RYAN BONACINI

Além dos limites: A jornada inspiradora de Ryan Bonacini

Jovem paraisense transforma tragédia e preconceito em medalhas e sonhos
Por: Ralph Diniz | Categoria: Esporte | 03-02-2024 14:10 | 1059
 Ryan Bonacini foi medalhista de prata nos 100 e nos 400 metros livres no campeonato nacional em duas oportunidades
Ryan Bonacini foi medalhista de prata nos 100 e nos 400 metros livres no campeonato nacional em duas oportunidades Foto: Divugação

Inspirado pelas palavras de Ayrton Senna, que uma vez disse que “é preciso tentar e tentar novamente até conseguir”, Ryan Bonacini, um jovem paraisense de 16 anos, transformou sua vida através do esporte após um acidente que quase o matou. No atletismo, ele encontrou uma paixão e uma nova forma de encarar o mundo.

Assim como Senna, o jovem não se limitou a enfrentar os desafios; ele os superou, redefinindo o que significa ser um campeão, não apenas nas pistas, mas na vida. Através de sua jornada, Ryan vive a máxima de seu ídolo, mostrando que, com persistência e coragem, é possível transformar os sonhos em realidade.

Ryan levava uma vida normal, como um garoto qualquer, até um dia de 2019, quando uma brincadeira de criança mudava o seu destino para sempre. “Quando eu tinha 12 anos, eu caí em cima do meu braço enquanto estava brincando com um amigo. Foi uma fratura normal, não foi exposta. Só que eu tive uma trombose muito grave. Mais três horas, ela iria para o meu coração e eu teria morrido”, lembra o rapaz.

Foram cerca de 45 dias internado na Santa Casa de Paraíso, período em que foi submetido a 32 cirurgias, correndo o risco de ter o braço amputado. “Foi luta atrás de luta. Eu sofri muito, fiquei muito triste, fiquei muito abalado. E o mais triste de tudo era ver a minha mãe chorando, sofrendo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo. Dormia em um sofá pequeno que tinha no quarto. Muitas vezes ficava com fome para que eu pudesse comer”.

Depois da alta, uma nova luta tinha início na vida de Ryan: contra o preconceito das pessoas. “Muita gente olhava para o meu braço com nojo. Passei a usar camiseta de manga longa para me esconder. Tinha vergonha”, comenta olhando para as cicatrizes deixadas pelas dezenas de cirurgias.

Ryan sempre foi apaixonado por esportes, tanto é que, mesmo com a pouca idade, conhece a trajetória de vários personagens históricos de várias modalidades, incluindo Ayrton Senna, um dos seus grandes ídolos. Antes do acidente, o jovem era praticante de kung fu, mas abandonou a arte marcial. Após as cirurgias, o tempo de recuperação e o período de “luto”, ele percebeu que sentia falta de algo. “Fiquei três anos nesse conflito comigo mesmo. Aí eu pensei: ‘Já que não posso mais usar os braços no kung fu, vou usar as minhas pernas’. E fui jogar futebol. Só que os meninos tinham uma sobreposição física sobre mim, então eu comecei a treinar, correr sozinho, porque eu queria ser melhor. E eu treinei muito a acabei me tornando um bom jogador”.

Foi a partir daí que a vida de Ryan começou a mudar. Em 2022, durante a disputa das seletivas municipais dos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) que o jovem viu um novo horizonte se abrir diante de seus olhos. Após os jogos de futsal, ele foi convidado a participar das competições de atletismo. “Eu nem sabia que tinha essas seletivas. Participei das provas dos 400 e 800 metros e ganhei as duas. Eu me lembro das pessoas gritando o meu nome, torcendo por mim. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Eu nem dormi direito à noite, porque eu senti que tinha mostrado o meu valor”.

As vitórias nas seletivas municipais deram a Ryan a oportunidade de disputar a fase final dos jogos estaduais, em Uberaba. Empolgado com a chance, ele passou a treinar no campão (Estádio Municipal Irmãos Capatti) com o apoio do irmão Richard, que ele faz questão de dizer que é uma de suas grandes fontes de inspiração. “Ele ficava me ajudando a marcar os meus tempos e me incentivando a não desistir”.

Ali também o seu destino se cruzou o aquele que seria o seu grande mentor: o professor e atleta César Leandro, um dos grandes nomes das corridas em São Sebastião do Paraíso. “Eu sempre o via treinando alguém enquanto eu corria sozinho na pista do campão e sentia vontade de ir conversar com ele, perguntar as coisas”.

Porém, ainda faltava um capítulo a ser escrito antes de Ryan e César começarem a trabalhar juntos. O jovem foi para Uberaba disputar o JEMG sozinho e seus resultados não foram muito animadores e ele acabou fora das finais. Foi então que o professor entrou em ação na vida do aluno: “Eu estava triste, decepcionado. Cheguei no Centro Olímpico chorando porque tinha perdido, e o César me falou que eu não tinha que ficar daquele jeito, porque eu tinha melhorado meu tempo em seis segundo lá em Uberaba. Disse que eu tinha batido o meu recorde sem treinar direito, por isso tinha ido muito bem”.

Ryan propôs para que César o treinasse e o professor, mesmo não tendo nenhum projeto para alunos de base, aceitou o pedido. O aluno fez questão de pagar pelas aulas e arrumou um emprego de meio período em uma serralheria para custear as aulas. “Eu estudava de manhã, trabalhava à tarde e treinava à noite. Eu nunca deixei de estudar. Às vezes acabava ficando cansado em algumas aulas, mas nunca perdi nada. Eu sempre quis ser o melhor, sempre busquei isso”.

