço onde eu e outras mães pudéssemos desabafar, compartilhar sobre nossos filhos sem sermos julgadas e, com isso, acolher outras mães”, explica Rosana.

Atualmente, 65 mulheres fazem parte da iniciativa. Os encontros presenciais acontecem, em média, a cada dois meses e incluem momentos de conversa, café e até bingos entre as participantes, com brindes doados por alguns estabelecimentos comerciais. Rosana destaca a importância de existir um lugar em que elas possam falar abertamente sobre os filhos e dividir aquilo que sentem.

Para muitas dessas mães, contar histórias, dizer os nomes dos filhos e recordar os momentos vividos representa uma maneira de preservar o vínculo construído ao longo dos anos. Segundo Rosana, “neste grupo, há mulheres que se recusam a deixar que seus filhos virem só memórias”.

O Mães de Anjos não possui vínculo político ou religioso. Cada participante tem liberdade para buscar conforto de acordo com sua própria fé e suas convicções, sempre respeitando as demais integrantes. O apoio entre elas se torna ainda mais importante porque nem todas têm acesso a acompanhamento psicológico.

Rosana acredita que encontrar outras pessoas capazes de compreender a dimensão dessa perda pode ajudar a tornar o caminho menos solitário. “Mesmo com o coração partido pelo luto, escolhemos ser farol, para que nenhuma mãe que chegue até nós se sinta sozinha nessa imensidão que é o luto”, afirma.

Uma dor compartilhada

Keila Patrícia da Silva Costa, de 41 anos, esteve desde o início da formação do grupo. Ela perdeu a filha primogênita, Sophia, em outubro de 2024. A menina tinha 8 anos e havia passado por uma cirurgia para retirada das amígdalas e da adenoide. Depois de receber alta e retornar para casa, apresentou uma grave complicação de saúde e precisou ser levada para atendimento hospitalar. Sophia chegou a ser internada em uma Unidade de Terapia Intensiva, mas não resistiu.

Dez dias antes, Rosana também havia perdido Vinícius. Keila se recorda da surpresa ao vê-la presente no sepultamento da filha, mesmo diante de uma perda tão recente. “Eu fiquei muito surpresa por ver ela ali, pois tinha acabado de sepultar seu filho e teve forças para estar ali novamente”, lembra.

Nos dias seguintes, as duas passaram a conversar com frequência e perceberam que compartilhar aquilo que estavam vivendo trazia algum conforto diante de uma realidade que poucas pessoas conseguiam compreender. “Vimos que foi bom, pois compartilhávamos da mesma dor. Entre uma conversa e outra tivemos a ideia de formar um grupo em que pudéssemos conversar, trocar experiências e falar dos nossos filhos”, conta Keila.

Para ela, essa identificação continua sendo uma das principais forças do Mães de Anjos. “O grupo traz um conforto para o coração. Nas conversas e nas partilhas, a gente percebe que não está sozinha, que as outras mães entendem e sentem a mesma dor”, afirma.

Mais do que tentar apagar a ausência, a proposta é permitir que cada mulher atravesse o próprio processo de luto sabendo que existem outras pessoas dispostas a ouvi-la. Para Rosana, os filhos permanecem presentes também nas histórias compartilhadas e no amor que deixou marcas em cada família. “Nossos filhos vieram para nos mostrar que o amor continua, mesmo quando já não se vê”, resume.

Às mães que enfrentam uma perda e se sentem sem direção, Rosana deixa uma mensagem de acolhimento: “Você não precisa passar por tudo isso sozinha. No nosso grupo, caminhamos juntas até a volta de Jesus Cristo e o reencontro com nossos filhos”.

Mães enlutadas que desejarem conhecer ou participar do Mães de Anjos podem entrar em contato com Rosana Fernandes pelo telefone e WhatsApp (35) 9192-1107.