ENTRETANTO

Entretanto

Por: Renato Zupo | Categoria: Justiça | 08-10-2022 18:12 | 2115
Renato Zupo
Renato Zupo Foto: Reprodução

As urnas e a vida
Encontrar explicações para o que se passa pela cabeça do eleitor durante os breves momentos em que escolhe quem irá governá-lo por quatro longos anos é tarefa difícil e solucionável somente diante da análise fria dos meses de campanha política. Junte pesquisas eleitorais fora do contexto e imprecisas (curiosamente beneficiando só um dos lados da disputa), adicione uma abstenção inusitada à filas de espera nunca antes vistas na hora do voto. E mais dois fatores, estes percebíveis, mas que me surpreenderam pela intensidade: o silêncio dos bons e a militância de esquerda. Sobre a omissão dos que devem lutar pelo bem, Martin Luther King já alertava. E a militância profissional petista – realmente foi cirúrgica, para além da normal eficiência e típica de um grupo convicto em ganhar a qualquer custo, desesperado para retirar Bolsonaro do poder. Para eles, os fins justificam os meios, sempre – só dá pra brigar com adeptos fanáticos neste mesmo nível, o que é um perigo: é assim que surgem os Adélios. 

Fenômenos Bolsonarianos
O atual presidente elegeu uma bancada histórica para o PL no Congresso Nacional, mais de 100 deputados. Elegeu com números recordes a diversos senadores e ainda no primeiro turno governadores se elegeram ou reelegeram com fortíssimo alinhamento ideológico com o conservadorismo de Bolsonaro. Um jovem candidato mineiro apoiador do presidente está eleito com mais de um milhão de votos. Este pessoal deve mostrar a cara no segundo turno para apoiar o atual presidente, e acredito mais neles do que no apoio de Ciro, Soraya e Tebet. Seria ridículo que pedissem votos agora para Bolsonaro. Ciro sai arrebentado pelos institutos de pesquisa que forçaram seus eleitores a escolher um dos dois candidatos mais bem colocados, como se Lula já estivesse eleito. O voto em dois turnos, aprendemos isto historicamente, existe justamente para que não seja necessário o “voto útil” no primeiro turno – pensamento democrático muito bem observado na Constituição Federal e vilipendiado pela polarização política até aqui inusitada e que, para Lula da Silva, é “normal”. Na verdade, incita o discurso do ódio. O outro lado deixa de ser adversário para virar inimigo, o que a nossa ordem constitucional  procurou evitar ao autorizar o pluripartidarismo.

O Voto do Silêncio
A colega Ludmila Grilo guarda comigo diversas similaridades: somos ambos juízes de direito do Tribunal de Justiça Mineiro e ambos alunos de Olavo de Carvalho. Possuímos canais em redes sociais onde divulgamos conteúdos de informação e conhecimento. Aliás, Olavo de Carvalho dizia que ser conservador não é para homens (e mulheres) feitos de geleia. O que estão fazendo com Ludmila é incrível em uma sociedade moderna e democrática: está lacrada, processada e inabilitada e investigada porque manifesta opinião, porque tem acesso ao jornalista Allan dos Santos com prisão política decretada por crime de pensamento, porque critica processos em curso. Vamos lá: juiz não pode pedir e declarar votos, não está proibido de se manifestar politicamente. E falar sobre processos em andamento… mais do que os atuais ministros do STF fazem? E Ludmila é juíza concursada, de carreira, mereceu estar onde está. A diferença, parece-me, é toda no que ela diz, não porquê diz: por diversas vezes denunciou o aparelhamento do Poder Judiciário, que aliás é retórica antiga, histórica e está em Antônio Gramsci. Ela apenas repete a ciência política, aqui. E, para Gramsci, confessada leitura de cabeceira de Fernando Haddad,  muito mais fácil para a dominação cultural enquadrar ideologicamente tribunais com poucos juízes do que um parlamento com mais de quinhentos congressistas – está nos livros, está na história, novamente não foi Ludmila quem inventou. Que a colega saiba que não está sozinha. O Estado de exceção é tão gritante que juízes do Brasil inteiro já param de se calar. Devem ter se lembrado de Marthin Luther King.

Quem é juiz
Quem é juiz de fato não deve ter medo de déspotas. De censura. Quem é juiz e vela pelos interesses dos brasileiros não pode descurar de seus Direitos à despeito do medo. Se juízes tem medo, coitados dos jurisdicionados. Já disse aqui e repito: meus antepassados fugiram da tirania, no oriente da ditadura religiosa e na Itália, do fascismo. Um primo meu ficou para trás no Líbano, e foi assassinado em um posto de combustíveis só pelo fato de ser católico. Meu avô chegou ao interior de Minas acreditando que por aqui as ruas eram calçadas com ouro e pedrarias e, quando viu a realidade pobre que o esperava, chorou dias e noites em um quartinho de pensão de saudade de sua terra natal, que nunca mais veria na luta pela vida e pela liberdade e sustento de seus filhos. Não desonremos nossos ancestrais, que lutaram por nossa liberdade. Eles foram corajosos em exilarem-se dos ditadores pagando o pesado preço da perda do torrão natal para que pudéssemos viver em uma sociedade livre. Livre de censura, de ditadura, de opressão. Como juiz e cidadão, não consigo conceber e nem obedecer às leis da mordaça, venham de onde vierem. E atenção: está acontecendo conosco, no Poder Judiciário. Nós que também somos agentes políticos. Imaginem com o cidadão comum. É hora de dar um basta a isto, pela honra e pelo bem da República. Nossa arma é a liberdade- como já dizia JK. Só ela – o que já é muito. Não a abandonemos.

O Dito pelo não dito
“Sem educação literária não existe discernimento moral” (Olavo de Carvalho, pensador e escritor  brasileiro).
RENATO ZUPO Juiz de Direito na comarca de Araxá, Escritor