E os primeiros frutos da dupla começaram a ser colhidos logo depois do início da parceria. César levou Ryan para uma corrida de rua em Guaxupé, que foi vencida pelo jovem atleta. Mas aquilo era apenas o começo do que estava por vir. Ryan voltou à fase estadual do JEMG, conquistando dois quartos lugares nas provas de 400 e 800 metros (havia ficado em 15º no ano anterior), além de ganhar a medalha de bronze com a equipe mista na prova dos 4 por 400 metros.

Pouco depois, Ryan partiu para a disputa do JEMG paralímpico, em Ipatinga, se consagrando campeão estadual. Além da medalha de ouro, o jovem teve a oportunidade de representar Minas Gerais nas Paralimpíadas Escolares, os jogos brasileiros para jovens atletas portadores de necessidades especiais. “Fiquei em segundo lugar, ganhei a medalha de prata. Perdi apenas para o atleta do Tocantins, o Hen-tony, que é muito bom. Fiquei feliz, é claro, mas eu queria mais”.

E, assim, Ryan intensificou ainda mais os treinamentos e, no ano seguinte, voltou a ser campeão estadual e voltou à competição nacional, que foi disputada em São Paulo. “Eu treinei, treinei muito, porque queria ser campeão brasileiro. Era o meu grande objetivo”.

Mas, as coisas nem sempre acontecem como deveriam acontecer e, por um erro da organização de prova, o atleta de Paraíso, mesmo tendo o segundo melhor tempo do Brasil na categoria, teve que participar da bateria que decidiria o pódio do campeonato sozinho, já que havia nove competidores para oito raias, o que acabou prejudicando o seu resultado. Ainda assim, ele conquistou a prata mais uma vez. “O César não pôde viajar comigo naquele dia e eu acabei ficando sozinho lá. Quando têm nove atletas para oito raias, eles costumam colocar cinco em uma bateria e quatro e outra, mas não foi isso o que aconteceu. Me fizeram correr sozinho. Eu tentei falar com eles, chorei, mas ninguém me ouviu. É muito difícil correr sem um adversário ao seu lado, porque você fica sem comparativo. E isso me deixou muito mal. Mas, mesmo chorando, eu fui lá, corri e consegui a prata”, lembra.

Engana-se, porém, quem acredita que a frustração fez com que Ryan desistisse do seu sonho de conquistar a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos Escolares. Logo depois chegar de São Paulo, ele calçou o tênis e voltou aos treinos. “Eu serei campeão. Eu disse para a minha mãe que isso vai acontecer. Por isso que hoje eu tenho que treinar debaixo de chuva ou de sol, tudo para garantir que eu vou chegar lá. Eu vou dar tudo de mim para dar estar lá este ano de novo”. E a missão começa entre abril e maio, quando provavelmente acontece o JEMG, que qualifica os paratletas mineiros para o nacional.

O título de campeão das Paralimpíadas Escolares, contudo, não é o ponto de chegada na vida esportiva de Ryan. O jovem paraisense sonha com voos bem mais altos e pensa em representar o Brasil não apenas nas Paralimpíadas como, também, nos Jogos Olímpicos convencionais. “O César me disse que eu não vou ser somente campeão paralímpico, mas que posso ser campeão olímpico também. E eu acredito nele. Eu sei que, se treinar duro, me dedicar, eu posso conseguir”, diz o atleta, que hoje conta com o patrocínio da Fetramov e com o apoio de academias de natação, musculação, fisioterapia e pilates.

O treinador César Leandro compartilha detalhes valiosos sobre a evolução de Ryan Bonacini, destacando não apenas a transformação física, mas também emocional e psicológica do jovem atleta. “Quando conheci Ryan, ele estava emocionalmente abalado, principalmente por causa do acidente e de como se sentia em relação ao seu braço. Ele só treinava de manga comprida, tentando esconder as cicatrizes, mesmo sob o calor intenso. Foi um processo delicado, mas conseguimos superar juntos essa barreira, mostrando a ele que suas limitações físicas não o definiam como atleta, nem como pessoa”, revela César. A mudança na autoestima de Ryan, que passou a aceitar e exibir seu braço sem vergonha, é descrita pelo treinador como uma conquista inestimável.

Por fim, César reflete sobre os desafios e recompensas do treinamento. “Nosso objetivo sempre foi além dos resultados em competições; queríamos que Ryan tivesse uma história de vida marcante e diferenciada. As vitórias nas pistas são consequência de seu esforço e dedicação. Mas o que muitos não veem são os desafios diários, como treinar sob chuva ou superar frustrações pessoais. Trabalhamos muito o lado psicológico de Ryan, ensinando-o a encarar cada adversidade como parte de seu crescimento. Sua evolução, de se deixar abater facilmente a entender e superar cada obstáculo, é o verdadeiro triunfo”, conclui César, orgulhoso da jornada de Ryan e de sua própria contribuição para o desenvolvimento desse promissor paratleta.

Ao mestre com carinho. Ryan e o professor César em uma das competições em que o aluno foi medalhista
Paratleta paraisense em ação nas Paralimpíadas estudantis
Paratleta paraisense em ação nas Paralimpíadas estudantis