ELY VIEITEZ LISBOA

Santidade

Por: Ely VIeitez Lisboa | Categoria: Acidente | 16-09-2017 21:09 | 1963
Foto: Reprodução

Cara narradora,




Envio-te este texto, sem data, escrito em alguma madrugada solitária. Faze o que quiseres com ele.
Acordar é uma ressurreição. Cada noite, meu Monte das Oliveiras. Por que a sensação que eu único ser no mundo recebeu esse calvário, letal presente de grego, fígado cruento de Prometeu, que renasce a cada noite? Durante o dia, onde os monstros? Ocultam-se nas dobras das frustrações, usam máscaras, com sorrisos liriais, criam pretensas auras de santidade? Cada abraço amigo é tentáculo de polvo que pode sufocar?
A noite desce e as pálpebras nervosas tentam não descerrar as cortinas do trágico espetáculo, mórbido happening de autor psicótico. E eu, sempre a personagem central. Medos, fobias, traumas são coleantes serpentes laocoônticas que se inserem sob os alvos lençóis, dilacerando-me, violentadome. A tragédia, mil vezes chorada, consegue água maldita para os olhos que já se pensavam secos. O coração acelera. Uma noite, o ar faltou-me. Sentei-me desesperada na borda da cama. O fim. Assim, sufocamento? Aos poucos, a tortura amainou e o ar refrescou as entranhas. Sofre, infeliz, a sentença / condenação não terminou ainda.
Uma manhã, com os olhos muito abertos, uma figura angélica, alta e loira, um homem, surgiu à direita do meu leito, entre a cortina alva e a cama. Sorriu triste e complacente. Nada disseram os olhos azuis. Breve oásis no deserto. Desvaneceu-se.
O coração amainou e começou a brotar uma nova verdade. Insight iluminado. Meus monstros e eu. Eu e eles. Monobloco. Personagem cínica. Labirinto sem saída. Veio enfim, a serenidade. Um quase gozo. Era preciso conviver com eles, com suas afiadas garras, o odor fétido, as línguas viperinas, ásperas, o couro escamoso.
Deitaram-se todos comigo, em uma cumplicidade mista de sensualidade, vida e perversão. Acho que nessa noite, iniciou-se a minha santidade.                                                                         




A AUTORA
(*) Carta / Capítulo do meu romance epistolar Cartas a Cassandra.
(*) Literatura é algo mágico e complexo. Você escreve, põe para fora seu mundo abissal, seus medos, fobias e o milagre se dá: função catártica, alívio. Uma leveza, aura, doce brisa alivia a alma, como uma oração. Olhos ávidos acompanham o texto, alguns entendem, se comovem, encontram-se; outros se escandalizam, porque se consideram santos, puros. Na verdade, a única diferença é ter ou não coragem de abrir a alma. É preciso acreditar: somos todos do mesmo barro. 




(*) Ely Vieitez Lisboa é escritora
E-mail: elyvieitez@uol.com.brs