POLEPOSITION

Sonho de infância realizado

Por: Sérgio Magalhães | Categoria: Esporte | 01-06-2024 00:05 | 686
Emocionado, Charles Leclerc realizou sonho de criança ao vencer o GP de Mônaco
Emocionado, Charles Leclerc realizou sonho de criança ao vencer o GP de Mônaco Foto: Daniele Benedetti

Faltavam duas voltas para a bandeirada do GP de Mônaco e os olhos de Charles Leclerc estavam marejados. Ele estava visivelmente emocionado debaixo do capacete a caminho da realização de um sonho de criança que alimentou com seu pai, Hervé, falecido em 2007 sem nunca ter visto o filho correr em Mônaco, sua terra natal.

O engenheiro da Ferrari percebeu a situação e o alertou pelo rádio: “Charles, você não pode ficar assim agora. Você ainda tem duas voltas pela frente”. Mas não havia como conter. Assim foi o mix de êxtase e do peso tirado dos ombros. Por várias vezes Leclerc foi golpeado pelos contratempos em Mônaco, mas agora finalmente ele venceu! “Devo dizer que estava pensando no meu pai muito mais do que esperava enquanto pilotava. Não houve uma única corrida em que eu não estivesse pensando nesse tipo de coisa pessoal dentro do carro. Tenho esses flashes de todos os momentos que passamos juntos, todos os sacrifícios que ele fez para que eu chegasse onde estou”, disse com lágrimas nos olhos o piloto da Ferrari que aprendeu a gostar de corridas acompanhando a F1 nas ruas do Principado quando criança e alimentando o sonho de um dia ser piloto da escuderia italiana, sempre incentivado pelo pai.

Leclerc mais do que ninguém sabe do quanto sofreu para chegar ao topo. Seu histórico em Mônaco vinha sendo cruel desde 2017 quando correu pela primeira vez em Monte Carlo no ano de estreia na F2 e abandonou as duas corridas. Em 2018 abandonou com a Alfa Romeo devido a um acidente. Em 2019 colecionou outro abandono, mas nada pior do que conquistar a pole em 2021 e não poder largar por conta de uma quebra mecânica na volta de apresentação como consequência de um toque nos guard-rails depois de ter feito a volta da pole position, assim como em 2022 depois outra pole que foi pelos ralos devido a um erro de estratégia da Ferrari.

Desta vez não poderia dar errado. E não deu. Leclerc dominou os treinos e espantou a ‘zica’ que o assombrava em não converter em vitória as últimas 12 vezes que largou da pole position. Foi a sua 6ª vitória na F1, a primeira depois de uma seca de 39 corridas desde o GP da Áustria de 2022, e finalmente o momento mágico de vencer em Mônaco. Foi a primeira vitória de um monegasco em Mônaco desde Louis Chiron em 1931 quando ainda não existia a F1 e as corridas eram simplesmente chamadas de Grand Prix. E vale como registro o fato de Mônaco tornar-se o 24º país (na verdade uma pequena cidade-estado) diferente com vitória na F1.

Mas o momento foi mágico apenas para Leclerc. Porque o 70º GP de Mônaco foi uma das corridas mais tediosas dos últimos tempos na F1. Tão sem graça ao ponto de merecer um troféu quem teve a paciência de ficar sentado diante da TV aguardando 45 minutos para os reparos nos guard-rails danificados pela batida entre Sergio Pérez e Kevin Magnussen na primeira volta, e depois longas 78 voltas em quase 2h de uma corrida em que não houve uma ultrapassagem sequem entre os dez primeiros colocados. Nas mesmas posições que Leclerc, Piastri, Sainz, Norris, Russell, Verstappen, Hamilton, Tsunoda, Albon e Gasly largaram, eles terminaram.

Com a concepção dos atuais carros de F1 muito mais largos que os de 30 anos atrás, não é de se esperar muita coisa do GP de Mônaco, mas surpresas sempre podem aparecer e depois de uma classificação emocionante no sábado, havia boa expectativa antes da largada quando as equipes recolheram os aquecedores de pneus e revelou um grid bem dividido com metade dos pilotos calçados pneus médios e outra metade com os duros. Mas o acidente entre Pérez e Magnussen na primeira volta matou a estratégia e estragou a corrida.

A F1 precisa urgentemente rever a regra da obrigatoriedade do uso dos dois compostos de pneus. Desde 2011 quando foi adotada, todos os pilotos são obrigados a usar no mínimo dois compostos diferentes de pneus durante a corrida, exceto em caso de chuva. Até aí tudo bem. O que precisa ser mudado é a permissão de em caso de bandeira vermelha (como em Mônaco), ou de Safety Car, os pilotos poderem usar deste artifício para cumprir a regra.

Por conta dessa brecha no regulamento, quem estava com pneu médio colocou o de composto duro e vice-versa, e como havia uma corrida inteira pela frente, todos adotaram a postura de “correr devagar” para poupar os pneus e não precisar fazer um pit stop extra numa pista difícil de ultrapassar.