FUTURO EDUCAÇÃO

Professores estão pessimistas quanto ao futuro da educação pública

Pesquisa aponta que maioria dos docentes acredita que a educação deve piorar nos próximos 10 anos. Especialistas de Paraíso comentam os dados
Por: Ralph Diniz | Categoria: Educação | 11-05-2023 16:35 | 1501
Foto: Prefeitura de Coronel Fabriciano/Divulgação

Um levantamento realizado pelo Instituto Casagrande com cinco mil professores de todo o País apurou que mais de 60% dos docentes consultados acreditam que a educação pública vai piorar no Brasil na próxima década. A pesquisa, divulgada pela Agência Brasil na semana passada, têm causado preocupação em lideranças do setor, que temem pela queda da qualidade do ensino das crianças e jovens.

De acordo com os números divulgados, 61,2% dos professores brasileiros estão pessimistas quanto ao futuro da educação pública no País; já 25,6% creem em melhoras, enquanto 9,2% afirmam que não haverá nenhuma mudança significativa no período. Os demais 4% não souberam responder ou não concluíram a pesquisa. Os professores responderam por meio do canal do instituto no Whatsapp.

Diante dos fatos, o Jornal do Sudoeste entrevistou personagens importantes no desenvolvimento da educação pública em São Sebastião do Paraíso, a fim de saber como eles receberam o resultado dessa pesquisa.

Regina Márcia Penha Pimenta, educadora paraisense aposentada com mais de 50 anos de experiência e ex-secretária municipal de Educação, declara-se “profundamente entristecida” ao tomar conhecimento de que há tantos colegas de profissão desanimados e sem esperança. Ela afirma que esse sentimento de pessimismo é resultado de uma realidade que insiste em permanecer e que algo necessita ser feito nesse sentido com urgência. “Se o fracasso da escola publica brasileira incomoda os seus profissionais, incomoda igualmente milhares de famílias que têm direito a uma escola eficiente. Uma educação de qualidade não depende somente de seus profissionais, não podemos simplesmente dizer que isso muito triste e injusto. É necessário que o sistema educacional brasileiro trabalhe em uma perspectiva global, cumprindo a sua função de gestor, com uma visão direcionada ao desenvolvimento humano”.

Para o atual secretário municipal de Educação, Lucas Cândido, os números demonstram uma “grande onda de descredibilidade” na área, que foi intensificada pela pandemia de covid-19. Para ele, o pessimismo da maioria dos docentes é um sinal de que o brasileiro vive hoje uma crise de otimismo, de identidade e de perspectivas. “Não que antes essa perspectiva não existisse, mas foi inflamada. Pensar que a educação vai piorar não está distante quando se pensa no País, na economia, no meio ambiente, etc. Enfim, há uma visão pessimista sobre o futuro, independentemente do setor de atuação”.

E por falar em pandemia, o presidente do instituto de pesquisa, Renato Casagrande, declarou que os docentes esperavam, a princípio, estar mais otimistas no retorno às aulas presenciais porque tinham experimentado novas práticas no ensino remoto, tinham feito experiências novas, contudo, a escola permaneceu a mesma.

E Regina Márcia concorda com o posicionamento do pesquisador: “Houve uma rápida transformação da sociedade humana. A década da comunicação alavancou o acesso às informações. A escola pública brasileira não fez parte das redes científicas e tecnológicas dos outros centros de pesquisas que proliferaram mundialmente. Nos últimos anos, o sistema brasileiro de educação arriscou-se a ficar excluído de fenômenos importantes de nosso tempo, devido a investimento escasso na área. E as diferenças se agravaram quando no período da recente pandemia do coronavírus, alunos participaram de aulas online com seus computadores, enquanto outros milhares não possuíam nem o sinal de internet”.

Questionada sobre a existência desse sentimento pessimista a respeito do futuro da educação existia no passado, quando ainda atuava como professora, Regina Márcia responde que não. Todavia, ela lembra que os tempos eram outros. “Quando comecei a lecionar, as relações sociais e políticas no trabalho eram diferentes. Porém, a escola não era aberta a todos. As percepções eram diferentes. Passamos por períodos de autorita-rismo e, posteriormente, a escola tornou-se democrática e se abriu para todos (o que foi ótimo), mas não se adequou às diferenças entre todos. Não havia esse pessimismo com relação à educação pública, mas o distanciamento entre os que aprendiam e os que não aprendiam aumentou”, diz a docente aposentada.

Responsável pela gestão da educação pública municipal, Lucas Cândido não acredita que o pessimismo dos professores em relação ao futuro interfira na qualidade do ensino que é oferecido às crianças e jovens da rede. “Eu confio nos servidores da educação. A partir do momento que o ser humano assume o papel de educador, ele assume atribuições inerentes ao cargo e não fará algo que prejudique alunos que são inocentes nesse processo todo”.

Por fim, questionados sobre quais medidas e estratégias poderiam ser realizadas para reverter o quadro, os entrevistados assumem uma postura realista diante dos fatos. “Não há uma fórmula de remédio que resolva essa questão na sociedade. O que há é a iniciativa de cada um em fazer a sua parte para termos um futuro melhor, para o bem da causa comum. Um ambiente propício para a família, para o trabalho, para o diálogo e, conse-quentemente para a Educação”, comenta Cândido.

E Regina Márcia completa: “Seria mais fácil responder se fôssemos falar sobre utopia. Acredito que seria indispensável que os responsáveis pelo sistema educacional brasileiro utilizassem de toda a responsabilidade que lhes confere a função para desenvolver o melhor trabalho dentro do seu departamento. A crença e a esperança voltariam a povoar o imaginário ideal dos professores. Como aprender a viver juntos nesta aldeia global, se não somos capazes de viver nas comunidades naturais a que pertencemos: nação, região, cidade, aldeia, vizinhança? Comecemos pela nossa comunidade. Querer acertar ou não depende do sentido de responsabilidade de cada um. Crer nas oportunidades que a educação oferece a cada docente que está diante de nós impulsionará o primeiro passo do professor transformador”, conclui a educadora, mencionando trecho do relatório da Comissão Internacional Sobre Educação Para o Século 21, da Unesco, sob o título “Educação: um tesouro a descobrir”.

Os resultados da pesquisa serão debatidos durante o 4º Congresso Internacional “Um Novo Tempo na Educação”, que será realizado em Curitiba, de 31 de maio a 2 de junho, com a participação de estudiosos e especialistas em educação do Brasil, psicólogos e agentes públicos ligados à área. “Os dados vão contribuir para que os grandes educadores possam fazer uma análise, principalmente de alguns temas que preocupam os professores e até justificam esse desânimo por parte dos nossos docentes”, explica o presidente do Instituto Casagrande.