SÃO TOMÁS DE AQUINO

Professor Leandro está de volta do curso na Suíça com rica bagagem de novos conhecimentos

Por: Selma Braia | Categoria: Acidente | 27-09-2017 16:10 | 2001
Aula no CERN
Aula no CERN Foto: Reprodução

Jornal do Sudoeste - O curso feito no Centro Europeu para Pesquisa Nuclear – CERN - foi o que esperava?
Professor Leandro - O curso superou minhas expectativas. Contou com palestras e visitações a instalações de detectores, aceleradores, sala de controle, túneis e demais locais do CERN. Foi um curso intenso de, aproximadamente, uma semana de aulas e visitações. Em muitos dias o curso durava das nove horas da manhã até onze horas da noite, independente se era um dia de sábado, domingo ou feriado. A pontualidade suíça é impressionante. Os palestrantes trouxeram um conteúdo complexo, que é a Física de Partículas, para a nossa realidade, explicando com muita didática e mostrando algumas das aplicações desta parte da Física na medicina, por exemplo. Uma fala que me marcou muito foi a do coordenador do curso, o professor português Pedro Abreu, que explicou que no CERN todos são tratados igualmente. Todos se hospedam no mesmo hotel, independente se são pesquisadores ou estudantes, as refeições são feitas no mesmo restaurante, você almoça ao lado dos maiores cientistas do mundo, alguns até com prêmio Nobel.




Jornal do Sudeste - Como foi a criação do Laboratório?
Professor Leandro - O CERN foi criado através da cooperação entre países que, fora do CERN, algumas vezes são inimigos, como o Irã e os Estados Unidos, porém, são companheiros no estudo científico. Não podíamos chamar os palestrantes de professores, pois todos éramos iguais. Isso foi muito comovente ao fato de que, vários dos maiores físicos do mundo estavam tão próximos de nós e com uma humildade tão grande que mostra que, com união, conseguimos grandes feitos. A recordação mais fascinante que tenho deste curso é a amizade que tive com os outros 19 professores brasileiros, com os coordenadores brasileiros Nilson Garcia e Nelson Júnior, com o coordenador português Pedro Abreu, palestrantes, guias e, principalmente, com os 20 professores portugueses, pessoas hospitaleiras, curiosas com as coisas do Brasil e que já estão deixando saudades. Aprendi muito sobre a educação em Portugal e com os desafios do país, percebendo também que nem tudo na Europa é perfeito, existem muitas metas a serem alcançadas também.




Jornal do Sudoeste - Na Eu-ropa, sentiu qual emoção em relação ao nosso país?
Professor Leandro - Senti esperança por dias melhores. Nós temos um país rico que não utiliza suas riquezas da forma correta. Em Portugal e na Suíça as leis são cumpridas. Regras claras, faixas de pedestres respeitadas, ruas limpas, pessoas cautelosas com o que falam e fazem, organização e eficiência. Muitas pessoas acham que a Europa é o primeiro mundo, pois tem dinheiro. Mas eu percebi que a grande diferença entre a Europa e o Brasil é o modo como as pessoas tratam o bem público e o próximo. Enquanto no Brasil as pessoas sujam o chão porque existe alguém para limpar, nos países que visitei existe mais respeito com o próximo, zelo com a coisa pública. Cuidado com o que falam e fazem, respeito aos limites e leis. Infelizmente esta educação europeia não é utilizada por grande parte dos brasileiros. O nosso problema não são os políticos, o nosso problema é o nosso jeito de cuidar do nosso país, pois se realmente o brasileiro valorizasse seu país, não votaríamos em pessoas com mal caráter, não seria preciso tanto gasto com reparação de bens públicos, não haveria tantos atos, pequenos ou grandes, de corrupção. Se o Brasil investisse seriamente em educação, teríamos um país melhor, com mais respeito pelas pessoas e com o bem público.




Jornal do Sudoeste - O laboratório é ao “ vivo” como no filme Anjos e Demônios?
Professor Leandro - O Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear, CERN, é o maior laboratório de Física de Partículas do mundo. Tudo começa com uma pequena garrafa de hidrogênio onde são retirados prótons deste hidrogênio e começam a ser acelerados. Passam por pequenos aceleradores até chegarem ao maior acelerador de partículas do mundo que é o LHC (Grande Colisor de Hádrons), onde feixes de prótons colidem e as partículas criadas nesta colisão são estudadas pelos detectores CMS, ATLAS, ALICE e LHCb. No filme é mostrado um grande túnel com um tubo azul, esse é o LHC, que está a cem metros de profundidade e possui vinte e sete quilômetros de extensão. O CMS é um grande detector de partículas em forma cilíndrica com 21 metros de largura, 16 metros de comprimento e 12.500 toneladas.




Jornal do Sudoeste -  Voltando ao filme o que é realidade o que é ficção?
Professor Leandro -  São lugares impressionantes, muito mais fascinantes ao vivo do que no filme. Anjos e Demônios é uma ficção científica onde uma pessoa rouba uma quantidade de antimatéria do CERN, que pode destruir a Terra. Isso é apenas ficção, pois, embora seja criada e estudada a antimatéria, não existe este risco para o planeta. Além disso, visitamos a sala de controle, que aparece no filme, e a sala dos computadores que analisam os dados dos experimentos do CERN que são distribuídos para o mundo todo. Existe também a estátua da deusa Shiva, que muitos relacionam com a destruição do Universo. Mesmo com algumas mentiras e exageros, como o risco de destruição da Terra através da antimaté-ria e de buracos negros, o filme é interessante para que as pessoas conheçam um pouco sobre o CERN, mas devem pesquisar as verdades por trás deste laboratório que tem o único objetivo de fazer ciência e não de criar meios para destruir a Terra. Prova disso é que a internet foi criada no CERN e já existem muitos estudos para tratamento de câncer através da Física de Partículas, por exemplo.




