• Dos Leitores •

Conversa fora

Por: . | Categoria: Do leitor | 12-06-2024 00:07 | 691
Foto: Arquivo

Por Murilo Caliari e André Rodrigues Pádua,

revisão de Gabriela Lages

A Conversa Fora de hoje foi feita bem depressa. Acho que estamos pegando o jeito. Por mera coincidência, nossas crônicas insistem em “bater papo” entre si.

Na quarta-feira, ligo pro André e digo em alto e bom som “Boa tarde, mano! Saiu a primeira leva da nossa coluna! Você pode escrever mais pra semana que vem?” E daí, no dia seguinte, nós dois já estávamos com o negócio pronto.

Percebo que os textos naturalmente se entrelaçam, são ideias comuns lançadas como iscas, ou melhor, dados, ou pior, dardos. Palavras lançadas como dardos a esmo, livres de quaisquer subterfúgios ou má fé. E até então, estes últimos experimentos, em especial, são fluxos narrativos que têm como assunto principal o Tempo. Breves histórias que se interligam na ideia de como percebemos a passagem do relógio. Cada qual seguindo seu ritmo único, afinado num tom, aproveitando dos próprios temperos, do humor e da vocação para a inutilidade da poesia — que chega pra nos lembrar que a vida não é útil. Sigamos em frente:

O anoitecido

por André Rodrigues Pádua

Há quem levante antes do próprio dia acordar. Há quem utilize o galo como despertador. Há, ainda, quem, por falta de opção, se ponha de pé ainda meio dormindo e passe o dia todo perambulando enquanto sonha acordado. Mais ousado, contudo, é quem inverte os papeis do dia e da noite, não se resignando aos desmandos autoritários da velha Natureza.

Conheci uma figura pertencente a esta última espécie de esteta do sono em Paraíso. Seu nome, profissão e o local onde morava, contudo, agora me fogem como a claridade foge do céu todos os dias ao anoitecer. O que é impossível de esquecer eram seus hábitos, que impressionavam justamente pela distinção em relação ao que estamos acostumados, e que ele esbanjava por aí com a maior naturalidade, parecendo mesmo não se dar conta de seu estilo singular. Que o digam as pessoas que dele já receberam um sonoro “bom dia” às dez e meia da noite, ou um apressado “boa tarde” perto das cinco da manhã.

Da última vez que o encontrei era verão, e a noite anterior havia presenteado nossa cidade com um luar deslumbrante, quase fotográfico. Eu passava a pé pela Lagoinha no começo da tarde e ele se encontrava sentado em um dos bancos, descansando a vista nas águas. Com a memória ainda fresca da beleza da Lua amanhecida, e sabendo de sua vigília noturna, me sentei ao lado dele e comentei:

—  Um espetáculo a Lua de ontem, hein?

— Não te ofusca os olhos ficar admirando a Lua assim? — retrucou com estranheza, enquanto mirava diretamente e a olho nu o sol a pino.

Antes que eu conseguisse esboçar qualquer tréplica àquele questionamento, ele se levantou com pressa, disse que já passava da hora de dormir e desejou-me boa noite.

Você
por Murilo Caliari

Você está na fila do banheiro. É noite, a música confunde os sentidos. Já não sente fome. A cerveja alimenta, como pão ou combustível. Você sabe que o álcool inibe o ADH. E ainda conhece a importância de obedecer às imposições da sua bexiga.

Você está na estação Central aguardando o próximo metrô. É manhã de segunda-feira. Já não sente aquela alegria de ontem. A bebida estragou sua sorte como prenúncio de um mau agouro. Você sabe que o álcool não mais lhe cai bem. E no dia seguinte a ressaca ofusca o brilho do seu olhar. E ainda conhece a fragilidade do seu rim direito. Você está quase no horário de almoço, seus alunos estão impossíveis. Miguel cospe no colega enquanto Luiza aponta o lápis. É meio-dia e os ponteiros se recusam a avançar. Já faz um tempo que os dias perderam a graça. A ansiedade parece apagar as gracinhas em sala de aula. Você sabe que a responsabilidade é uma faca de dois gumes — enquanto te propõe disciplina e temperança, ceifa seu dom da vagabundagem. E ainda persiste seu desejo de ser uma boa pessoa.

Você está dentro da vida, é dia, tarde e noite. Já não existe limite na consciência, a imaginação é capaz de alcançar lugares que a memória nunca esteve. Você sabe que seus dias estão contados por questões biológicas. E ainda conhece um jeito de deixar tudo de lado, com razão.

Você agora é este texto, nada existe além do contato com as palavras neste jornal. Já não tem por que fugir, o agora é este ponto. A concordância é matéria relativa. Você sabe que estamos chegando a um desfecho. E ainda reconhece o som da sua voz.