• CONVERSA FORA •

Conversa Fora

por Murilo Caliari e André Rodrigues Pádua Revisão por Gabriela Lages
Por: . | Categoria: Do leitor | 26-06-2024 00:10 | 371
Foto: Arquivo

Os textos dessa semana seguem uma lógica diferente. Não estão relacionados. Cada qual trata de um assunto. Enquanto sugiro como seria um universo perfeito, me atendo às miudezas no cotidiano. André escreve uma ode aos carecas. De maneira simpática e bastante estruturada, ele elabora uma crônica que me gerou boas gargalhadas. Espero que vocês também se divirtam.

Dias Perfeitos

Por Murilo Caliari

Num universo ideal as pessoas consomem cerca de quatro horas pra espreguiçar. Espreguiçar, um verbo tão comum, carrega na sua maleabilidade outra gama de significados. Entre os quais é possível listar: acordar, rememorar lugares estapafúrdios frequentados nos sonhos, levantar vagamente e direcionar cambaleante até o sanitário onde acontece o primeiro jato do xixi, sensações fabulosas fora do sono revigorante...

Acompanhar os carros cortando o vento em direção a destinos imaginários, esquentar a água numa chaleira. Lembrar do aconchego do abraço da companheira na noite passada. Suspirar e esfregar os olhos pra limpar as manchas na retina nutridas por uma formação de remelas, o que pode parecer nojento num claro instante, mas depois se apresenta como a lindeza do serviço natural corpóreo. Dar descarga. Girar o enrosco da torneira, ver a água escorrendo brilhosa. Lavar o rosto, ah que maravilha é a manhã! Há tantas maravilhas dentro de um espreguiçar que só os rolos de fumaça e a borra de café no filtro descartável ou no tecido podem explicar. Adiante, um dia inteiro pra fazer que valha a pena um mundo de injustiça, mas de fraternidade e ousadia dentre o chão bruto das calamidades e da insistência das flores que brotam com o sorriso de alguém que você ama.

Respeitem meus cabelos poucos - uma homenagem aos carecas

Por André Pádua

Quem me conhece já sabe: logo no primeiro olhar é possível notar que falta alguma coisa ali em cima. Pra tentar sair do zero, sempre que vou ao cabeleireiro peço para ele "ajustar a minha franja", "caprichar na trança" e coisas do tipo. Inevitavelmente, termino no máximo na maquininha um, mas a miséria capilar é compensada pelo banquete de espirituosidade. E assim vamos vivendo os carecas, numa constante batalha entre fios e brios, cujos ares de tragédia assopram sempre de modo a fazer esvoaçar a as madeixas dos cabeludos e a derrubar nossos parcos pentelhos.

A situação de um conhecido meu é ilustrativa para demonstrar como não estou exagerando. Após as insistentes e ubíquas pressões da ditadura dos penteados a que estamos submetidos, A. M. (seria vexatório não preservar sua identidade) passou a sentir um terrível desgosto sempre que observava, no espelho ou qualquer outro reflexo mais fugidio, a clareira existente no topo de sua cuca. Imerso em um desalento tão expressivo quanto a própria testa, resolveu finalmente iniciar o procedimento de implante capilar em uma renomada clínica da capital paulista.

Após muito dinheiro, dores e dias sacrificados por mechas, o tratamento finalmente foi concluído por completo e A. M. passou a ostentar por aí uma respeitável e volumosa cabeleira. De tão impressionante o resultado, davam-lhe dez anos a menos do que sua verdadeira idade e se multiplicaram os olhares quarenta e três a ele direcionados.

Acontece que, decorrido um tempo depois das primeiras surpresas com os resultados do implante, A. M. começou a desenvolver um sentimento ambíguo, uma espécie de coceira ardida nas ideias que o fazia recear em olhar o próprio reflexo e até evitar de tocar a própria cabeça. Saía despenteado e vacilava ao responder aos elogios que lhe faziam aos cabelos, sem saber se deveria ou não agradecer. Quando enfim tomou coragem para se encarar com franqueza diante do espelho, fixou o olhar por alguns minutos sobre a cabeleira, desafiando-a. Examinou cuidadosamente os fios, reparando em sua força e solidez enquanto conjunto, mas também em sua fragilidade, já que não seria necessário muita força para arrebentá-los um a um. Interrogou-se, achando graça, se debaixo da terra os topetes ainda conseguiam se manter em pé e, num lapso, sorriu debochadamente, enquanto se imaginava novamente careca na imagem diante de si.

No dia em que me contou tudo isso, A. M. usava um chapéu velho. Curiosamente, chovia muito e o sol parecia ter se esquecido de sair.