ESPAÇO SAÚDE

O caso do anestesista acusado de estupro: Você já ouviu falar de Parafilias e Transtornos Parafílicos?

Por: Redação | Categoria: Saúde | 21-07-2022 09:00 | 244
Dr. Luiz Gustavo Guedes - Psiquiatra
Dr. Luiz Gustavo Guedes - Psiquiatra Foto: Arquivo

As parafilias são padrões de comportamentos sexuais cujo a obtenção de prazer não necessariamente se dá pela atividade sexual regular, mas sim por situações, fetiches ou outras atividades muitas vezes consideradas estranhas, fora do que é aceito tradicionalmente ou até criminosas.

Nem todas as parafilias são consideradas anormais, sendo que algumas simplesmente são diferentes. Já outras são incompatíveis com a lei ou os costumes da sociedade e suas práticas podem levar o indivíduo a ser enquadrado no Código Penal, em situações constrangedoras ou ter danos permanentes em seu próprio corpo.

Temos como exemplo de parafilias, entre várias outras:

O Masoquismo, que é o desejo de ser espancado ou humilhado pelo parceiro afim de obter prazer sexual.

A Pedofilia, que é a atração sexual por crianças do sexo oposto.

A Pederastia que é a atração sexual por crianças do mesmo sexo.

O Voyerismo que se resume em obter prazer sexual ao assistir terceiros realizando atos sexuais, muitas vezes sem o conhecimento dos mesmos.

A Zoofilia que é obtenção de prazer sexual com animais.

A Necrofilia que é o prazer pelo ato sexual com cadáveres.

O Frotteurismo que é excitação dos órgãos sexuais com contato a outras pessoas de roupas, sem o consentimento delas, muito comum em ônibus urbanos com pessoas em pé.

O Piquerismo, que consiste em esfaquear ou cortar a vítima, em especial em região genital ou próximo, a fim de obter prazer sexual e orgasmo.

Algumas parafilias, quando de comum acordo com os parceiros sexuais são chamadas de fantasias sexuais e são realizadas entre adultos saudáveis, não trazendo prejuízos aos mesmos, podendo esta prática integrar uma relação carinhosa entre as partes.

Outras são prejudiciais e causam culpa, danos e/ou são descritas como crimes pelo Código Penal, interferindo na capacidade do indivíduo de viver uma vida normal e podendo ser prejudicial ao próprio e a possíveis vítimas. São estes os Transtornos Parafílicos.

Algumas pessoas com desejos parafílicos iniciam tratamento para evitar o sentimento de culpa e o prejuízo funcional durante a vida.

Outras buscam realizar estas atividades de forma clandestina para que não sejam descobertas ou expostas, entendendo os riscos e evitando sofrerem as consequências penais ou vexatórias destes atos por meio da indetecção e dissimulação.

A necessidade de obtenção de prazer e orgasmo por estes indivíduos pode causar impulsividade e dificuldade de autocontrole, os levando a cometerem estes atos libidinosos mesmo cientes dos riscos que estão envolvidos.

Dito isso, é comum em alguns casos que o indivíduo sinta-se culpado e arrependido após os realizar, em especial se existirem chances de ser identificado ou revelado tal feito a terceiros ou se a parafilia envolva punições legais ou vexatórias perante a sociedade.

Nestes últimos dias, circulou na mídia um crime bárbaro e bizarro de um anestesista que durante as cirurgia sedava em excesso e abusava sexualmente de grávidas em trabalho de parto.

Existe um transtorno parafílico pouco conhecido e raro, chamado de Sono-filia, um tipo de parafilia em que a excitação sexual e/ou o orgasmo são obtidos ao interagir sexualmente com um indivíduo em estado de sono ou sedação. Existe também a Pregnofilia, uma parafilia cujo a excitação sexual advém de observar/interagir com mulheres grávidas ou pela visualização de partos.

É um “modus operandi” semelhante ao descrito pela mídia neste caso, onde após as vítimas gestantes serem sedadas de forma excessiva e desnecessária, o indivíduo seguia com seu abuso sexual de forma organizada, minimizando os riscos de detecção pela vítima e por terceiros. Ele, ao ser detido, demonstrou frieza e calma, com alteração do semblante somente quando lhe foi informado que haviam vídeos comprovando seus atos, características que podem indicar também psicopatia, muito provável em casos organizados, perversos e metódicos como este.

É comum os indivíduos portadores de Transtorno Parafílico se engajarem em atividades as quais terão facilidade de exercer seus desmandos sexuais e tenha acesso garantido às vítimas, como por exemplo empregos e posições sociais as quais envolvam crianças no caso dos pedófilos e pederastas e cuidados com animais no caso de zoofilistas.

De acordo com o relato descrito na mídia sobre o caso do médico anestesista, algumas hipóteses podem ser levantadas, visto que o mesmo pode ter buscado exercer uma profissão a qual lhe garantiria acesso a vítimas mulheres gestantes, que iriam passar por procedimentos envolvendo sedação como parte normal da rotina anestésica.

Pelo ato em si elas já ficariam inconscientes e vulneráveis, permitindo assim que teoricamente o agressor tivesse total confiança em realizar sua perversidade e mantivesse o controle das mesmas para que pudesse se satisfazer sexualmente sem que elas ou outros percebessem, usando da posição profissional e da situação para não levantar suspeitas ou ser investigado e tendo consciência que, pelo efeito da medicação, suas vítimas não iriam lembrar do ocorrido ou não iriam poder depor com precisão.

Observam-se casos que evidenciam um complexo preparo premeditado do agressor durante a vida adulta para que o mesmo se insira em meios nos quais suas possíveis vítimas se encontram no dia a dia, visando cometer os atos indetectadamente, continuamente e de forma elaborada.

São predadores sexuais, organizados e com consciência que estão cometendo crimes, buscando sempre estarem alheios as suspeitas e usando da profissão ou posição social para justificar tais contatos e atitudes perversas.

Alguns casos mais graves envolvem transtornos parafílicos somados a outros transtornos psiquiátricos como de Personalidade Antissocial e Narcisista e suas variantes psicopáticas ou malignas, que podem levar a sensação de inconsequência e impunidade, frieza e falta de empatia com suas vítimas, além de uma organização para se manterem ativos e indetectados durante os anos.

Para saber mais sobre este e outros temas psiquiátricos, acesse as minhas matérias publicadas na coluna Espaço Saúde aqui no Jornal do Sudoeste ou meu Instagram @drluizgustavoguedes

Dr. Luiz Gustavo Guedes
Médico Psiquiatra
CRM/MG 63277
RQE 50446