ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 09-12-2023 00:03 | 42
Renato Zupo
Renato Zupo Foto: Arquivo

Black Friday mixuruca
O fenômeno de descontos da Black Friday deu errado este ano porque a economia brasileira também está dando errado e porque a expressão “desconto” no Brasil, tem um sentido ridículo, bem distante daquilo que de fato seria um desconto de verdade nos principais países do mundo. Desconto é vender a preço de custo nos EUA, ou com 40 a 50% de abatimento do preço de mercado em países da Europa ocidental. Aqui, aumentam pra depois diminuir porcamente. Além disso, nosso dinheiro está parando de circular. O dinheiro novo para empreendedorismo e geração de empregos parou de chegar e os investidores correm para dólares, fundos de investimento, e cessam a geração de renda e impostos. O panorama é assim em economias em recessão, que é o que acontece conosco apesar do silêncio obsequioso da grande mídia. 

Sem dinheiro, sem compras
Quando o dinheiro novo some, o dinheiro antigo fica restrito aos governos e bancos. Os governos pagam aquilo que lhes convém, aos correligionários, apoiadores e multiplicadores, e os bancos manobram com  dinheiro virtual, dinheiro que não existe de fato. O crédito para o consumidor está acabando, e com isso acaba até mesmo o dinheiro virtual, o dinheiro que é do banco, fica momentaneamente nas mãos do correntista, e depois volta para o banco. Não é inflação. Os bons números da inflação maquiam uma série de índices bastante preocupantes e que não chegam à população. Aliás, a inflação não tem nada a ver, individualmente, isoladamente, com o custo de vida ou com o índice geral de preços ao consumidor (IGPM). Estes critérios, custo de vida e IGPM, são apenas alguns dos vários que servem para medir a inflação. Esta, alta ou baixa, não está impactando ainda no consumo. Uma coisa é a desvalorização do poder de compra da moeda (que é a inflação), outra coisa é um mercado retraído e sem novos investimentos. É o que estamos vendo agora.

O que é normal e o que é correto
Com as audiências judiciais on line gravadas pelos sistemas de processamento judicial digital, com armazenamento em nuvens, todos os atos processuais se tornaram não somente públicos, mas devassados, midiáticos, superlativos. Estes conteúdos demonstram uma realidade até então pouco discernida de que o destempero, nervosismo e troca  de farpas em audiências, infelizmente, são comuns. Atenção aqui: cuidado com o significado das palavras. Dizer que uma coisa é “comum” não quer dizer que ela está “correta”.

O estresse é o único culpado?
As discussões em audiência  ocorrem porque o nível de estresse é sempre ou quase sempre altíssimo. Mas o juiz, o primeiro entre iguais, o “primus inter pares”, tem que velar ao máximo para que isto não ocorra e deve, ele próprio, procurar manter a calma sempre. Haverá deslizes, juízes há que deslizam demais – alguns vão dizer, ou que não deveriam deslizar tão intensamente – dirão outros. Fazer o quê? A sociedade que não tem uma educação perfeita, uma saúde perfeita, uma economia perfeita, quer um judiciário perfeito – e acha isso natural. Uma colega lá do norte foi  divulgada berrando com  uma testemunha porque não esta não a chamou de “Excelência”. Causou revolta, porque perdemos a paciência com muita distinção e pouca eficiência. Berro é injustificável em qualquer hipótese, principalmente por nada. A hipótese revela uma testemunha equilibrada conversando em termos distintos, porém não subservientes, sobre assunto oficial – enquanto a magistrada o interrompia aos berros exigindo pronomes de tratamento.

Falando difícil
Pronome de tratamento é regra de respeito e de português e devemos ser assim sempre e com todas as pessoas, sendo o destinatário juiz ou não. Para mim, por exemplo, mulher casada é “senhora”, não importa a idade. Mas a juíza que quer ser tratada como “Excelência” está formalmente errada, porque o correto a se dizer em audiência para juízes é  “meritíssimo” e não “excelência” – este último tratamento se restringe a magistrados de tribunais superiores, parlamentares, chefes do Poder Executivo. Só que o “meritíssimo” é parnasiano, vetusto, antigo. Substituíram pelo “doutor”, que também está bom. Repito: não tem nada que ver com distinção, ao menos com distinção específica para juízes. É tratamento formal que cabe bem em todo ambiente formal, inclusive em salas de audiência.

País dos doutores
Não tratar pelo pronome de tratamento não significa desacatar, ser ofensivo ou  pouco atento às regras de urbanidade (cortesia) em uma sala de audiências judicial. E se a testemunha tivesse chamado a juíza de “você”? De novo, não seria ofensiva. Lembremos dos pronomes – o “você” era originalmente formal. É uma corruptela, uma simplificação, do “vossa mercê”, pronome formal de tratamento. Chamar de “você” é chamar com distinção, portanto, não é agressivo e nem pouco educado. Não é o correto, mas em um país tão cheio de problemas, devemos eleger nossas prioridades e procurar tornar a vida do outro mais fácil.

O dito pelo não dito:
Vaidade: homenagem de um palerma ao primeiro imbecil que aparece”. (Ambrose Bierce, escritor americano). 

RENATO ZUPO – Magistrado, Juiz de Direito na Comarca de Araxá, Escritor