Jornal do Sudoeste – E o Leandro turista? Se sentiu “em casa” em Portugal? E em Genebra?
Professor Leandro - Em Portugal me senti em casa, não apenas pela língua, mas pela hospitalidade e respeito das pessoas quando eu pedia informações, comprava algo ou visitava algum lugar. A língua falada em Portugal é um pouco diferente da nossa, com palavras diferentes, como telemóvel (celular), autocarro (ônibus) e casa de banho (banheiro). Os portugueses adoram as novelas do Brasil e assistem alguns canais de TV brasileiros, porém reclamam que os telejornais do Brasil mostram apenas violência, causando medo aos turistas que queiram visitar o país. Visitei a Igreja de São Jerônimo, onde foram feitas as bênçãos aos navegadores antes de embarcarem para a viagem que chegaria até o Brasil há mais de 500 anos, foi um dos momentos mais comoventes da viagem. Fui no Memorial dos Navegadores, em vários museus, na Praça do Comércio, no Castelo de São Jorge, na Torre de Belém, no Parque das Nações e demais locais turísticos de Lisboa. Para quem ama o Brasil, esta visita a Portugal é inesquecível, pois nos mostra a origem de grande parte de nossa cultura e do nosso jeito de ser.




Jornal do Sudoeste – Foi diferente na Suíça?
Professor Leandro - Na Suíça, não me senti tão em casa, pois a língua falada em Genebra é o francês. Mas consegui me comunicar bem através do inglês. É um país muito organizado, com leis rígidas, pessoas mais fechadas do que em Portugal, talvez por receio de roubo ou aversão a estrangeiros. As coisas são muito caras para quem troca reais em francos suíços, isso mostra que somos afetados diretamente pela desvalorização do nosso dinheiro. Existem poucas opções para alimentação, frutas e verduras são raras. Porém, é um país muito bonito, tive a honra de visitar a casa de Albert Einstein, em Berna, um local que parece muito com um conto de fadas. Conheci a sede das Nações Unidas, ONU, em Genebra e vários outros locais de atrações turísticas.




Jornal do Sudoeste - O seu compromisso de divulgar a Física de Partículas será de que forma? 
Professor Leandro - Um dos requisitos para participar do curso Escola de Física CERN, promovido pela Sociedade Brasileira de Física, SBF, pelo Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas, LIP, em Portugal e pelo CERN, na Suíça é a divulgação da Física de Partículas. Sendo assim, antes mesmo de embarcar para o curso conversei pessoalmente com o nosso superintendente regional de ensino e demais autoridades da área da educação de nossa região informando meu compromisso em fazer palestras para professores, minicursos e cursos de Física de Partículas em escolas da região e, principalmente, na Escola Estadual Dr. Tancredo de Almeida Neves, em São Tomás de Aquino. Além disso, fui nomeado para o cargo de professor de Física na escola estadual Mário Delia, em Franca – SP, onde, oportunamente, desejo divulgar esta área da Física também nesta escola e na região de Franca. Outra maneira interessante de divulgação é através do Facebook, em uma página que criei para esta viagem e curso e também através de meu site (www.profleandromoraes. com.br) onde as pessoas podem conhecer um pouco mais sobre o CERN e sobre o professor Leandro e seus projetos.




Jornal do Sudoeste - O que fica para sua vida pessoal de tudo que vivenciou?
Professor Leandro - O que mais me comoveu foi o grande carinho e atenção das pessoas que torceram por mim, mesmo considerando a grande importância do curso e a novidade de ir para a Europa. Desde a divulgação de minha seleção entre os vinte professores do Brasil houve uma repercussão enorme, graças à Internet, à entrevista que fiz ao Jornal do Sudoeste, à Rádio São Tomás e a vários outros meios de comunicação. Pessoas que eu nem conhecia vieram me parabenizar, criei novas amizades e reforcei amizades antigas. As pessoas torceram de verdade pelo meu sucesso, me sinto feliz por ser um exemplo a ser seguido de que, com a educação conseguimos alcançar os nossos sonhos. Quando retornei à minha escola, a escola Dr. Tancredo em São Tomás de Aquino, todos os professores e alunos estavam me esperando na porta da escola com uma linda faixa me parabenizando e dando boas - vindas. Foi uma emoção enorme saber da torcida que tive e não posso deixar de fazer meu papel de embaixador oficial do CERN no Brasil, não apenas transmitindo os conteúdos de Física que aprendi, mas também transmitindo o espírito de compartilhamento que existe no CERN, onde todos são iguais e mostrando a todos de que a educação é o caminho para que o nosso país se torne realmente um país onde todos tenham o direito de viver em paz, de possuir qualidade de vida e de serem respeitados.

Leandro em frente ao prédio da ONU
Leandro em Genebra
Grupo de participantes do curso no CERN
Professor Leandro em visita casa de Einstein
Homenagem ao professor Leandro
Professores e alunos  no momento da chegada  de Leandro na EETAN