Projeto quer restringir publicidade de bets em Paraíso
Proposta de Roney Vilaça também cria política de prevenção aos riscos das apostas on-line
Começou
a tramitar na Câmara Municipal de São Sebastião do Paraíso o Projeto de Lei nº
5.892, de autoria do vereador Roney Vilaça, que propõe proibir publicidade,
propaganda, promoção e patrocínio de empresas operadoras de apostas de quota
fixa e jogos on-line, as chamadas “bets”, em espaços, bens, eventos e
atividades vinculados ao Poder Público Municipal. A proposta também institui
uma política permanente de prevenção e conscientização sobre os riscos das
apostas.
Ao
apresentar o projeto durante a reunião ordinária de segunda-feira, 17, Roney
explicou que a iniciativa surgiu após ser procurado por uma família que
enfrentava as consequências da dependência em apostas. Segundo o vereador, uma
mulher teria perdido imóveis da família em razão dos jogos. “Eu recebi, na
verdade, um chamado, praticamente um clamor de uma família, em relação a uma
mãe que infelizmente se viciou nesses jogos, nessas apostas on-line, e ela
perdeu todos os imóveis da família”, relatou.
Roney
ressaltou que a proposta não pretende regulamentar ou proibir a prática das
apostas no município, matéria de competência federal, mas estabelecer regras
sobre aquilo que está sob responsabilidade do Poder Público local. “Ele não
adentra na esfera da legislação federal. Ele simplesmente regulamenta o que é
de interesse público do município, em relação aos nossos próprios públicos, aos
nossos eventos municipais, ao nosso esporte, para que jamais venha a nossa
Prefeitura um dia receber algum tipo de patrocínio ou permitir que seja feito
algum tipo de propaganda dessas casas de apostas”, explicou.
A
própria justificativa do projeto destaca que a intenção não é interferir na
competência da União para regulamentar as apostas de quota fixa, mas
disciplinar o uso de bens, espaços, eventos, recursos institucionais e canais
de comunicação mantidos pelo Município.
Publicidade e patrocínio
Pelo
texto, ficaria proibida a divulgação de empresas de apostas em prédios e
repartições municipais, praças, parques, ginásios, estádios, campos, quadras,
veículos oficiais, mobiliário urbano e meios oficiais de comunicação da
Prefeitura, incluindo sites, redes sociais e aplicativos. A restrição também
alcança uniformes, materiais esportivos, troféus, ingressos e estruturas
utilizadas em atividades promovidas ou organizadas pelo Município.
O
Município também não poderia aceitar patrocínio, apoio financeiro, doação,
parceria promocional, cessão de marca ou naming rights (direitos de
nomes) de empresas do setor. A regra valeria para eventos esportivos,
campeonatos, atividades culturais e recreativas, festas, shows, programas
públicos e ações destinadas a crianças e adolescentes.
Roney
citou como exemplo situações em que administrações públicas recebem recursos de
empresas de apostas para patrocinar eventos. Para ele, o poder público não deve
contribuir para normalizar uma atividade que pode causar prejuízos às famílias.
“Famílias estão sendo destruídas, pais estão deixando de levar o sustento para
casa porque gastam seu dinheiro do mês, infelizmente, com esse tipo de jogo e
apostas”, afirmou.
O
projeto prevê, em caso de utilização irregular de espaços ou equipamentos
públicos para publicidade dessas empresas, notificação para retirada do
material e multa correspondente a 40 Valores de Referência do Município (VRM)
por ocorrência, dobrada em caso de reincidência. Também poderá haver suspensão
ou revogação da autorização para utilização do espaço público.
Prevenção e conscientização
Além
das restrições publicitárias, o PL cria a chamada Política Municipal Anti-Bets,
voltada à prevenção de danos sociais, econômicos, familiares e relacionados à
saúde mental decorrentes do uso problemático das plataformas de apostas. Entre
os objetivos estão prevenir o endividamento, promover educação financeira,
combater a percepção de que apostas sejam uma forma de investimento ou fonte
segura de renda e reduzir a exposição de crianças e adolescentes.
A
proposta prevê campanhas em escolas, unidades de saúde e assistência social,
espaços esportivos e culturais, além de palestras, oficinas, produção de
materiais educativos, orientação a pais e responsáveis e capacitação de
profissionais que trabalham diretamente com crianças, adolescentes e famílias.
Roney
demonstrou preocupação especialmente com o contato cada vez mais precoce de
crianças e adolescentes com jogos e apostas pela internet. “Que as famílias
possam se atentar aos seus filhos, que cada vez mais cedo têm tido contato com
isso. Às vezes, ainda na escola já estão se viciando em jogos e apostas on-line
também”, alertou.
Na
justificativa, o projeto cita levantamento do Banco Central segundo o qual, em
agosto de 2024, aproximadamente 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias
beneficiárias do Bolsa Família teriam enviado cerca de R$ 3 bilhões para
empresas de apostas por meio do Pix. Para o autor, os números demonstram o
alcance das apostas entre famílias de menor renda e o risco de comprometimento
de recursos destinados à subsistência.
Ao defender a proposta, Roney afirmou que a dependência das apostas pode provocar consequências financeiras, familiares e psicológicas graves e que, diante das limitações de atuação do município, a intenção é utilizar os instrumentos disponíveis para enfrentar o problema. “Pelo menos aqui no nosso município, dentro da amplitude do poder que nós temos, possamos coibir esse tipo de prática e pelo menos acender uma luz de alerta, chamar atenção para esse debate que é muito importante”, concluiu. O Projeto de Lei nº 5.892 segue para análise da Comissão de Finanças, Justiça e Legislação.

